De Marcelo Ferrari
Poeta: Vem! Vamos aprender, fala comigo: a-r-t-e
Sabonete: D-i-n...
Poeta: Não! Dinheiro não! A-r-t-e
Sabonete: D-i-n-h-e...
Poeta: A-r-t-e! A-r-t-e! A-r-t-e!
Sabonete: D-i-n-h-e-i...
Poeta: Ai, ai, ai! Dinheiro não! A-r-t-e!
Sabonete: A-r... A-r... A-r...
Poeta: Isso mesmo! Continua: A-r-t-e!
Sabonete: A-r.... A-r... Arame, bufunfa, bronze,capim, caroço, cobre, dimdim, ferro, gaita, grana,jabaculê, jimbra, legume, massa, metal, milho, níquel,numerário, óleo, ouro, pataca, prata, pagode, tacho,teca, tostão, tutu, tuncum, verba, zinco...
Friday, August 24, 2007
Thursday, August 23, 2007
Possibilidades
De Tiago Abad
Desafiar parâmetros, mudar regras, buscar provas... cada um que cuide do seu e cada um que vá atrás do seu conhecimento. As regras são claras, mas nem sempre precisamos seguí-las. Claro, desde que não seja prejudicial pra saúde, que não seja perigoso a alguém e que não tenha efeito destrutivo à nação.
Colocar em prática tudo aquilo que vem à mente, desde aquelas que parecem inúteis ou ao menos que aparentemente não tenham sentido. Já diria o filósofo: "Quem não arrisca, não petisca". O ato de arriscar não prevê momento, não tem hora marcada e muito menos regras. Arrisquei, chutei e é bem provável que acertei... em algum lugar, nem sempre o chute vai no lugar certo. Mas como se tratam de tentativas, o erro, às vezes, pode ser acerto.
O que é acerto, o que é erro? Quem ganha, quem perde? Somei, subtraí ou dividi? Questões dificílimas que se o Silvio Santos tivesse pensado na época camelô de ser, não teria arriscado absolutamente nada, assim como o senhor Casas Bahia.
Estou fazendo uma confusão de palavras pra arriscar falar algo hoje. Não tenho motivos pra dizer algo, muito menos pensar a respeito de uma coisa útil, portanto, estou arriscando... vai saber se este texto não é o que alguém gostaria de ler agora, neste momento.
Desafiar parâmetros, mudar regras, buscar provas... cada um que cuide do seu e cada um que vá atrás do seu conhecimento. As regras são claras, mas nem sempre precisamos seguí-las. Claro, desde que não seja prejudicial pra saúde, que não seja perigoso a alguém e que não tenha efeito destrutivo à nação.
Colocar em prática tudo aquilo que vem à mente, desde aquelas que parecem inúteis ou ao menos que aparentemente não tenham sentido. Já diria o filósofo: "Quem não arrisca, não petisca". O ato de arriscar não prevê momento, não tem hora marcada e muito menos regras. Arrisquei, chutei e é bem provável que acertei... em algum lugar, nem sempre o chute vai no lugar certo. Mas como se tratam de tentativas, o erro, às vezes, pode ser acerto.
O que é acerto, o que é erro? Quem ganha, quem perde? Somei, subtraí ou dividi? Questões dificílimas que se o Silvio Santos tivesse pensado na época camelô de ser, não teria arriscado absolutamente nada, assim como o senhor Casas Bahia.
Estou fazendo uma confusão de palavras pra arriscar falar algo hoje. Não tenho motivos pra dizer algo, muito menos pensar a respeito de uma coisa útil, portanto, estou arriscando... vai saber se este texto não é o que alguém gostaria de ler agora, neste momento.
Wednesday, August 22, 2007
OUÇA... (um conselho)
De Li de Oliveira
Talvez você não se dê conta de o quanto se tornou uma ilha, rodeada por um mar de pessoas. Um mar de problemas. Um mar de coisas imaginárias que você criou em sua solidão. Você vai para sua faculdade, seu trabalho no automático e mal se dá conta da vida que acontece em sua volta. A cada segundo.
E então olhando esse quadro que você e eu insistimos em pintar em nossas vidas, me dei conta, tive a brilhante percepção que existe um culpado para tudo isto!
