De Suzana Marion
O mocinho planejou tudo por semanas, em todos os detalhes. Trocou cartas por meses, e com elas enviava estrelas, para que a mocinha não estranhasse o céu que ele lhe prometeu. Depois de aguardar o tempo necessário decidiu acabar com aquele ‘e se’ que o consumia. Fez todas as manobras possíveis, lutou contra uns dragões, rodeou o castelo... a mocinha na janela da mais alta torre já lhe sorria. Ela aguardou por meses a fio seu resgate, todas as noites imaginou seu rosto naqueles segundos confusos que antecedem o sono. Não era tão crescido quanto imaginara e suas pernas e braços tremiam à medida que seu coração saltava de ansiedade... Daí, durante a escalada ele lembrou que deixou o feijão no fogo, que tinha que pegar a tia doente na rodoviária, sentiu vontade de fumar outro cigarro, dor-de-cabeça, dor-de-barriga, ou qualquer coisa do tipo. Desceu os poucos metros que subira, deu umas moedas para o porteiro, pegou o elevador. Entrou depressa e deu um selinho na princesa sem ao menos saborear o momento e de nervoso esqueceu o número da árvore em que estacionou o Alasão. Chamou um táxi. Entre suas desculpas, desvios e atalhos não houve entrega ou alegria, pois a proximidade do amanhã inevitável já o assombrava e fez vã toda a sua jornada. Ela olhava pra ele e ele olhava pela janela durante todo o caminho. Pediu ao motorista que o deixasse primeiro em casa porque era mais perto e a princesa foi embora resignada e sozinha, com sua metade da corrida para pagar e tentando não pensar nos planos que fizera. Ele devia entrar na torre pela janela, suspende-la em seus braços com carinho, cavalgar abraçados para longe dali. Eles entrariam numa cabana na floresta, o príncipe fecharia atrás de si a porta e as janelas sem tirar os olhos dela e então eles ouviriam apenas o som dos pássaros e da chuva lá fora. Ele não diria banalidades, não ligaria a TV. Toda a sua atenção e seus sentidos estariam voltados para ela. Ele devia beijar seus olhos, sua testa, seu ombro, morder de leve a ponta da sua orelha direita, respirariam no mesmo compasso e brindariam com um longo beijo quente aquele momento sublime. Mas ela precisava dissipar aquelas nuvens de sonhos, pois ele ignorou todos os seus avisos e sucumbiu à própria covardia. Então ela ordenou ao motorista que desse meia volta, pediu que ele parasse na beira do caminho, pendurou, ao lado da placa “só solteiros” outra que dizia “apenas maiores de 30 anos”, e seguiu de volta ao castelo para mais uma vez trancar-se em sua torre. Menos que um sonho, aquela realização foi nada! Ficou apenas uma sensação, como ele mesmo dissera, de que ‘não custava tentar”.
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Monday, September 17, 2007
Monday, September 03, 2007
Fim Meio e Começo
De Suzana Marion
Entre o fim e um novo começo, a gente tem que ter um meio, uma pausa onde haja tempo pra cicatrizar as feridas, fazer uma plástica nas cicatrizes ou até cobrí-las com uma tatuagem! O que não dá pra fazer é cutucar a ferida aberta com o dedo alheio!
Quando a gente termina um relacionamento muito longo, acaba levando junto os vícios e costumes para o próximo. Com o tempo esses vícios são diluídos e não fazem tanto peso na nova relação, mas quando é muito recente a gente corre o risco de sabotar tudo, projetando as expectativas frustradas, as manias... jogando no outro a culpa do um!
É claro que existe hipocrisia quando as pessoas dizem “olha lá a Fulana, mal terminou e já está com outro”, porque, em geral, um relacionamento só termina quando não está mais dando certo já há algum tempo. As pessoas tentam salvar seus relacionamentos antes de dar um ponto final, poxa! Mas quando as coisas não vão bem, é sempre mais fácil chegar alguém que resplandeça de tão perfeito, só por ser o oposto daquilo que a gente tinha. E é nessa hora que precisamos tomar cuidado, pra não ferir nenhum coração. Vai que você encontrou o relacionamento ideal dessa vez... será que vale a pena deixar a empolgação te levar ou é melhor ser um pouquinho calculista? E não adianta dizer agora “lá vem a Suzana com a sua habitual frieza para assuntos românticos”, porque se você parar para pensar, vai ver que muitas vezes tentou chegar em Paris com o mapa de Diadema nas mãos. Pensa bem, não é exatamente isso que a gente faz quando emenda os relacionamentos?É por isso que se recomenda um repouso, um resguardo, uma quarentena! A gente precisa se desintoxicar para que uma coisa que pode ser bonita, duradoura, não se torne um arrependimento. Se você conseguir esperar mais um pouco, conhecer o outro melhor, dar um tempo pra você, quem sabe não cai um bilhete de 1ª classe nas suas mãos (com direito a um guia alto, moreno, de olhos verdes), direto pra cidade do amor?
Entre o fim e um novo começo, a gente tem que ter um meio, uma pausa onde haja tempo pra cicatrizar as feridas, fazer uma plástica nas cicatrizes ou até cobrí-las com uma tatuagem! O que não dá pra fazer é cutucar a ferida aberta com o dedo alheio!
Quando a gente termina um relacionamento muito longo, acaba levando junto os vícios e costumes para o próximo. Com o tempo esses vícios são diluídos e não fazem tanto peso na nova relação, mas quando é muito recente a gente corre o risco de sabotar tudo, projetando as expectativas frustradas, as manias... jogando no outro a culpa do um!
É claro que existe hipocrisia quando as pessoas dizem “olha lá a Fulana, mal terminou e já está com outro”, porque, em geral, um relacionamento só termina quando não está mais dando certo já há algum tempo. As pessoas tentam salvar seus relacionamentos antes de dar um ponto final, poxa! Mas quando as coisas não vão bem, é sempre mais fácil chegar alguém que resplandeça de tão perfeito, só por ser o oposto daquilo que a gente tinha. E é nessa hora que precisamos tomar cuidado, pra não ferir nenhum coração. Vai que você encontrou o relacionamento ideal dessa vez... será que vale a pena deixar a empolgação te levar ou é melhor ser um pouquinho calculista? E não adianta dizer agora “lá vem a Suzana com a sua habitual frieza para assuntos românticos”, porque se você parar para pensar, vai ver que muitas vezes tentou chegar em Paris com o mapa de Diadema nas mãos. Pensa bem, não é exatamente isso que a gente faz quando emenda os relacionamentos?É por isso que se recomenda um repouso, um resguardo, uma quarentena! A gente precisa se desintoxicar para que uma coisa que pode ser bonita, duradoura, não se torne um arrependimento. Se você conseguir esperar mais um pouco, conhecer o outro melhor, dar um tempo pra você, quem sabe não cai um bilhete de 1ª classe nas suas mãos (com direito a um guia alto, moreno, de olhos verdes), direto pra cidade do amor?
Monday, August 20, 2007
Caixas de Pandora individuais
De Suzana Marion
Hoje eu preciso falar de luto, mas luto pra mim não é apenas a dor da perda para a morte, é a dor da perda ponto. Ultimamente tenho visto muita dor, muito luto e vivido as minhas próprias perdas. Mas como sou a favor de sofrer tudo de uma vez, até a última gota, não vejo sentido em guardar a dor numa caixinha lá no fundo e viver como se nada tivesse acontecido, porque a caixa se abre no momento mais inoportuno, como se a avó caduca do seu namorado, ou aquele tio inconveniente, resolvesse perguntar sua idade ou seu peso no meio do almoço de domingo.
Você acha que eu pareço louca por querer sofrer de uma vez? Mas você conhece a história da caixa de pandora, não é? Todas as dores do mundo estavam numa caixa até que Pandora foi induzida a abrí-la. Então, quase todos os males foram liberados de uma só vez e, se não fosse o medo de Pandora, o último mal teria sido liberado e aí já era a esperança, já era o nosso mundinho! Pois é disso que eu estou falando, de acumular toda a dor e toda a mágoa e depois começar a chorar assistindo comercial de margarina! De fingir que nada aconteceu e depois perder o controle numa discussão sobre o sabor do pastel na feira. Estou falando de perder o seu filho ou seu pai e não dar o tempo devido ao luto, tornando desastroso o nascimento de um novo filho ou o relacionamento com a sua mãe, por exemplo.
