Cronista Convidado: Maria Izabel
- Você ficou descabelada.
Sorrindo ela passou os dedos pelo cabelo.
Desajeitado ele procurou e tirou do bolso um pequeno pente:
- Ruinzinho mas dá pra usar.
Enquanto penteava os cabelos curtos, ouriçados, sentia os olhos dele. De um jeito tão menino, tão terno.
- Não, assim não. Espera!
E tomando o pente nas mãos se pôs a ajeitar os cabelos dela.
Com gestos suaves, aos poucos, sem se dar conta, desembaraçou-a.
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Tuesday, September 04, 2007
Tuesday, May 01, 2007
E as pêras rolaram....
Cronista Convidado: Amanda Cruz
Manhã de quinta-feira. A velha rotina de sempre. Acordar, tomar um banho para espantar o sono, olhar pela janela para conferir as condições climáticas e seguir para a etapa do dia mais difícil na vida de uma mulher: escolher que roupa vestir.
Após trocas incontáveis de blusinhas, calças, tênis e sandálias, acabei escolhendo qualquer coisa, por achar que não tinha roupa suficiente e por estar mais do que atrasada para o trabalho. O tempo corre ligeiro na cidade de São Paulo.
Passo no supermercado para comprar algo que consiga enganar meu estômago. Escolho três pêras.
Caminho em direção ao ponto de ônibus. Logo chega minha condução e, como já era esperado, lotada.Torço para alguma pessoa levantar para que eu posso me acomodar sem ser mais espremida que sardinha enlatada durante todo o percurso. Consigo um lugar, acomodo meu saquinho de frutas entre meus pés e começo a ler o jornal.
Tudo parecia correr bem quando uma freada repentina do ônibus lança todos os passageiros para frente, assim como minhas pêras, que rolaram saquinho a fora como se tivessem vida própria e resolvessem passear entre os pés das pessoas. Considerando impossível a hipótese de tê-las de volta, tentei me esconder atrás do jornal e esquecer a existência daquelas três pêras fugitivas.
Esforço em vão. Sempre existe uma pessoa com ótimas intenções, que recolheu as frutas perguntando em alto e bom som a quem pertenciam. E, é óbvio, que alguém sempre vê tudo, mesmo num ônibus lotado, e também resolve praticar o bem dizendo “é daquela mocinha ali!”.
Silêncio. Senti o ônibus inteiro me observando. A pressão era muita, como naqueles interrogatórios de filmes policiais. Todos aguardavam o meu depoimento. Diante das circunstâncias, tive que assumir que as pêras estavam sob minha responsabilidade e prometi cuidar melhor delas.
Pêras devolvidas, agradeci e desci antes mesmo de chegar no meu ponto. Na pressa, não percebi que o saquinho furou. As pêras mais uma vez tentaram fugir. Observei uma a uma caindo e rolando pela calçada. Quer saber? Fujam! Desta vez não me importarei com vocês.
“Ei moça! Suas pêras!” Olhei para o cara que gritava no meio da rua e disse: “Pode ficar com elas, tô com pressa!”
Nunca pensei que algumas frutinhas pudessem transformar uma pacata manhã a caminho do trabalho em uma situação tão constrangedora.
Manhã de quinta-feira. A velha rotina de sempre. Acordar, tomar um banho para espantar o sono, olhar pela janela para conferir as condições climáticas e seguir para a etapa do dia mais difícil na vida de uma mulher: escolher que roupa vestir.
Após trocas incontáveis de blusinhas, calças, tênis e sandálias, acabei escolhendo qualquer coisa, por achar que não tinha roupa suficiente e por estar mais do que atrasada para o trabalho. O tempo corre ligeiro na cidade de São Paulo.
Passo no supermercado para comprar algo que consiga enganar meu estômago. Escolho três pêras.
Caminho em direção ao ponto de ônibus. Logo chega minha condução e, como já era esperado, lotada.Torço para alguma pessoa levantar para que eu posso me acomodar sem ser mais espremida que sardinha enlatada durante todo o percurso. Consigo um lugar, acomodo meu saquinho de frutas entre meus pés e começo a ler o jornal.
Tudo parecia correr bem quando uma freada repentina do ônibus lança todos os passageiros para frente, assim como minhas pêras, que rolaram saquinho a fora como se tivessem vida própria e resolvessem passear entre os pés das pessoas. Considerando impossível a hipótese de tê-las de volta, tentei me esconder atrás do jornal e esquecer a existência daquelas três pêras fugitivas.