Ele que anda roubando nossos pensamentos, desviando nossos olhares para um profundo nada. Porque assim estamos, uma legião de pessoas nos movimentando com os olhos presos ao léu. E olha que o Leo, nem é aquele cara saradão da academia.
Hoje em dia ninguém mais conversa. Não falamos de política, tempo, sexo, drogas ou rock'n roll. Não falamos “bom dia” para as pessoas que estão em nossa volta. E se falamos, não ouvimos a resposta. O mundo anda anti-social, e a culpa disto? Oh claro, tenho certeza que é dele!
Ah, maldito seja! Agora eu percebi a lavagem cerebral que sofremos e quantos escravos estamos nos submetendo ser. Será que você não percebe? Não se dá conta de quão fantoche é? Todo palhaço falando sozinho uma língua desconexa que só você sabe do que se trata. E balançando o corpo em um transe que acha que ninguém percebe. E, claro, ninguém percebe mesmo porque cada um está em seu próprio estado zumbi.
Seu mundinho pequeno com seus ouvidos tapados não se dá conta que a tecnologia está a te engolir. Acorda Maria! Acorda João!
Alow!!!!!!!! O inimigo mora ao lado. Ou melhor, mora dentro! Dentro da sua casa e como um diabinho sussurra: "Ouça-me e fique alheio ao mundo. Ama-me e não escute a mais ninguém..." E então você se rende. Porque tudo soa como música aos seus ouvidos...Conselho de amiga? Livre-se do seu Ipod.
Talvez você não se dê conta de o quanto se tornou uma ilha, rodeada por um mar de pessoas. Um mar de problemas. Um mar de coisas imaginárias que você criou em sua solidão. Você vai para sua faculdade, seu trabalho no automático e mal se dá conta da vida que acontece em sua volta. A cada segundo.
E então olhando esse quadro que você e eu insistimos em pintar em nossas vidas, me dei conta, tive a brilhante percepção que existe um culpado para tudo isto!
Ele que anda roubando nossos pensamentos, desviando nossos olhares para um profundo nada. Porque assim estamos, uma legião de pessoas nos movimentando com os olhos presos ao léu. E olha que o Leo, nem é aquele cara saradão da academia.
Hoje em dia ninguém mais conversa. Não falamos de política, tempo, sexo, drogas ou rock'n roll. Não falamos “bom dia” para as pessoas que estão em nossa volta. E se falamos, não ouvimos a resposta. O mundo anda anti-social, e a culpa disto? Oh claro, tenho certeza que é dele!
Ah, maldito seja! Agora eu percebi a lavagem cerebral que sofremos e quantos escravos estamos nos submetendo ser. Será que você não percebe? Não se dá conta de quão fantoche é? Todo palhaço falando sozinho uma língua desconexa que só você sabe do que se trata. E balançando o corpo em um transe que acha que ninguém percebe. E, claro, ninguém percebe mesmo porque cada um está em seu próprio estado zumbi.
Seu mundinho pequeno com seus ouvidos tapados não se dá conta que a tecnologia está a te engolir. Acorda Maria! Acorda João!
Alow!!!!!!!! O inimigo mora ao lado. Ou melhor, mora dentro! Dentro da sua casa e como um diabinho sussurra: "Ouça-me e fique alheio ao mundo. Ama-me e não escute a mais ninguém..." E então você se rende. Porque tudo soa como música aos seus ouvidos...Conselho de amiga? Livre-se do seu Ipod.
Tuesday, August 21, 2007
Uma imagem vale mais que mil palavras
De Thiago Fabrette
Será?
Essa semana, em meu curso de fotografia, assisti um filme muito interessante que tem como tema “a janela da alma”. Contava como as pessoas viam o mundo, mesmo a partir de dificuldades.
Hermeto Pascoal, por exemplo, tem um sério problema de vista. Os olhos dele dançam, de um lado para o outro. Mas isso para ele não é um problema. Tem solução, cabe uma operação, mas para ele, isso não é um problema, na verdade, ele até gosta muito.
Outro personagem: um fotógrafo cego. E que fotografa utilizando uma máquina antiga, que usa ainda filmes para registrar. E... ele fotografa!! E fica muito bom!! Ele afirma que se não fosse cego, ele não poderia fotografar como tal.