E agora alguém pode pensar: “falou a psicóloga”, “falou a dona da verdade”, mas não é essa a minha intenção. O que eu quero mesmo é tentar tirar de dentro de mim a tristeza que eu sinto pelos outros, porque senão eu não posso ajudar. O que acontece no Admirável Mundo Novo de Huxley não acontece com a gente. As pessoas ali eram condicionadas a ver a morte como ganho e não como perda, tinham a crença de que todos eram células do corpo e você não chora quando faz esfoliação, certo? Mas a nossa visão é de que somos um corpo, e o corpo todo sofre quando se perde um membro. O mais perto que podemos chegar daquele desprendimento está em algumas religiões e culturas, como por exemplo o Shivah dos judeus, mas não deixa de haver tristeza e sofrimento, mesmo que haja algum tipo de celebração.Assim, se eu pudesse, aconselharia a todos a não trancar suas dores e medos, pediria pra lutar até superar, pra só então se ver livre das amarras, dos erros cometidos e das fatalidades dessa vida. Quero que o luto vá embora e que você viva.
Hoje eu preciso falar de luto, mas luto pra mim não é apenas a dor da perda para a morte, é a dor da perda ponto. Ultimamente tenho visto muita dor, muito luto e vivido as minhas próprias perdas. Mas como sou a favor de sofrer tudo de uma vez, até a última gota, não vejo sentido em guardar a dor numa caixinha lá no fundo e viver como se nada tivesse acontecido, porque a caixa se abre no momento mais inoportuno, como se a avó caduca do seu namorado, ou aquele tio inconveniente, resolvesse perguntar sua idade ou seu peso no meio do almoço de domingo.
Você acha que eu pareço louca por querer sofrer de uma vez? Mas você conhece a história da caixa de pandora, não é? Todas as dores do mundo estavam numa caixa até que Pandora foi induzida a abrí-la. Então, quase todos os males foram liberados de uma só vez e, se não fosse o medo de Pandora, o último mal teria sido liberado e aí já era a esperança, já era o nosso mundinho! Pois é disso que eu estou falando, de acumular toda a dor e toda a mágoa e depois começar a chorar assistindo comercial de margarina! De fingir que nada aconteceu e depois perder o controle numa discussão sobre o sabor do pastel na feira. Estou falando de perder o seu filho ou seu pai e não dar o tempo devido ao luto, tornando desastroso o nascimento de um novo filho ou o relacionamento com a sua mãe, por exemplo.
E agora alguém pode pensar: “falou a psicóloga”, “falou a dona da verdade”, mas não é essa a minha intenção. O que eu quero mesmo é tentar tirar de dentro de mim a tristeza que eu sinto pelos outros, porque senão eu não posso ajudar. O que acontece no Admirável Mundo Novo de Huxley não acontece com a gente. As pessoas ali eram condicionadas a ver a morte como ganho e não como perda, tinham a crença de que todos eram células do corpo e você não chora quando faz esfoliação, certo? Mas a nossa visão é de que somos um corpo, e o corpo todo sofre quando se perde um membro. O mais perto que podemos chegar daquele desprendimento está em algumas religiões e culturas, como por exemplo o Shivah dos judeus, mas não deixa de haver tristeza e sofrimento, mesmo que haja algum tipo de celebração.Assim, se eu pudesse, aconselharia a todos a não trancar suas dores e medos, pediria pra lutar até superar, pra só então se ver livre das amarras, dos erros cometidos e das fatalidades dessa vida. Quero que o luto vá embora e que você viva.
Monday, August 06, 2007
Eu preciso
De Suzana Marion
Espelhos, mídia, gente. Eu já me perdi muitas vezes no meio dessas vitrines ambulantes que passam no meu nariz. Marcas e modas, todo tipo de conceito que já vem pré-moldado, que é só vestir para entrar na moda.
Ônibus, shopping, escola. Preciso de um sobretudo... Que celular lindo! Ah, eu quero! Preciso de uma bolsa nova e meus sapatos já estão tão antigos. Queria um perfume destes...
Mas não posso esquecer da minha frase preferida: “Eu seria feliz se ganhasse um Peugeot 206 cc!” Quantas vezes não torci o pescoço pra sonhar mais um pouco com aquela visão do outro mundo? Realmente um sonho!
Mas será que eu seria mesmo feliz, se por mágica (quem sabe um gênio da lâmpada), todas as vezes que eu dissesse “eu preciso”, surgisse na minha frente o objeto do meu desejo?
Quem sabe se eu tivesse um rompante de benevolência eu às vezes dissesse “ele precisa”? Para falar a verdade, no meio de todo esse entulho e lixo do consumismo que já nem dá prazer, o que mais eu preciso é deixar pelo menos por um dia de dizer “EU PRECISO!”.
*Resolvi publicar em comemoração ao meu “destrancamento” de matrícula e a volta às aulas hoje à noite. Escrevi este textinho em 2005, nos primeiros dias da faculdade. A professora que solicitou era uma daquelas pessoas beeem alternativas e eu pensei que ela fosse me expulsar da sala por excesso de consumismo! Mas que nada, consegui um 9,5 pro meu grupo! Como é que eu podia imaginar?
Espelhos, mídia, gente. Eu já me perdi muitas vezes no meio dessas vitrines ambulantes que passam no meu nariz. Marcas e modas, todo tipo de conceito que já vem pré-moldado, que é só vestir para entrar na moda.
Ônibus, shopping, escola. Preciso de um sobretudo... Que celular lindo! Ah, eu quero! Preciso de uma bolsa nova e meus sapatos já estão tão antigos. Queria um perfume destes...
Mas não posso esquecer da minha frase preferida: “Eu seria feliz se ganhasse um Peugeot 206 cc!” Quantas vezes não torci o pescoço pra sonhar mais um pouco com aquela visão do outro mundo? Realmente um sonho!
Mas será que eu seria mesmo feliz, se por mágica (quem sabe um gênio da lâmpada), todas as vezes que eu dissesse “eu preciso”, surgisse na minha frente o objeto do meu desejo?
Quem sabe se eu tivesse um rompante de benevolência eu às vezes dissesse “ele precisa”? Para falar a verdade, no meio de todo esse entulho e lixo do consumismo que já nem dá prazer, o que mais eu preciso é deixar pelo menos por um dia de dizer “EU PRECISO!”.
*Resolvi publicar em comemoração ao meu “destrancamento” de matrícula e a volta às aulas hoje à noite. Escrevi este textinho em 2005, nos primeiros dias da faculdade. A professora que solicitou era uma daquelas pessoas beeem alternativas e eu pensei que ela fosse me expulsar da sala por excesso de consumismo! Mas que nada, consegui um 9,5 pro meu grupo! Como é que eu podia imaginar?
Monday, July 23, 2007
Mariano e Camila
De Suzana Marion
Mariano encontrou um ombro que era mais um lugar onde encostar a cabeça e não pensar. Onde podia discutir também (por que não?) e ser criticado se fosse necessário. Ele encontrou muito sorriso e pouco abraço, porque no fundo isso era tudo o que ele próprio podia dar. Era romântico, dos bem piegas, e estava sempre a declarar o seu amor por uma menina dessas que todas querem ser. O que Mariano procurava não era cura, mas distração e atenção na medida certa, não pra esquecer, mas pra ficar mais forte.
Camila encontrou a companhia perfeita e chegou a desejar que ele fosse gay. Era alguém com quem se podia ir ao cinema e sair rindo da previsibilidade de uma comédia romântica no meio da sessão, conversar sobre todos os assuntos, se aventurar em novos sabores, andar de bicicleta na chuva e ficar em silêncio sob as estrelas ou sobre qualquer telhado. A relação era o contrário de ‘friends with benefects’, ele era o namorado perfeito sem a parte do namoro, se é que você me entende.
Os dois se viam todos os dias, almoçavam aos domingos numa cantina ali do bairro e um já fazia o pedido pelo outro, tal era a sintonia. Ela ouvia os seus temores, ele ouvia suas histórias e boa parte das vezes sequer davam sua opinião. O coração dele estava quebrado, ela era bem resolvida. Ambos acreditavam que poderiam ainda na vida viver um grande amor e embora parecessem perfeitos um para o outro, tinham certeza de que nada aconteceria, não podiam se ver como homem e mulher.
Num dia de maior correria no trabalho e que eles não pudessem se encontrar, Camila até sonhava que estava dormindo aninhada em seu ombro, contando como foi seu dia, como o Alberto da contabilidade tinha sido um canalha... então ela acordava rindo, com a certeza de que, por mais que todos os seus amigos os apontassem como casal potencial, não era pra ser.
Camila acorda numa manhã chuvosa de março e conferindo o talão de cheque se dá conta que naquele mês eles não almoçaram sequer uma vez na famosa cantina. Mariano já sumiu há 3 dias... nenhuma mensagem de texto, nenhum e-mail, nada. Na última vez em que se viram ele não disse muita coisa, só que não podia ficar. Camila já sabia que trataram de lhe convencer de que se ele quisesse reconquistar seu grande amor não poderia ter uma relação como aquela que tinha com ela. E não poderia mesmo... nesses dias como é que se prova a verdade? Então ela se resignou a sua saudade muda, apagou o número dele do celular, guardou numa caixa no fundo do armário todas as lembranças dele, mas continuou, todos os domingos, almoçando na mesma cantina, onde foi pedida em casamento pelo tal Alberto da contabilidade. Meses depois encontrou Mariano na rua, sozinho, sem aliança, passeando com o cachorro. Foi só um abraço, sem olhares, sem palavras, e cada um seguiu seu rumo, sua vida e continuou correndo atrás da sua própria felicidade.