Esforço em vão. Sempre existe uma pessoa com ótimas intenções, que recolheu as frutas perguntando em alto e bom som a quem pertenciam. E, é óbvio, que alguém sempre vê tudo, mesmo num ônibus lotado, e também resolve praticar o bem dizendo “é daquela mocinha ali!”.
Silêncio. Senti o ônibus inteiro me observando. A pressão era muita, como naqueles interrogatórios de filmes policiais. Todos aguardavam o meu depoimento. Diante das circunstâncias, tive que assumir que as pêras estavam sob minha responsabilidade e prometi cuidar melhor delas.
Pêras devolvidas, agradeci e desci antes mesmo de chegar no meu ponto. Na pressa, não percebi que o saquinho furou. As pêras mais uma vez tentaram fugir. Observei uma a uma caindo e rolando pela calçada. Quer saber? Fujam! Desta vez não me importarei com vocês.
“Ei moça! Suas pêras!” Olhei para o cara que gritava no meio da rua e disse: “Pode ficar com elas, tô com pressa!”
Nunca pensei que algumas frutinhas pudessem transformar uma pacata manhã a caminho do trabalho em uma situação tão constrangedora.
Saturday, March 31, 2007
Dicas de relacionamento
Cronista Convidado: Fábio Pacheco
Muito bem mulheres, leiam com atenção. Vocês devem tomar cuidado com certos tipos de rapazes. Esses que dirigem por aí, ouvindo malditas músicas altas sem sentido algum e que ninguém liga. Percebam que eles só as deixam no último volume para chamar a atenção enquanto dirigem, certos de que vocês vão se atirar dentro do carro e depois colocar a cabeça para fora e gritar "Ai ai, eu adoro quando você coloca Bonde do Tigrão bem alto assim!". TÁ BOM. O que vocês devem fazer é: mirem nos pneus e explodam a droga toda.
E cuidado também com esses caras que só aparecem no final de semana e tudo o que fazem é assistir futebol e a cada cinco minutos dizer "Ei gatinha, pegue mais uma cerveja pra mim?". AHH! Fale para esse gordo bastardo levantar e pegar ele mesmo! E se ele der uma resposta do tipo "Mas eu trabalho a semana toda", diga-lhe que é o mínimo que ele pode fazer já que alguém já ficou com o bebê dentro da barriga por nove meses.
Mas e as mulheres? Homens, tomemos cuidado com as que usam jóias caras. Sabe o tipo de pessoa que tem quinze tipos diferentes de anel em cada dedo? E as idiotas que usam "plaquinhas" com o próprio nome? Pior ainda se tatuarem o próprio nome no corpo. Será que são TÃO idiotas, a ponto de acordarem de manhã e dizerem "Oh Deus, Qual é meu nome!?", e aí devem se olhar ao espelho e aí sim vem a resposta, "Ah sim, eu sou a Catiulssa". Há um bom teste para saber de tudo isso: se enquanto estiverem andando no shopping, ela lhe puxar pelo braço para uma loja de jóias, arremesse-a no vidro e corra, pois você não quer viver com uma maldita árvore de natal a vida toda.
E minha melhor dica sobre relacionamentos é: deixe o outro em paz. Não se preocupe demais. Não tente dominar ninguém. Deixe o outro ser independente. Veja que logicamente há pessoas que não conseguem viver assim. Por exemplo, se sua garota passar pela sala com uma camisinha na cabeça e você sentir aquela vontade de perguntar a ela o que está acontecendo, não pergunte. Ao invés disso, tente confiar na individualidade de cada um.
Se isso não funcionar, sabe de uma coisa? Que se f***! Deixe que ela caia de tão doente. E morra! Você é melhor que isso e não deve tentar se aprovar pela vida de outra pessoa. Todo mundo é uma ilha e pode ser uma ilha. Você necessariamente não precisa de outro para viver a vida. Portanto pare de procurar algo que não está "lá" e viva.
Muito bem mulheres, leiam com atenção. Vocês devem tomar cuidado com certos tipos de rapazes. Esses que dirigem por aí, ouvindo malditas músicas altas sem sentido algum e que ninguém liga. Percebam que eles só as deixam no último volume para chamar a atenção enquanto dirigem, certos de que vocês vão se atirar dentro do carro e depois colocar a cabeça para fora e gritar "Ai ai, eu adoro quando você coloca Bonde do Tigrão bem alto assim!". TÁ BOM. O que vocês devem fazer é: mirem nos pneus e explodam a droga toda.
