Friday, March 30, 2007

O verde das folhas das árvores.

De Leandro Molino


Sempre, em qualquer relacionamento humano, nos deparamos, hora ou outra, com a questão do que é e do que não é verdade. Como um dogma, o tema “verdade” surge em nosso tempo como uma das pilastras de sustentação dos relacionamentos pessoais e profissionais. Todavia, pecamos em dois níveis nesse sentido: primeiro, ao tentarmos definir o que seja a verdade; segundo, ao elegermos um dos mais frágeis conceitos, a verdade, como elemento de relevo para a condução de nossas vidas. Parece loucura afirmar isso? Então, observe: conviver significa, antes de qualquer coisa, aceitar; é somente em decorrência desta aceitação é que conseguimos compartilhar efetivamente impressões, sensações, receios e reflexões; e somente aptos a compartilhar é que convivemos harmoniosamente, pois aprendemos a aceitar as diferenças, principalmente no que tange à leitura dos fatos e acontecimentos. Ao depararmo-nos diante de conceitos inflexíveis, nos postamos defronte de obstáculos quase intransponíveis à arte da convivência. Não estou apregoando, diga-se, o “império da mentira” como a solução para as nossas diferenças. Todavia, o que o “império da verdade” produziu de positivo para as nossas vidas? Apenas ressalto que ao elegermos, de forma puritana, a verdade como único conceito de correção, mais nos equivocamos do que acertamos. Por uma questão natural, o ser humano não é um animal que disponha de uma única cor, de uma única forma, de um único tamanho. Portanto, nós, humanos, não somos uniformes, seja física ou intelectualmente. Geneticamente apresentamos muito mais semelhanças do que imaginamos. Mas na aparência, na forma de pensar e, principalmente, na de agir, somos diametralmente diferenciados uns dos outros. E se somos seres tão díspares, por que eleger um conceito que permite as mais variadas interpretações como elemento de relevância para a nossa convivência? Será que o mesmo verde que vejo nas folhas das árvores é o que você vê? Será que este verde apresenta a mesma nuança, a mesma tonalidade para todos nós? Concordamos que estas folhas sejam verdes e essa nossa concordância cessa aí. Não estou autorizado a exigir que você veja o “meu” verde; nem você que eu somente enxergue o “seu” verde. E esse é o nosso maior erro no trato com as outras pessoas, pois existe (e isto é fato!) a verdade oficial, a real e a sua verdade, que decorre da personalíssima análise dos fatos. É muito comum que pessoas que pertençam à mesma classe social, que tenham recebido uma educação similar e que disponham de um grau de cultura equânime analisem um mesmo hipotético fato de maneira absolutamente diferenciada uma da outra. Imagine a gravidade desta ocorrência no contexto de uma sociedade inteira, tão dissolvida pelas diferenças quanto a nossa? E não me refiro ao caso do nosso País, o glorioso e sempre futuramente próspero Brasil. Em todo o mundo convivemos desta mesma forma, especialmente no Ocidente, sem “recordarmos” que essencialmente somos diferentes uns dos outros. Nosso equívoco, assim, está em elegermos um conceito que admite interpretações variadas como o mais relevante elemento de julgamento. Se você somente fala a verdade, é uma pessoa boa. Mas de que verdade nos referimos? Por que, ao invés de simplesmente aceitarmos este conceito, não promovemos uma real revolução, aprendendo a efetivamente aceitar estas diferenças? Talvez muitos dos nossos problemas de convivência, muitas das questões sociais que nos afligem, apresentem como “receita” essa nossa inflexibilidade, a de exigirmos, sempre, a “verdade”. Por que não exigirmos, além da verdade, o amor? Talvez este seja o primeiro passo para uma efetiva mudança comportamental que repercutirá, certamente, em todos os níveis dos nossos relacionamentos. Estaremos, conseqüentemente, aceitando, tolerando, as nossas diferenças e compreendendo que não é a partir da imposição de conceitos que, enfim, evoluiremos.

2 comments:

Acerola das Neves said...

Afinal de contas, o conceito de verdade é justamente aquele que provoca muitas das guerras... as santas por exemplo... cada um defende a sua, como defesa de mercado mesmo, só deve-se tormar cuidado pra nao defender algo q futuramente te apontará como "o novo burro da face da terra" ehehehe abraço!
Tiago Abad

Anonymous said...

Olá Leandro,

Concordo com a opinião do Tiago, infelizmente muitos acreditam que a "sua" verdade é a mais verdadeira...

Muito bom texto!

Bjitos!

Lu Muniz