Mariano encontrou um ombro que era mais um lugar onde encostar a cabeça e não pensar. Onde podia discutir também (por que não?) e ser criticado se fosse necessário. Ele encontrou muito sorriso e pouco abraço, porque no fundo isso era tudo o que ele próprio podia dar. Era romântico, dos bem piegas, e estava sempre a declarar o seu amor por uma menina dessas que todas querem ser. O que Mariano procurava não era cura, mas distração e atenção na medida certa, não pra esquecer, mas pra ficar mais forte.
Camila encontrou a companhia perfeita e chegou a desejar que ele fosse gay. Era alguém com quem se podia ir ao cinema e sair rindo da previsibilidade de uma comédia romântica no meio da sessão, conversar sobre todos os assuntos, se aventurar em novos sabores, andar de bicicleta na chuva e ficar em silêncio sob as estrelas ou sobre qualquer telhado. A relação era o contrário de ‘friends with benefects’, ele era o namorado perfeito sem a parte do namoro, se é que você me entende.
Os dois se viam todos os dias, almoçavam aos domingos numa cantina ali do bairro e um já fazia o pedido pelo outro, tal era a sintonia. Ela ouvia os seus temores, ele ouvia suas histórias e boa parte das vezes sequer davam sua opinião. O coração dele estava quebrado, ela era bem resolvida. Ambos acreditavam que poderiam ainda na vida viver um grande amor e embora parecessem perfeitos um para o outro, tinham certeza de que nada aconteceria, não podiam se ver como homem e mulher.
Num dia de maior correria no trabalho e que eles não pudessem se encontrar, Camila até sonhava que estava dormindo aninhada em seu ombro, contando como foi seu dia, como o Alberto da contabilidade tinha sido um canalha... então ela acordava rindo, com a certeza de que, por mais que todos os seus amigos os apontassem como casal potencial, não era pra ser.
Camila acorda numa manhã chuvosa de março e conferindo o talão de cheque se dá conta que naquele mês eles não almoçaram sequer uma vez na famosa cantina. Mariano já sumiu há 3 dias... nenhuma mensagem de texto, nenhum e-mail, nada. Na última vez em que se viram ele não disse muita coisa, só que não podia ficar. Camila já sabia que trataram de lhe convencer de que se ele quisesse reconquistar seu grande amor não poderia ter uma relação como aquela que tinha com ela. E não poderia mesmo... nesses dias como é que se prova a verdade? Então ela se resignou a sua saudade muda, apagou o número dele do celular, guardou numa caixa no fundo do armário todas as lembranças dele, mas continuou, todos os domingos, almoçando na mesma cantina, onde foi pedida em casamento pelo tal Alberto da contabilidade. Meses depois encontrou Mariano na rua, sozinho, sem aliança, passeando com o cachorro. Foi só um abraço, sem olhares, sem palavras, e cada um seguiu seu rumo, sua vida e continuou correndo atrás da sua própria felicidade.
Monday, July 09, 2007
O deserto de nós mesmo
De Suzana Marion
Todo mundo trancado em seus próprios pensamentos, o cérebro vedado pelos fones brancos. Já não são as baias de 1x1m, já não é a caixa mágica a culpada, somos nós que aprendemos a viver sozinhos. Eu prefiro jogar sudoku na fila do banco do que falar com o camarada na minha frente sobre o tempo, sobre o governo. E todo mundo prefere ficar imerso em seus próprios pensamentos do que desejar “bom dia”! Pra ninguém se meter na nossa vida, a gente costuma não se envolver com a do outro, assim não dá legalidade pra meterem o bedelho no nosso namoro, nas nossas decisões...
O problema é que depois de passar muito tempo no deserto, duas coisas costumam acontecer: primeiro a gente começa a ver miragens, a pensar que existem oásis de refrigério no meio da areia quente... daí acaba se ralando nessa areia, se queimando e sofrendo mais ainda quando descobre que imaginou demais, que se iludiu.
Depois, é muito comum que o delírio e a decepção nos levem a esquecer que a água existe, a não acreditar mais em saída, em solução, em salvação. E é aí que a gente se entrega, deixa a pele queimar no calor do dia, deixa a boca rachar no frio a noite. Chora sozinho e desidrata mais ainda, teme os animais velozes e peçonhentos mais que tudo nessa vida, mas é capaz de se entregar a eles na esperança de que dêem fim em sua agonia.
E é preciso ter fé, esperança, coragem! É preciso manter viva a lembrança da água que nos envolveu, nos matou a sede e nos limpou... é preciso não deixar a memória derreter nem o coração endurecer. O socorro no deserto vem do alto! Mesmo que você sofra muito, não há o que temer, enquanto você está sedento e perdido, Deus está procurando por você.
Todo mundo trancado em seus próprios pensamentos, o cérebro vedado pelos fones brancos. Já não são as baias de 1x1m, já não é a caixa mágica a culpada, somos nós que aprendemos a viver sozinhos. Eu prefiro jogar sudoku na fila do banco do que falar com o camarada na minha frente sobre o tempo, sobre o governo. E todo mundo prefere ficar imerso em seus próprios pensamentos do que desejar “bom dia”! Pra ninguém se meter na nossa vida, a gente costuma não se envolver com a do outro, assim não dá legalidade pra meterem o bedelho no nosso namoro, nas nossas decisões...
O problema é que depois de passar muito tempo no deserto, duas coisas costumam acontecer: primeiro a gente começa a ver miragens, a pensar que existem oásis de refrigério no meio da areia quente... daí acaba se ralando nessa areia, se queimando e sofrendo mais ainda quando descobre que imaginou demais, que se iludiu.
Depois, é muito comum que o delírio e a decepção nos levem a esquecer que a água existe, a não acreditar mais em saída, em solução, em salvação. E é aí que a gente se entrega, deixa a pele queimar no calor do dia, deixa a boca rachar no frio a noite. Chora sozinho e desidrata mais ainda, teme os animais velozes e peçonhentos mais que tudo nessa vida, mas é capaz de se entregar a eles na esperança de que dêem fim em sua agonia.
E é preciso ter fé, esperança, coragem! É preciso manter viva a lembrança da água que nos envolveu, nos matou a sede e nos limpou... é preciso não deixar a memória derreter nem o coração endurecer. O socorro no deserto vem do alto! Mesmo que você sofra muito, não há o que temer, enquanto você está sedento e perdido, Deus está procurando por você.
Monday, June 25, 2007
Verdades e Mentiras
De Suzana Marion
Todos os dias eu lido com gente enrolada que dá desculpas esfarrapadas quando não pode ir a um compromisso. Sabe aquele tipo “MEU CACHORRO COMEU MINHA LIÇÃO”? Então, quando eles crescem matam a mãe morta todo dia pra escapar das suas responsabilidades, te ligam 12:30 pra dizer que não podem comparecer a reunião das 13:00, porque se esqueceram que a placa do carro é final 1; dizem no dia 30 que os clientes ainda não pagaram os títulos do dia 5, pra você segurar o cheque por mais uns dias; inventam que os filhos estão doentes, mas na semana seguinte não se lembram da mentira e acabam se entregando; batem no peito dizendo eu odeio mentira, mas quando o telefone toca gritam “fala que eu não estou se for a Marília”.
Sabe aquele tipo “TIA, FOI O JOÃO QUE GRUDOU A MASSINHA NO CABELO DA ANINHA”? Então, quando eles crescem viram a prima recalcada que diz “você sabe que eu sou sua amiga, mas o seu namorado me deu a maior secada quando eu cheguei”, ou o marido que diz que você ficou muito estranha com essa franja quando você chega do cabeleireiro, o tio que diz que você está muito peituda no meio do almoço de família, o colega que puxa o seu tapete contando pro chefe que você saiu mais cedo na quinta e pediu pra sua amiga bater seu cartão, o cliente inconveniente que pergunta se você está grávida naquele dia de calor em que você decidiu vestir uma bata, o pretê que diz que o filme que você escolheu é muito ruim, o avô que diz que não gostou do presente, a faxineira que diz que você cozinha mal... tem de tudo nessa vida em nome da sinceridade e contra a cordialidade!