E cuidado também com esses caras que só aparecem no final de semana e tudo o que fazem é assistir futebol e a cada cinco minutos dizer "Ei gatinha, pegue mais uma cerveja pra mim?". AHH! Fale para esse gordo bastardo levantar e pegar ele mesmo! E se ele der uma resposta do tipo "Mas eu trabalho a semana toda", diga-lhe que é o mínimo que ele pode fazer já que alguém já ficou com o bebê dentro da barriga por nove meses.
Mas e as mulheres? Homens, tomemos cuidado com as que usam jóias caras. Sabe o tipo de pessoa que tem quinze tipos diferentes de anel em cada dedo? E as idiotas que usam "plaquinhas" com o próprio nome? Pior ainda se tatuarem o próprio nome no corpo. Será que são TÃO idiotas, a ponto de acordarem de manhã e dizerem "Oh Deus, Qual é meu nome!?", e aí devem se olhar ao espelho e aí sim vem a resposta, "Ah sim, eu sou a Catiulssa". Há um bom teste para saber de tudo isso: se enquanto estiverem andando no shopping, ela lhe puxar pelo braço para uma loja de jóias, arremesse-a no vidro e corra, pois você não quer viver com uma maldita árvore de natal a vida toda.
E minha melhor dica sobre relacionamentos é: deixe o outro em paz. Não se preocupe demais. Não tente dominar ninguém. Deixe o outro ser independente. Veja que logicamente há pessoas que não conseguem viver assim. Por exemplo, se sua garota passar pela sala com uma camisinha na cabeça e você sentir aquela vontade de perguntar a ela o que está acontecendo, não pergunte. Ao invés disso, tente confiar na individualidade de cada um.
Se isso não funcionar, sabe de uma coisa? Que se f***! Deixe que ela caia de tão doente. E morra! Você é melhor que isso e não deve tentar se aprovar pela vida de outra pessoa. Todo mundo é uma ilha e pode ser uma ilha. Você necessariamente não precisa de outro para viver a vida. Portanto pare de procurar algo que não está "lá" e viva.
Saturday, March 03, 2007
Loucos, loucos
Cronista convidado: Alexandre heredia
Às vezes eu percebo que estou preso.
Não é sempre, não é não. Só às vezes eu percebo. E bate aquela impotência. Tenho vontade de chorar, mas não vou dar a eles essa alegria, ah, não dou. Respiro fundo e continuo.
Bem cedo me levam para uma salinha. Dois caras me esperam lá. São loucos, loucos, mas gostam dessa loucura. Abraçaram-na, institucionalizaram-na, vivem-na. Eu não. Eu ainda não. Eu ainda me debato. E eles sabem. Eles vêem. Mas não vão me dobrar. Não vão, não. Eles são loucos. Eu não.
Me fazem perguntas. Coisas triviais. Coisas não. Complexas. Para eles, que são loucos, não para mim. Me dão uma folha de papel e uma caneta quando peço. Desenho e escrevo o que eles pedem na folha. Simples. Rápido. Básico. Eles se entreolham. Não entenderam. Claro que não, são loucos. Eu não sou. Não ainda. Tento explicar, mas só pioro a situação. Eles agradecem e me levam de volta.
Mais testes. Vivo fazendo testes. E bebendo. Não, nada de álcool. Preciso me manter lúcido para realizar os testes. Bebo água salobra. E uma coisa horrível que eles cismam em chamar de café, mas não acredito que seja. Não sou burro. Não sou louco. Eu lembro como é café de verdade, e essa coisa solúvel não é. Quem eles querem enganar?
Imagens e letras viajam na minha vista. Correm, se escondem, reaparecem. E eu entendo tudo. Claro, não sou louco! De vez em quando me perguntam o que aquilo tudo significa, mas ninguém entende. Loucos, loucos. E me mandam de volta. Previsíveis.
Um dia reclamaram que eu não me socializava. Que eu não me misturava com o resto dos loucos. Não me misturo com vocês, seus loucos! Quase disse isso. Juro. Mas as palavras pararam na garganta e eu as engoli. Filtre angústia, rim, nesta autêntica diálise social.