Eu me identifiquei com uma cena em particular com o Saramago. Ele cita o livro “Ensaio sobre a Cegueira” e conta um pouco como desenvolveu a idéia, olhando da Janela da Alma (nossos olhos) para fora e também, para dentro.
A partir desse filme, depois de assistí-lo e de me impressionar muito com esse pedaço em particular, foi pedido um exercício sobre minhas impressões, obviamente, registrado em fotografia. E vou tentar aqui, desmistificar que uma imagem vale mais que mil palavras.
Menos de mil palavras explicam uma imagem? DESAFIO. Até aqui, 221 palavras.
Olhei para dentro. Olhei e vi o que é o Thiago de agora. Olhei e vi uma enorme confusão, um turbilhão de coisas, medos, tensões, milhares de pressões, milhares de coisas, e eu ainda sobrevivendo, tentando e conseguindo me destacar dessas pressões, medos e tais, subindo, me expressando através da arte, reencontrada. A fotografia e os textos.
Dá pra imaginar a fotografia que eu fiz? Obviamente, a fotografia que eu elaborei é um conceito.
Uma que mostrava exatamente isso, e o fiz, colocando diversos objetos em uma mesa, bibelôs, isqueiros, moedas, controle remoto, balas de revólveres, adoçante, um dedo de plástico, remédios, cada qual, em confusão, em cima de um jornal e, ao centro, um boneco com um violão, com o rosto iluminado, se destaca dos objetos confusos. A imagem é propositalmente soturna. O fundo é negro, completamente, para aumentar a sensação de escuridão da alma e, à esquerda, aparece uma pequena janela, que é a saída disso tudo, com a imagem do quadro “o grito”.
394 palavras. Expliquei tudo? Consegue imaginar? Esse meu desafio demonstra tudo o que eu queria?
Talvez em uma foto-conceito, que quer somente transmitir uma idéia, isso realmente consiga ser explicado em menos palavras, mas, em uma foto diferente, técnica ou não, em cores, em sentimentos, nada disso se consiga traduzir em palavras.
O resultado desse meu desafio? Simples, essas são duas artes complementares e não, inimigas, como a frase em questão me faz parecer.
Uma imagem vale muito mais se acompanhada de 1000 palavras. E vice-versa.
(470 palavras)
(Quem quiser ver a foto, me manda um e-mail, ok? fabrette@multiclube.com.br)
Será?
Essa semana, em meu curso de fotografia, assisti um filme muito interessante que tem como tema “a janela da alma”. Contava como as pessoas viam o mundo, mesmo a partir de dificuldades.
Hermeto Pascoal, por exemplo, tem um sério problema de vista. Os olhos dele dançam, de um lado para o outro. Mas isso para ele não é um problema. Tem solução, cabe uma operação, mas para ele, isso não é um problema, na verdade, ele até gosta muito.
Outro personagem: um fotógrafo cego. E que fotografa utilizando uma máquina antiga, que usa ainda filmes para registrar. E... ele fotografa!! E fica muito bom!! Ele afirma que se não fosse cego, ele não poderia fotografar como tal.
Eu me identifiquei com uma cena em particular com o Saramago. Ele cita o livro “Ensaio sobre a Cegueira” e conta um pouco como desenvolveu a idéia, olhando da Janela da Alma (nossos olhos) para fora e também, para dentro.
A partir desse filme, depois de assistí-lo e de me impressionar muito com esse pedaço em particular, foi pedido um exercício sobre minhas impressões, obviamente, registrado em fotografia. E vou tentar aqui, desmistificar que uma imagem vale mais que mil palavras.
Menos de mil palavras explicam uma imagem? DESAFIO. Até aqui, 221 palavras.
Olhei para dentro. Olhei e vi o que é o Thiago de agora. Olhei e vi uma enorme confusão, um turbilhão de coisas, medos, tensões, milhares de pressões, milhares de coisas, e eu ainda sobrevivendo, tentando e conseguindo me destacar dessas pressões, medos e tais, subindo, me expressando através da arte, reencontrada. A fotografia e os textos.
Dá pra imaginar a fotografia que eu fiz? Obviamente, a fotografia que eu elaborei é um conceito.