Você certamente já mentiu para se proteger e já disse a verdade para ferir. E certamente já conheceu mentirosos compulsivos, que mentem até mesmo quando a verdade é mais fácil e melhor. Provavelmente você conhece alguém que cospe a verdade na cara de todo mundo a pretexto de ser uma pessoa sincera, acreditando que quem diz a verdade é o dono dela. Não estou aqui fazendo acusações, nem tentando eu mesma ser a dona da verdade, um baluarte de justiça. Eu admito que minto (bem as vezes porque eu me esqueço logo e acabo me traindo) e que sou capaz de ser bem arrogante dizendo a verdade como se fosse a revelação final da série, com direito a plano americano, close no olho tremendo e até flashback! Mas o que eu quero discutir (então fiquem a vontade para deixar comentários sobre o assunto no link ali embaixo) é o comportamento descontrolado de tanta gente, que às vezes parece doença, mas na verdade é falta de vergonha na cara, de confiança em si mesmo e de respeito com o meu ouvido.(Agora me ocorreu que a vida dessa gente enrolada em “verdades” e mentiras deve ser bem emocionante...hehe)
Todos os dias eu lido com gente enrolada que dá desculpas esfarrapadas quando não pode ir a um compromisso. Sabe aquele tipo “MEU CACHORRO COMEU MINHA LIÇÃO”? Então, quando eles crescem matam a mãe morta todo dia pra escapar das suas responsabilidades, te ligam 12:30 pra dizer que não podem comparecer a reunião das 13:00, porque se esqueceram que a placa do carro é final 1; dizem no dia 30 que os clientes ainda não pagaram os títulos do dia 5, pra você segurar o cheque por mais uns dias; inventam que os filhos estão doentes, mas na semana seguinte não se lembram da mentira e acabam se entregando; batem no peito dizendo eu odeio mentira, mas quando o telefone toca gritam “fala que eu não estou se for a Marília”.
Sabe aquele tipo “TIA, FOI O JOÃO QUE GRUDOU A MASSINHA NO CABELO DA ANINHA”? Então, quando eles crescem viram a prima recalcada que diz “você sabe que eu sou sua amiga, mas o seu namorado me deu a maior secada quando eu cheguei”, ou o marido que diz que você ficou muito estranha com essa franja quando você chega do cabeleireiro, o tio que diz que você está muito peituda no meio do almoço de família, o colega que puxa o seu tapete contando pro chefe que você saiu mais cedo na quinta e pediu pra sua amiga bater seu cartão, o cliente inconveniente que pergunta se você está grávida naquele dia de calor em que você decidiu vestir uma bata, o pretê que diz que o filme que você escolheu é muito ruim, o avô que diz que não gostou do presente, a faxineira que diz que você cozinha mal... tem de tudo nessa vida em nome da sinceridade e contra a cordialidade!
Você certamente já mentiu para se proteger e já disse a verdade para ferir. E certamente já conheceu mentirosos compulsivos, que mentem até mesmo quando a verdade é mais fácil e melhor. Provavelmente você conhece alguém que cospe a verdade na cara de todo mundo a pretexto de ser uma pessoa sincera, acreditando que quem diz a verdade é o dono dela. Não estou aqui fazendo acusações, nem tentando eu mesma ser a dona da verdade, um baluarte de justiça. Eu admito que minto (bem as vezes porque eu me esqueço logo e acabo me traindo) e que sou capaz de ser bem arrogante dizendo a verdade como se fosse a revelação final da série, com direito a plano americano, close no olho tremendo e até flashback! Mas o que eu quero discutir (então fiquem a vontade para deixar comentários sobre o assunto no link ali embaixo) é o comportamento descontrolado de tanta gente, que às vezes parece doença, mas na verdade é falta de vergonha na cara, de confiança em si mesmo e de respeito com o meu ouvido.(Agora me ocorreu que a vida dessa gente enrolada em “verdades” e mentiras deve ser bem emocionante...hehe)
Monday, June 11, 2007
Bebê
De Suzana Marion
Bebê,
Sentir falta é colocar mais um pouco de álcool na ferida, pois sempre lembra o ruivo Nando que “a falta é a morte da esperança” e eu não espero mais te ver. Não quero sentir sua falta, mas sim uma saudade gostosa de tudo o que vivemos e sonhamos juntos em todos esses anos. Eu guardarei os nossos beijos, a nossa troca de incertezas e a apreensão quanto ao futuro na famosa “latinha de ex”, que eu nunca deixei você ver.
Amei ter aprendido a engatinhar com você e dar os meus primeiros passos segurando em suas mãos. Cada palavra me emocionou, cada promessa e, acima de tudo, cada silêncio. Eu decorei tudo em você, seus gestos, seu modo de agir, sua delicadeza... eu pressinto quando o telefone toca e é você, reconheço o som do seu carro dobrando a esquina, eu sei dizer quantos cabelinhos nascem fora do lugar na sua sobrancelha. Até hoje me arrepio quando você chega perto, mesmo com toda a intimidade que nós temos.
Eu antecipo nosso fim nessa carta, como uma criança se despedindo do acampamento de verão, levando comigo todas as lembranças, as boas e também as más, como se os joelhos ralados fossem um troféu da diversão. Estou consciente de que essas lembranças se desgastarão com o tempo e que o seu sorriso fatalmente se perderá em mim, mas está na hora de crescer.
Chegou o momento de seguir em frente, de viver de verdade, de superar as ilusões. O nosso problema é que eu já me decidi, já sei o que quero, o que mais quero no mundo. Está gravado nos meus ossos que eu quero ficar pra sempre com você! Mas você não se decidiu ainda e é provável que não se decida, então não te farei sofrer com as minhas cobranças, com a minha ansiedade, com a minha verdade. A gente não sabe o que está fazendo quando diz “pra sempre” e vamos assumir a verdade, quase nada é pra sempre, mas eu não vou mais te fazer sofrer esperando uma luz te dizer o que é certo fazer.
Eu te devolvo pra sua prisão, porque a minha liberdade não te libertou, não importa o quanto eu leia nos seus olhos essa paixão latente, porque eu quero sempre mais e pra você tudo está bom. Então eu vou embora (e isso não é covardia, você já me encontrou assim), assumindo o que quero e o que sinto e lamentando profundamente não estarmos na mesma página. E eu juro que você vai ser (mais uma vez) pra sempre, a minha primeira opção.
Bebê,
Sentir falta é colocar mais um pouco de álcool na ferida, pois sempre lembra o ruivo Nando que “a falta é a morte da esperança” e eu não espero mais te ver. Não quero sentir sua falta, mas sim uma saudade gostosa de tudo o que vivemos e sonhamos juntos em todos esses anos. Eu guardarei os nossos beijos, a nossa troca de incertezas e a apreensão quanto ao futuro na famosa “latinha de ex”, que eu nunca deixei você ver.
Amei ter aprendido a engatinhar com você e dar os meus primeiros passos segurando em suas mãos. Cada palavra me emocionou, cada promessa e, acima de tudo, cada silêncio. Eu decorei tudo em você, seus gestos, seu modo de agir, sua delicadeza... eu pressinto quando o telefone toca e é você, reconheço o som do seu carro dobrando a esquina, eu sei dizer quantos cabelinhos nascem fora do lugar na sua sobrancelha. Até hoje me arrepio quando você chega perto, mesmo com toda a intimidade que nós temos.
Eu antecipo nosso fim nessa carta, como uma criança se despedindo do acampamento de verão, levando comigo todas as lembranças, as boas e também as más, como se os joelhos ralados fossem um troféu da diversão. Estou consciente de que essas lembranças se desgastarão com o tempo e que o seu sorriso fatalmente se perderá em mim, mas está na hora de crescer.
Chegou o momento de seguir em frente, de viver de verdade, de superar as ilusões. O nosso problema é que eu já me decidi, já sei o que quero, o que mais quero no mundo. Está gravado nos meus ossos que eu quero ficar pra sempre com você! Mas você não se decidiu ainda e é provável que não se decida, então não te farei sofrer com as minhas cobranças, com a minha ansiedade, com a minha verdade. A gente não sabe o que está fazendo quando diz “pra sempre” e vamos assumir a verdade, quase nada é pra sempre, mas eu não vou mais te fazer sofrer esperando uma luz te dizer o que é certo fazer.
Eu te devolvo pra sua prisão, porque a minha liberdade não te libertou, não importa o quanto eu leia nos seus olhos essa paixão latente, porque eu quero sempre mais e pra você tudo está bom. Então eu vou embora (e isso não é covardia, você já me encontrou assim), assumindo o que quero e o que sinto e lamentando profundamente não estarmos na mesma página. E eu juro que você vai ser (mais uma vez) pra sempre, a minha primeira opção.
Monday, May 28, 2007
Tuquinha
De Suzana Marion
É domingo a noite e por incrível que pareça, a casa está cheia. Faz muito frio e toda vez que eu me ajeito chega mais alguém e eu corro pra porta pra receber. E tem gente que ainda reclama porque eu vou correndo, porque eu faço barulho... se eu pudesse eu diria “então vai você”!