A maioria que entra aqui logo se adequa ao sistema. Se não é louco, como eu, fica rapidinho. E acabam felizes nessa ignorância. Esses são rapidamente mandados embora. E eles choram ao sair. Idiotas. Preferem a prisão. Loucos idiotas comedores de merda.
Os dias passam devagar. Os pensamentos rápido. As idéias idem, mas não as digo. Não as guardo. É perigoso ter idéias. Assusta os loucos. E o que assusta eles me apavora. Porque estou preso com eles. Dia a dia.
Antes do sol se pôr (eu acho, pois aqui não temos direito a janelas) me levam de novo pra salinha e me perguntam o que eu fiz o dia inteiro. Eu digo. E eles não entendem. Me dão broncas. Me apontam dedos. Disparam perdigotos. Eu ouço. Eu assimilo. Meu rim filtra tanto que chega a doer. Eu volto pro meu lugar. Letras, imagens, botões...
Até que chega uma hora que me dizem: "Vai embora". Eu pergunto: "Por quê?", e eles respondem: "Você já estourou o banco de horas".
Eu pego minhas coisas e vou.
Mas volto amanhã.
Trabalho em escritório é mesmo uma loucura.
Às vezes eu percebo que estou preso.
Não é sempre, não é não. Só às vezes eu percebo. E bate aquela impotência. Tenho vontade de chorar, mas não vou dar a eles essa alegria, ah, não dou. Respiro fundo e continuo.
Bem cedo me levam para uma salinha. Dois caras me esperam lá. São loucos, loucos, mas gostam dessa loucura. Abraçaram-na, institucionalizaram-na, vivem-na. Eu não. Eu ainda não. Eu ainda me debato. E eles sabem. Eles vêem. Mas não vão me dobrar. Não vão, não. Eles são loucos. Eu não.
Me fazem perguntas. Coisas triviais. Coisas não. Complexas. Para eles, que são loucos, não para mim. Me dão uma folha de papel e uma caneta quando peço. Desenho e escrevo o que eles pedem na folha. Simples. Rápido. Básico. Eles se entreolham. Não entenderam. Claro que não, são loucos. Eu não sou. Não ainda. Tento explicar, mas só pioro a situação. Eles agradecem e me levam de volta.
Mais testes. Vivo fazendo testes. E bebendo. Não, nada de álcool. Preciso me manter lúcido para realizar os testes. Bebo água salobra. E uma coisa horrível que eles cismam em chamar de café, mas não acredito que seja. Não sou burro. Não sou louco. Eu lembro como é café de verdade, e essa coisa solúvel não é. Quem eles querem enganar?
Imagens e letras viajam na minha vista. Correm, se escondem, reaparecem. E eu entendo tudo. Claro, não sou louco! De vez em quando me perguntam o que aquilo tudo significa, mas ninguém entende. Loucos, loucos. E me mandam de volta. Previsíveis.
Um dia reclamaram que eu não me socializava. Que eu não me misturava com o resto dos loucos. Não me misturo com vocês, seus loucos! Quase disse isso. Juro. Mas as palavras pararam na garganta e eu as engoli. Filtre angústia, rim, nesta autêntica diálise social.
A maioria que entra aqui logo se adequa ao sistema. Se não é louco, como eu, fica rapidinho. E acabam felizes nessa ignorância. Esses são rapidamente mandados embora. E eles choram ao sair. Idiotas. Preferem a prisão. Loucos idiotas comedores de merda.
Os dias passam devagar. Os pensamentos rápido. As idéias idem, mas não as digo. Não as guardo. É perigoso ter idéias. Assusta os loucos. E o que assusta eles me apavora. Porque estou preso com eles. Dia a dia.
Antes do sol se pôr (eu acho, pois aqui não temos direito a janelas) me levam de novo pra salinha e me perguntam o que eu fiz o dia inteiro. Eu digo. E eles não entendem. Me dão broncas. Me apontam dedos. Disparam perdigotos. Eu ouço. Eu assimilo. Meu rim filtra tanto que chega a doer. Eu volto pro meu lugar. Letras, imagens, botões...
Até que chega uma hora que me dizem: "Vai embora". Eu pergunto: "Por quê?", e eles respondem: "Você já estourou o banco de horas".
Eu pego minhas coisas e vou.
Mas volto amanhã.
Trabalho em escritório é mesmo uma loucura.
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