Uma que mostrava exatamente isso, e o fiz, colocando diversos objetos em uma mesa, bibelôs, isqueiros, moedas, controle remoto, balas de revólveres, adoçante, um dedo de plástico, remédios, cada qual, em confusão, em cima de um jornal e, ao centro, um boneco com um violão, com o rosto iluminado, se destaca dos objetos confusos. A imagem é propositalmente soturna. O fundo é negro, completamente, para aumentar a sensação de escuridão da alma e, à esquerda, aparece uma pequena janela, que é a saída disso tudo, com a imagem do quadro “o grito”.
394 palavras. Expliquei tudo? Consegue imaginar? Esse meu desafio demonstra tudo o que eu queria?
Talvez em uma foto-conceito, que quer somente transmitir uma idéia, isso realmente consiga ser explicado em menos palavras, mas, em uma foto diferente, técnica ou não, em cores, em sentimentos, nada disso se consiga traduzir em palavras.
O resultado desse meu desafio? Simples, essas são duas artes complementares e não, inimigas, como a frase em questão me faz parecer.
Uma imagem vale muito mais se acompanhada de 1000 palavras. E vice-versa.
(470 palavras)
(Quem quiser ver a foto, me manda um e-mail, ok? fabrette@multiclube.com.br)
Monday, August 20, 2007
Caixas de Pandora individuais
De Suzana Marion
Hoje eu preciso falar de luto, mas luto pra mim não é apenas a dor da perda para a morte, é a dor da perda ponto. Ultimamente tenho visto muita dor, muito luto e vivido as minhas próprias perdas. Mas como sou a favor de sofrer tudo de uma vez, até a última gota, não vejo sentido em guardar a dor numa caixinha lá no fundo e viver como se nada tivesse acontecido, porque a caixa se abre no momento mais inoportuno, como se a avó caduca do seu namorado, ou aquele tio inconveniente, resolvesse perguntar sua idade ou seu peso no meio do almoço de domingo.
Você acha que eu pareço louca por querer sofrer de uma vez? Mas você conhece a história da caixa de pandora, não é? Todas as dores do mundo estavam numa caixa até que Pandora foi induzida a abrí-la. Então, quase todos os males foram liberados de uma só vez e, se não fosse o medo de Pandora, o último mal teria sido liberado e aí já era a esperança, já era o nosso mundinho! Pois é disso que eu estou falando, de acumular toda a dor e toda a mágoa e depois começar a chorar assistindo comercial de margarina! De fingir que nada aconteceu e depois perder o controle numa discussão sobre o sabor do pastel na feira. Estou falando de perder o seu filho ou seu pai e não dar o tempo devido ao luto, tornando desastroso o nascimento de um novo filho ou o relacionamento com a sua mãe, por exemplo.
E agora alguém pode pensar: “falou a psicóloga”, “falou a dona da verdade”, mas não é essa a minha intenção. O que eu quero mesmo é tentar tirar de dentro de mim a tristeza que eu sinto pelos outros, porque senão eu não posso ajudar. O que acontece no Admirável Mundo Novo de Huxley não acontece com a gente. As pessoas ali eram condicionadas a ver a morte como ganho e não como perda, tinham a crença de que todos eram células do corpo e você não chora quando faz esfoliação, certo? Mas a nossa visão é de que somos um corpo, e o corpo todo sofre quando se perde um membro. O mais perto que podemos chegar daquele desprendimento está em algumas religiões e culturas, como por exemplo o Shivah dos judeus, mas não deixa de haver tristeza e sofrimento, mesmo que haja algum tipo de celebração.Assim, se eu pudesse, aconselharia a todos a não trancar suas dores e medos, pediria pra lutar até superar, pra só então se ver livre das amarras, dos erros cometidos e das fatalidades dessa vida. Quero que o luto vá embora e que você viva.
Hoje eu preciso falar de luto, mas luto pra mim não é apenas a dor da perda para a morte, é a dor da perda ponto. Ultimamente tenho visto muita dor, muito luto e vivido as minhas próprias perdas. Mas como sou a favor de sofrer tudo de uma vez, até a última gota, não vejo sentido em guardar a dor numa caixinha lá no fundo e viver como se nada tivesse acontecido, porque a caixa se abre no momento mais inoportuno, como se a avó caduca do seu namorado, ou aquele tio inconveniente, resolvesse perguntar sua idade ou seu peso no meio do almoço de domingo.