Todos estão conversando animadamente, mas às vezes alguém pára um pouco pra ver o que eu estou fazendo. Nesses momentos eles me olham assim, como garoto que a mãe contou que o cachorro caiu da mudança. O pior é que se eu vou até eles com todo o meu carinho, eles riem e dizem que eu sou muito confiada... vai entender.
Agora é outro que me chama lá na sala. Ele levanta a mãozona e dá um tapinha de leve no meu bumbum, só pra me assustar. Todos estão jantando e eu to aqui semi-nua, no chão, pedindo por comida... custa colaborar? Tem quem se compadeça e me lance umas migalhas e tem também quem diga que ali não é o meu lugar... então eu volto pra sala e percebo que o cara está me dando atenção porque ficou com vergonha de me mandar sair dali na frente da namorada. Mas tudo bem, já me toquei, e já encontrei quem me dê atenção e carinho, mesmo que por gratidão por ter se escondido atrás de mim pra fugir e impressionar o sogro. Pronto, já estou quentinha novamente e o atrevido fazendo carinho na minha barriga!!!Olha só, tem mais gente chegando, e lá vou eu outra vez correr pro portão, nesse frio, receber as visitas! E quem sabe, depois de ter feito o meu serviço direitinho, de abanar o rabinho e latir pros estranhos, eu não ganho um belo osso?!
É domingo a noite e por incrível que pareça, a casa está cheia. Faz muito frio e toda vez que eu me ajeito chega mais alguém e eu corro pra porta pra receber. E tem gente que ainda reclama porque eu vou correndo, porque eu faço barulho... se eu pudesse eu diria “então vai você”!
Todos estão conversando animadamente, mas às vezes alguém pára um pouco pra ver o que eu estou fazendo. Nesses momentos eles me olham assim, como garoto que a mãe contou que o cachorro caiu da mudança. O pior é que se eu vou até eles com todo o meu carinho, eles riem e dizem que eu sou muito confiada... vai entender.
Agora é outro que me chama lá na sala. Ele levanta a mãozona e dá um tapinha de leve no meu bumbum, só pra me assustar. Todos estão jantando e eu to aqui semi-nua, no chão, pedindo por comida... custa colaborar? Tem quem se compadeça e me lance umas migalhas e tem também quem diga que ali não é o meu lugar... então eu volto pra sala e percebo que o cara está me dando atenção porque ficou com vergonha de me mandar sair dali na frente da namorada. Mas tudo bem, já me toquei, e já encontrei quem me dê atenção e carinho, mesmo que por gratidão por ter se escondido atrás de mim pra fugir e impressionar o sogro. Pronto, já estou quentinha novamente e o atrevido fazendo carinho na minha barriga!!!Olha só, tem mais gente chegando, e lá vou eu outra vez correr pro portão, nesse frio, receber as visitas! E quem sabe, depois de ter feito o meu serviço direitinho, de abanar o rabinho e latir pros estranhos, eu não ganho um belo osso?!
Monday, May 14, 2007
Outra Vez
De Suzana Marion
Ele tem mil “primeiros encontros perfeitos” guardados na manga. Eu não falo de nenhum Dom Juan, mas ele já me reconquistou muitas vezes. O crescimento e o aprendizado dele me fascinam, mas ele não é nenhum bebê. Eu vou derretendo nas suas poucas palavras e me misturando ao derretimento dele nas minhas muitas. (Preciso do endereço da moça que ensinou esses novos truques pra mandar um cartão agradecendo! Foi simplesmente perfeito! )
Ele não é o mesmo de antes, se não tem ninguém por perto ele toma iniciativa, desmarca seus compromissos pra me ver, beija diferente, segura diferente... e meus planos foram por água abaixo. Eu que ia pegar leve e bancar a irmãzinha... esperar até passar essa dor que tenho no peito, quando vejo ele de longe e não posso chegar perto. Daí ele vem e me surpreende, me tira o fôlego, me tira as dúvidas e a insegurança com seu interesse e seus esforços! Eu fico feliz em dormir tarde porque estamos conversando sobre tudo e sobre nada, em “ficar abalada” e com isso perder o sono.
Longe de estar confusa ou insegura, eu preciso dizer que não espero nada, que não quero ter agora sentimentos definidos, nem fazer planos, nem mandar cobranças. Como uma viciada em relacionamentos ruins, porém em recuperação, vou viver um dia de cada vez, uma mensagem no meio da tarde por vez, um suspiro de saudade por vez e um reencontro feliz por semana!
Ele tem mil “primeiros encontros perfeitos” guardados na manga. Eu não falo de nenhum Dom Juan, mas ele já me reconquistou muitas vezes. O crescimento e o aprendizado dele me fascinam, mas ele não é nenhum bebê. Eu vou derretendo nas suas poucas palavras e me misturando ao derretimento dele nas minhas muitas. (Preciso do endereço da moça que ensinou esses novos truques pra mandar um cartão agradecendo! Foi simplesmente perfeito! )
Ele não é o mesmo de antes, se não tem ninguém por perto ele toma iniciativa, desmarca seus compromissos pra me ver, beija diferente, segura diferente... e meus planos foram por água abaixo. Eu que ia pegar leve e bancar a irmãzinha... esperar até passar essa dor que tenho no peito, quando vejo ele de longe e não posso chegar perto. Daí ele vem e me surpreende, me tira o fôlego, me tira as dúvidas e a insegurança com seu interesse e seus esforços! Eu fico feliz em dormir tarde porque estamos conversando sobre tudo e sobre nada, em “ficar abalada” e com isso perder o sono.
Longe de estar confusa ou insegura, eu preciso dizer que não espero nada, que não quero ter agora sentimentos definidos, nem fazer planos, nem mandar cobranças. Como uma viciada em relacionamentos ruins, porém em recuperação, vou viver um dia de cada vez, uma mensagem no meio da tarde por vez, um suspiro de saudade por vez e um reencontro feliz por semana!
Monday, April 30, 2007
Ela é plena
De Suzana Marion
Ela está exausta e seu corpo apenas dá sinais daquilo que a mente já sabe: é muita responsabilidade. Mas mesmo assim está feliz. Ela rejeitou as músicas que falavam de amores quebrados, de famílias divididas. Alguém trocou suas cinzas por óleo de alegria!
Já não importa mais quantos clientes chatos a perturbem, se o boy foi parar do outro lado da cidade com um documento que era pra ontem, se o chefe repetir 30 vezes a mesma coisa pra mudar de idéia na hora H. Ela decidiu não chorar porque queimou uma lâmpada de R$100, porque errou um número na apresentação, porque o trânsito está molhado e parado. Pra que gritar com o radialista se a sua música favorita não tocou no rádio? Hoje em dia os astros são mesmo descartáveis e amanhã a música favorita será outra. Por que não ser paciente com o gato, mesmo quando ele não é capaz de decidir entre o vermelho e o azul? Ela tomou a pílula vermelha e decidiu ver a verdade e esperar até que ele também veja. Isso não vai tirar sua alegria, apenas a deixará um pouco incompleta.
Hoje a secretária da outra empresa ligou pra ela bem cedo. Depois de sanar sua dúvida ela fez um comentário. “Você é muito séria!” disse a menina. Em outro dia, em outra situação, ela se limitaria a responder a pergunta inicial, que levou a ligação, e a fazer hum hum quanto a afirmação de que ela é muito séria. Mas não, seu humor está tão bom que ela dispôs de 20 minutos pra explicar que a gente da cidade grande leva uma vida muito mais corrida, muitos compromissos, prazos, pouco tempo pra cumprir... que aqui todo mundo parece meio estressado e antipático quase sempre, mas que ela era gente boa. E o melhor é que depois ela nem quis saber se a menina acreditou, não importava mais.Qual é o segredo dela? Já cantava a Elis Regina: “o novo sempre vem”, e ela decidiu aceitar o novo, se entregar ao novo... um novo ano, o novo clima da terra, um novo desafio, uma nova paixão! E não há nada melhor do que abrir o peito, deixar a adolescência de lado e, sem medo de crescer, se atirar numa vida não menos turbulenta ou estressante, mas menos comedida... abundante!
Ela está exausta e seu corpo apenas dá sinais daquilo que a mente já sabe: é muita responsabilidade. Mas mesmo assim está feliz. Ela rejeitou as músicas que falavam de amores quebrados, de famílias divididas. Alguém trocou suas cinzas por óleo de alegria!
Já não importa mais quantos clientes chatos a perturbem, se o boy foi parar do outro lado da cidade com um documento que era pra ontem, se o chefe repetir 30 vezes a mesma coisa pra mudar de idéia na hora H. Ela decidiu não chorar porque queimou uma lâmpada de R$100, porque errou um número na apresentação, porque o trânsito está molhado e parado. Pra que gritar com o radialista se a sua música favorita não tocou no rádio? Hoje em dia os astros são mesmo descartáveis e amanhã a música favorita será outra. Por que não ser paciente com o gato, mesmo quando ele não é capaz de decidir entre o vermelho e o azul? Ela tomou a pílula vermelha e decidiu ver a verdade e esperar até que ele também veja. Isso não vai tirar sua alegria, apenas a deixará um pouco incompleta.
Hoje a secretária da outra empresa ligou pra ela bem cedo. Depois de sanar sua dúvida ela fez um comentário. “Você é muito séria!” disse a menina. Em outro dia, em outra situação, ela se limitaria a responder a pergunta inicial, que levou a ligação, e a fazer hum hum quanto a afirmação de que ela é muito séria. Mas não, seu humor está tão bom que ela dispôs de 20 minutos pra explicar que a gente da cidade grande leva uma vida muito mais corrida, muitos compromissos, prazos, pouco tempo pra cumprir... que aqui todo mundo parece meio estressado e antipático quase sempre, mas que ela era gente boa. E o melhor é que depois ela nem quis saber se a menina acreditou, não importava mais.Qual é o segredo dela? Já cantava a Elis Regina: “o novo sempre vem”, e ela decidiu aceitar o novo, se entregar ao novo... um novo ano, o novo clima da terra, um novo desafio, uma nova paixão! E não há nada melhor do que abrir o peito, deixar a adolescência de lado e, sem medo de crescer, se atirar numa vida não menos turbulenta ou estressante, mas menos comedida... abundante!
Monday, April 16, 2007
Expectativas
De Suzana Marion
Há 15 anos eu pensava que seria uma publicitária de sucesso à essa altura e que seria casada com o meu primeiro amor. O máximo que pude fazer até agora foi conversar com ele no MSN esta manhã e 3 semestres de comunicação na faculdade, que tranquei já faz quase 1 ano.
Eu acreditava que teria uma casa com piscina e que nem teria tempo para usa-la, que iria a festas de gente rica e que seria um deles afinal, me esqueceria do lugar de onde eu vim.
Pensei que com quase um quarto de século eu teria rompido com minha família, mudado de país, emagrecido. Mas as coisas tomaram um rumo inesperado e, mesmo que eu me esforce para voltar à rota original, o trem dos planos da minha vida sempre desvia ou descarrila!
A cegonha visitou quase todos os meus amigos e eles ostentam uma argola dourada, pelo menos no anelar direito. Até a minha irmãzinha se casou neste fim-de-semana! E eu penso que ainda sou meio criança, que não tenho todas essas responsabilidades da vida adulta, mas me sinto feliz com minhas meias do Mickey.
Não é que eu não esteja ansiosa por pagar IPTU, IPVA, Imposto de renda de pessoa jurídica! Mas prefiro esse ritmo mais modesto... comer a vida a generosas colheradas, mas sempre pelas beiradas, igual brigadeiro de adolescente. As vezes bate aquela angústia por ter que esperar as coisas acontecerem, a ansiedade por realizações. Mas é só olhar para trás e ver tudo o que eu conquistei até aqui pra me sentir de volta ao controle da minha vida.
Que venham os próximos 15 anos de imprevistos.
Há 15 anos eu pensava que seria uma publicitária de sucesso à essa altura e que seria casada com o meu primeiro amor. O máximo que pude fazer até agora foi conversar com ele no MSN esta manhã e 3 semestres de comunicação na faculdade, que tranquei já faz quase 1 ano.
Eu acreditava que teria uma casa com piscina e que nem teria tempo para usa-la, que iria a festas de gente rica e que seria um deles afinal, me esqueceria do lugar de onde eu vim.
Pensei que com quase um quarto de século eu teria rompido com minha família, mudado de país, emagrecido. Mas as coisas tomaram um rumo inesperado e, mesmo que eu me esforce para voltar à rota original, o trem dos planos da minha vida sempre desvia ou descarrila!
A cegonha visitou quase todos os meus amigos e eles ostentam uma argola dourada, pelo menos no anelar direito. Até a minha irmãzinha se casou neste fim-de-semana! E eu penso que ainda sou meio criança, que não tenho todas essas responsabilidades da vida adulta, mas me sinto feliz com minhas meias do Mickey.
Não é que eu não esteja ansiosa por pagar IPTU, IPVA, Imposto de renda de pessoa jurídica! Mas prefiro esse ritmo mais modesto... comer a vida a generosas colheradas, mas sempre pelas beiradas, igual brigadeiro de adolescente. As vezes bate aquela angústia por ter que esperar as coisas acontecerem, a ansiedade por realizações. Mas é só olhar para trás e ver tudo o que eu conquistei até aqui pra me sentir de volta ao controle da minha vida.
Que venham os próximos 15 anos de imprevistos.
Monday, April 02, 2007
Meus amigos são analfabetos
De Suzana Marion
No blog de um camarada bastante atuante nas TVs da série B (Record e Band da vida), quando não há comentário em um post, pode-se ler entre parênteses, ao lado do contador: MEUS AMIGOS SÃO ANALFABETOS. Essa é a impressão que eu tenho quando envio um e-mail/span para uma lista de 50 amigos e apenas 4 ou 5 comentam. Depois, quando encontro os outros que não comentaram, eles dizem “de onde você tirou aquela doideira da tal de Márcia? Eu morri de dar risada...” “você devia estar mesmo bem magoada com o Fulano, né?” “eu li o texto de Cicrana também e me identifiquei tanto... você a conhece pessoalmente?”. Então eu grito: “Poxa pessoal, no meu blog tudo bem, eu escrevo pra mim mesma, eu não ligo, mas no SOLTANDO O VERBO que é coletivo é sempre bom mostrar serviço... ‘Entra e comenta’, né?”
Ok, vou pegar leve, talvez meus amigos não sejam analfabetos, mas são, pelo menos, uma nova classe de tímidos: os TÍMIDOS DIGITAIS! Sim, porque a réplica que segue o meu desabafo carente de comentários é sempre “eu fiquei com vergonha, não sabia o que escrever” “eu posso dizer qualquer coisa ou preciso comentar o texto?”.
Mas tem também outra classe de pessoas que não comentam, com a novíssima desculpa “todos os sistemas de comentários são bloqueados lá na empresa, mas se você quiser eu mando o comentário por e-mail e você inclui como se fosse eu”. Calma lá! as coisas também não são assim. Como boa publicitária que um dia eu serei (ou PhD em PNL e escritora de livros de auto-ajuda empresarial), eu tento fujir do estigma de ARRECADADORA COMPULSIVA DE SCRAPS e digo a eles: “Imagina, não precisa tanto. Eu fico muito feliz por ter a honra da sua presença lá no blog e ficaria ainda mais feliz em melhorar meu desempenho através de suas críticas.” Mas não cola! O contador vai caindo, texto após texto, mas os comentários na rua vão aumentando e eu estou até pensando em sugerir ao administrador que instalemos um sistema de áudio-comentários, assim eu gravo no celular o que os meus amigos dizem e envio no final do dia pra ele publicar.
No blog de um camarada bastante atuante nas TVs da série B (Record e Band da vida), quando não há comentário em um post, pode-se ler entre parênteses, ao lado do contador: MEUS AMIGOS SÃO ANALFABETOS. Essa é a impressão que eu tenho quando envio um e-mail/span para uma lista de 50 amigos e apenas 4 ou 5 comentam. Depois, quando encontro os outros que não comentaram, eles dizem “de onde você tirou aquela doideira da tal de Márcia? Eu morri de dar risada...” “você devia estar mesmo bem magoada com o Fulano, né?” “eu li o texto de Cicrana também e me identifiquei tanto... você a conhece pessoalmente?”. Então eu grito: “Poxa pessoal, no meu blog tudo bem, eu escrevo pra mim mesma, eu não ligo, mas no SOLTANDO O VERBO que é coletivo é sempre bom mostrar serviço... ‘Entra e comenta’, né?”
Ok, vou pegar leve, talvez meus amigos não sejam analfabetos, mas são, pelo menos, uma nova classe de tímidos: os TÍMIDOS DIGITAIS! Sim, porque a réplica que segue o meu desabafo carente de comentários é sempre “eu fiquei com vergonha, não sabia o que escrever” “eu posso dizer qualquer coisa ou preciso comentar o texto?”.
Mas tem também outra classe de pessoas que não comentam, com a novíssima desculpa “todos os sistemas de comentários são bloqueados lá na empresa, mas se você quiser eu mando o comentário por e-mail e você inclui como se fosse eu”. Calma lá! as coisas também não são assim. Como boa publicitária que um dia eu serei (ou PhD em PNL e escritora de livros de auto-ajuda empresarial), eu tento fujir do estigma de ARRECADADORA COMPULSIVA DE SCRAPS e digo a eles: “Imagina, não precisa tanto. Eu fico muito feliz por ter a honra da sua presença lá no blog e ficaria ainda mais feliz em melhorar meu desempenho através de suas críticas.” Mas não cola! O contador vai caindo, texto após texto, mas os comentários na rua vão aumentando e eu estou até pensando em sugerir ao administrador que instalemos um sistema de áudio-comentários, assim eu gravo no celular o que os meus amigos dizem e envio no final do dia pra ele publicar.
Monday, March 19, 2007
Cotidiano
De Suzana Marion
- Martinha, o que você faz na sua folga?
- Faxina.
- Não, outras coisas?
- Ah, eu lavo, passo, cozinho.
- Martinha, eu estou falando sério... você não sai?
- Claro que eu saio!
- Ah, bom! Onde você vai?
- Eu vou ao supermercado, levo as crianças ao médico...
- Querida, o que é que você faz para se divertir?
- Ah, entendi o que você quer saber... quando termino de lavar a louça da janta eu assisto a novela e o Big Brother. Se a folga for no fim-de-semana tem sempre o Gugu, o Fantástico... isso quando as crianças não querem jogar video-game ou assistir o Pânico. Mas aí eu adianto meus bordados ou aproveito para dormir mais cedo porque a vida é puxada, sabe?
- Você só pode estar brincando!
- Porque, Cecília?
- Oras, você não tem vida social?
- Eu sou mãe, esposa, trabalho fora... quase não me sobra tempo para ir à igreja, quanto mais para uma vida social! Vida social pra mim é o papo com as vizinhas na janela enquanto ponho a roupa na corda! Ou na fila do banco lotado, no ônibus apertado, na recepção do médico das crianças. Não tenho tempo nem pique pra badalação.
- Pronto, chegamos.
- Muito obrigada pela carona, Cecília.
- Muito obrigado, prima.
- Imagina, queridos. Estimo as melhoras do Pedrinho.
- Obrigado.
Assim que entram em casa o Agenor grita com Martinha:
- Ê, mulher a toa! Tinha que me fazer passar vergonha na frente da prima?
- E você queria o que? Que eu tivesse mentido? Dê-se por satisfeito por eu não ter contado tudo o que você não faz enquanto eu faço tudo isso.
- Martinha, o que você faz na sua folga?
- Faxina.
- Não, outras coisas?
- Ah, eu lavo, passo, cozinho.
- Martinha, eu estou falando sério... você não sai?
- Claro que eu saio!
- Ah, bom! Onde você vai?
- Eu vou ao supermercado, levo as crianças ao médico...
- Querida, o que é que você faz para se divertir?
- Ah, entendi o que você quer saber... quando termino de lavar a louça da janta eu assisto a novela e o Big Brother. Se a folga for no fim-de-semana tem sempre o Gugu, o Fantástico... isso quando as crianças não querem jogar video-game ou assistir o Pânico. Mas aí eu adianto meus bordados ou aproveito para dormir mais cedo porque a vida é puxada, sabe?
- Você só pode estar brincando!
- Porque, Cecília?
- Oras, você não tem vida social?
- Eu sou mãe, esposa, trabalho fora... quase não me sobra tempo para ir à igreja, quanto mais para uma vida social! Vida social pra mim é o papo com as vizinhas na janela enquanto ponho a roupa na corda! Ou na fila do banco lotado, no ônibus apertado, na recepção do médico das crianças. Não tenho tempo nem pique pra badalação.
- Pronto, chegamos.
- Muito obrigada pela carona, Cecília.
- Muito obrigado, prima.
- Imagina, queridos. Estimo as melhoras do Pedrinho.
- Obrigado.
Assim que entram em casa o Agenor grita com Martinha:
- Ê, mulher a toa! Tinha que me fazer passar vergonha na frente da prima?
- E você queria o que? Que eu tivesse mentido? Dê-se por satisfeito por eu não ter contado tudo o que você não faz enquanto eu faço tudo isso.
Monday, March 05, 2007
Esquizofrenia Tecnológica
De Suzana Marion
Márcia acordou atrasada. Ainda com os olhos meio fechados bateu com força na porta das gêmeas e gritou o costumeiro “ta na hora”. Quando finalmente chegou à cozinha, impecável em seu terninho cinza claro, encontrou as crianças e o namorado, irritantemente sorridentes para seu estado de espírito, já acendendo as velinhas, e só então se deu conta de que era 25 de abril, seu aniversário de 30 anos.
De mau-humor e com muita pressa, agradeceu os presentes sem muita empolgação, deu um beijo assim-assim no Eduardo e enquanto ele passava o chip dela para o novo celular, ela se serviu num guardanapo de uma fatia fina do bolo. Mal abriu seus presentes, foi saindo para a garagem pisando duro e quase se esqueceu de levar as meninas para o colégio. Se sentiu meio arrependida pela grosseria, mas tinha uma reunião importante no primeiro horário. Era uma conta grande de uns clientes chatos e se as crianças ficassem chateadas comentaria os R$800 mensais que gastava só de escola com cada uma.
Márcia deixou o carro na garagem, chamou o elevador que não vinha nunca e resolveu subir de escada mesmo os 4 lances até o escritório. Foi aí que ela ouviu alguém chamar Márcia, Márcia. Ela olhou pra trás e, como não viu ninguém, continuou subindo. Sem cumprimentar a secretária, foi logo entrando na sala de reuniões e enquanto montava a apresentação ia se desculpando pelo atraso. Mesmo com um semblante de pitbull, a apresentação foi um sucesso. Despediu-se dos clientes e ordenou à secretária que não fosse interrompida. Colocou o fone de ouvido e o mesmo CD tocando inúmeras vezes, até que sentiu fome.
Logo que entrou no Almanara ouviu mais uma vez a voz chamando seu nome e saiu de lá correndo rumo aos 2 hambúrgueres com alface, queijo, molho especial... Por toda a tarde Márcia procurou se ocupar, tirar aquela voz meio metálica da cabeça, mas a voz insistia em chamar Márcia, Márcia, pelo menos de hora em hora. Pensou no tio que ouvia vozes, coitado, um dia matou a esposa porque sua gata mandou e morreu numa clínica, amarrado e tomando choque. Mas ela não podia estar louca, ligou para a endocrinologista e perguntou se o novo remédio para emagrecer não dava barato, mas a Dra. garantiu que era 100% seguro.
Às 15 horas Márcia pegou as crianças no colégio e as levou para a natação, depois as deixou na casa da sua mãe e saiu com o carro sem rumo. Dirigiu por alguns minutos com a voz dizendo Márcia, Márcia, até que passou em frente a uma dessas igrejas neo-pentecostais e resolveu entrar. Sentou na primeira fila e ouviu muitos testemunhos de gente perturbada, que não dava valor a família, que achava que o dinheiro era o mais importante, até que entraram por aquelas portas e tiveram suas vidas transformadas. A essa altura Márcia já chorava alto e, no fim do culto, foi conversar com o pastor da igreja, pedir uma oração, pois a voz continuava a dizer Márcia, Márcia entre uma música e outra.
- É claro que eu posso orar por você, querida. Mas você não gostaria de atender seu celular primeiro?
- Mas meu celular não está tocando!
- Seu nome não é Márcia? Durante todo o sermão eu escutei seu celular tocando, chamando este nome.Então Márcia abriu a bolsa e viu as 35 chamadas perdidas do namorado. Abraçou e agradeceu o pastor, nem quis mais a oração e de alma lavada foi correndo pra casa devolver o presente e terminar tudo com o Eduardo. “Como é que ele se atreve a gravar um toque desses para o meu celular e não avisa nada?”
Márcia acordou atrasada. Ainda com os olhos meio fechados bateu com força na porta das gêmeas e gritou o costumeiro “ta na hora”. Quando finalmente chegou à cozinha, impecável em seu terninho cinza claro, encontrou as crianças e o namorado, irritantemente sorridentes para seu estado de espírito, já acendendo as velinhas, e só então se deu conta de que era 25 de abril, seu aniversário de 30 anos.
De mau-humor e com muita pressa, agradeceu os presentes sem muita empolgação, deu um beijo assim-assim no Eduardo e enquanto ele passava o chip dela para o novo celular, ela se serviu num guardanapo de uma fatia fina do bolo. Mal abriu seus presentes, foi saindo para a garagem pisando duro e quase se esqueceu de levar as meninas para o colégio. Se sentiu meio arrependida pela grosseria, mas tinha uma reunião importante no primeiro horário. Era uma conta grande de uns clientes chatos e se as crianças ficassem chateadas comentaria os R$800 mensais que gastava só de escola com cada uma.
Márcia deixou o carro na garagem, chamou o elevador que não vinha nunca e resolveu subir de escada mesmo os 4 lances até o escritório. Foi aí que ela ouviu alguém chamar Márcia, Márcia. Ela olhou pra trás e, como não viu ninguém, continuou subindo. Sem cumprimentar a secretária, foi logo entrando na sala de reuniões e enquanto montava a apresentação ia se desculpando pelo atraso. Mesmo com um semblante de pitbull, a apresentação foi um sucesso. Despediu-se dos clientes e ordenou à secretária que não fosse interrompida. Colocou o fone de ouvido e o mesmo CD tocando inúmeras vezes, até que sentiu fome.
Logo que entrou no Almanara ouviu mais uma vez a voz chamando seu nome e saiu de lá correndo rumo aos 2 hambúrgueres com alface, queijo, molho especial... Por toda a tarde Márcia procurou se ocupar, tirar aquela voz meio metálica da cabeça, mas a voz insistia em chamar Márcia, Márcia, pelo menos de hora em hora. Pensou no tio que ouvia vozes, coitado, um dia matou a esposa porque sua gata mandou e morreu numa clínica, amarrado e tomando choque. Mas ela não podia estar louca, ligou para a endocrinologista e perguntou se o novo remédio para emagrecer não dava barato, mas a Dra. garantiu que era 100% seguro.
Às 15 horas Márcia pegou as crianças no colégio e as levou para a natação, depois as deixou na casa da sua mãe e saiu com o carro sem rumo. Dirigiu por alguns minutos com a voz dizendo Márcia, Márcia, até que passou em frente a uma dessas igrejas neo-pentecostais e resolveu entrar. Sentou na primeira fila e ouviu muitos testemunhos de gente perturbada, que não dava valor a família, que achava que o dinheiro era o mais importante, até que entraram por aquelas portas e tiveram suas vidas transformadas. A essa altura Márcia já chorava alto e, no fim do culto, foi conversar com o pastor da igreja, pedir uma oração, pois a voz continuava a dizer Márcia, Márcia entre uma música e outra.
- É claro que eu posso orar por você, querida. Mas você não gostaria de atender seu celular primeiro?
- Mas meu celular não está tocando!
- Seu nome não é Márcia? Durante todo o sermão eu escutei seu celular tocando, chamando este nome.Então Márcia abriu a bolsa e viu as 35 chamadas perdidas do namorado. Abraçou e agradeceu o pastor, nem quis mais a oração e de alma lavada foi correndo pra casa devolver o presente e terminar tudo com o Eduardo. “Como é que ele se atreve a gravar um toque desses para o meu celular e não avisa nada?”
Monday, February 12, 2007
Complexo de Deus
De Suzana Marion
Quem tem Complexo de Deus acredita ter todas as respostas e que seria ultrajante ouvir qualquer pergunta, que é bom demais para se explicar. Ele não tem opinião, tem certeza, não pede, ordena. Quem tem Complexo de Deus diz “haja luz” e espera em vão que o ambiente se ilumine, mas ao contrário, enegrece tudo com sua arrogância, seu autoritarismo.
Quem tem Complexo de Deus acha que está acima de qualquer lei, acima de qualquer sentimento e dentro dos pensamentos alheios. O sujeito com complexo de Deus acredita ser aquilo em que todos estão pensando, se a terra gira em torno do sol, os humanos tem de girar em torno dele. Ele conta vantagem, faz cortesia com o chapéu alheio, está sempre a procura de humilhar alguém para se sobressair.
O Complexo de Deus não vem apenas com arrogância, mas também com desprezo por qualquer idéia alheia que não possa ser roubada em sigilo, sem parecer oportunismo. O pacote completo inclui uma incapacidade extraordinária para ouvir e debater, e mesmo que o sujeito não admita (na verdade é bem certo que ele negue), é uma incapacidade como cegueira ou surdez, praticamente lhe falta um sentido.
Para citar os dois tipos mais conhecidos de complexo de Deus, recorro a dois filmes. O primeiro caso é The Devil Wears Prada (O Diabo Veste Prada). Neste exemplo a pessoa se acha tão importante, tão dona do mundo, que acredita que por serem todos descartáveis e poderem ser substituídos à qualquer momento, e por todos serem completamente incompetentes, pode lhes tirar a vida privada, fazendo ligações a toda hora e exigindo ser prioridade absoluta, obrigando a executar tarefas que não são de sua alçada. Esse é o tipo de pessoa que se acha no direito de humilhar, de fazer pressão psicológica o tempo todo, dando ordens absurdas e que nunca diz exatamente o que quer e nunca fica satisfeita com o que recebe. Mas o pior caso de Complexo de Deus é o tipo The Godfather (O Poderoso Chefão). Ele mantém seus inimigos muito próximos, dá um beijinho na sua bochecha antes de te arrasar, manda flores no dia seguinte ao seu fracasso, com um cartão dizendo “não foi dessa vez”. Você fica em dúvida o tempo todo, com medo... não sabe se ele te ama ou te odeia. E é isso o que ele busca: manter-se no poder por meio do terror constante.
É triste a vida de quem tem complexo de Deus porque esse cara não tem companhia ou respeito. Ele causa medo e indignação, é ineficaz, porque enquanto Deus de verdade se manifesta em amor, o cara com complexo de Deus age por meio do ódio. No fundo ele odeia a si mesmo (e aos outros por tabela), como se soubesse o quanto desagradável é sua presença e quisesse poupar a todos, mas na verdade ele só é triste e sozinho, inseguro... então veste essa máscara de todo-poderoso e caminha altivo por aí, procurando funcionários, filhos, colegas do clube, da associação de bairro, e transeuntes de qualquer espécie para impor seu desejo, falar de si mesmo e, é claro, infernizar a vida de qualquer cristão.
Quem tem Complexo de Deus acredita ter todas as respostas e que seria ultrajante ouvir qualquer pergunta, que é bom demais para se explicar. Ele não tem opinião, tem certeza, não pede, ordena. Quem tem Complexo de Deus diz “haja luz” e espera em vão que o ambiente se ilumine, mas ao contrário, enegrece tudo com sua arrogância, seu autoritarismo.
Quem tem Complexo de Deus acha que está acima de qualquer lei, acima de qualquer sentimento e dentro dos pensamentos alheios. O sujeito com complexo de Deus acredita ser aquilo em que todos estão pensando, se a terra gira em torno do sol, os humanos tem de girar em torno dele. Ele conta vantagem, faz cortesia com o chapéu alheio, está sempre a procura de humilhar alguém para se sobressair.
O Complexo de Deus não vem apenas com arrogância, mas também com desprezo por qualquer idéia alheia que não possa ser roubada em sigilo, sem parecer oportunismo. O pacote completo inclui uma incapacidade extraordinária para ouvir e debater, e mesmo que o sujeito não admita (na verdade é bem certo que ele negue), é uma incapacidade como cegueira ou surdez, praticamente lhe falta um sentido.
Para citar os dois tipos mais conhecidos de complexo de Deus, recorro a dois filmes. O primeiro caso é The Devil Wears Prada (O Diabo Veste Prada). Neste exemplo a pessoa se acha tão importante, tão dona do mundo, que acredita que por serem todos descartáveis e poderem ser substituídos à qualquer momento, e por todos serem completamente incompetentes, pode lhes tirar a vida privada, fazendo ligações a toda hora e exigindo ser prioridade absoluta, obrigando a executar tarefas que não são de sua alçada. Esse é o tipo de pessoa que se acha no direito de humilhar, de fazer pressão psicológica o tempo todo, dando ordens absurdas e que nunca diz exatamente o que quer e nunca fica satisfeita com o que recebe. Mas o pior caso de Complexo de Deus é o tipo The Godfather (O Poderoso Chefão). Ele mantém seus inimigos muito próximos, dá um beijinho na sua bochecha antes de te arrasar, manda flores no dia seguinte ao seu fracasso, com um cartão dizendo “não foi dessa vez”. Você fica em dúvida o tempo todo, com medo... não sabe se ele te ama ou te odeia. E é isso o que ele busca: manter-se no poder por meio do terror constante.
É triste a vida de quem tem complexo de Deus porque esse cara não tem companhia ou respeito. Ele causa medo e indignação, é ineficaz, porque enquanto Deus de verdade se manifesta em amor, o cara com complexo de Deus age por meio do ódio. No fundo ele odeia a si mesmo (e aos outros por tabela), como se soubesse o quanto desagradável é sua presença e quisesse poupar a todos, mas na verdade ele só é triste e sozinho, inseguro... então veste essa máscara de todo-poderoso e caminha altivo por aí, procurando funcionários, filhos, colegas do clube, da associação de bairro, e transeuntes de qualquer espécie para impor seu desejo, falar de si mesmo e, é claro, infernizar a vida de qualquer cristão.
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