Você acha que eu pareço louca por querer sofrer de uma vez? Mas você conhece a história da caixa de pandora, não é? Todas as dores do mundo estavam numa caixa até que Pandora foi induzida a abrí-la. Então, quase todos os males foram liberados de uma só vez e, se não fosse o medo de Pandora, o último mal teria sido liberado e aí já era a esperança, já era o nosso mundinho! Pois é disso que eu estou falando, de acumular toda a dor e toda a mágoa e depois começar a chorar assistindo comercial de margarina! De fingir que nada aconteceu e depois perder o controle numa discussão sobre o sabor do pastel na feira. Estou falando de perder o seu filho ou seu pai e não dar o tempo devido ao luto, tornando desastroso o nascimento de um novo filho ou o relacionamento com a sua mãe, por exemplo.
E agora alguém pode pensar: “falou a psicóloga”, “falou a dona da verdade”, mas não é essa a minha intenção. O que eu quero mesmo é tentar tirar de dentro de mim a tristeza que eu sinto pelos outros, porque senão eu não posso ajudar. O que acontece no Admirável Mundo Novo de Huxley não acontece com a gente. As pessoas ali eram condicionadas a ver a morte como ganho e não como perda, tinham a crença de que todos eram células do corpo e você não chora quando faz esfoliação, certo? Mas a nossa visão é de que somos um corpo, e o corpo todo sofre quando se perde um membro. O mais perto que podemos chegar daquele desprendimento está em algumas religiões e culturas, como por exemplo o Shivah dos judeus, mas não deixa de haver tristeza e sofrimento, mesmo que haja algum tipo de celebração.Assim, se eu pudesse, aconselharia a todos a não trancar suas dores e medos, pediria pra lutar até superar, pra só então se ver livre das amarras, dos erros cometidos e das fatalidades dessa vida. Quero que o luto vá embora e que você viva.
Wednesday, August 15, 2007
Enjoy the silence
De Lucimara Paiva
Sabe aquele dia em que a cabeça simplesmente não funciona? Pois é, não estou conseguindo escrever e qualquer tentativa não passaria de um texto chato. Hoje é um daqueles dias em que não tenho vontade de saber de absolutamente nada.
Não quero saber se tem cliente surtado pra variar, se tenho que comer, se a garrafa de água está vazia e que por isso estou com sede. A preguiça é maior.
Foi uma luta para conseguir acordar. A mente mandava, mas o corpo não respondia e ao invés de as coisas serem feitas rapidamente, pois eu já estava atrasada, fiquei enrolando, enrolando, enrolando.....Talvez estava esperando o ânimo chegar. Não chegou e me arrastei até aqui. Só o corpo, que fique bem claro. A mente se perdeu pelo caminho, não sei onde ela está, pois são tantos caminhos que resolvi deixá-la escolher para onde ir.
Não quero saber se você é um doente que me cobra pelos meus sumiços, mas quando eu resolvo aparecer, some também. Se você persegue cada passo meu apenas porque sente que me possui como possui um vaso. Se eu, às vezes, sinto que vou explodir de tanta saudade e fico me sufocando com mil mensagens de celular. Se vou quando você chama e me encolho quando você vai embora. Se fico nessa espera insana sem saber quando e onde vou parar. Teste para ver quem é mais idiota?
Não quero saber se tenho que usar protetor por causa das rugas, se alguma vez me arrependi, se magoei, se fodi a vida de alguém.
Não sei se sou adequada, se o guardinha lá da minha rua fica curioso sobre o que eu faço da vida toda vez que chego em casa, se eu tenho que parar de usar tênis e passar a usar scarpin para parecer comportada e não a Avril Lavigne depois da gripe.
Cansei de ser uma chata reclamona que supre a carência com uma caixa de chocolate e que acha que ser do contra é lindo. Lulu, meu amor, mais fácil ser só mais uma. Aí é só começar a dar para “só mais um”. Será uma foda “só mais uma”, que renderá uma história “só mais uma” e se der algum problema a resposta estará no orkut. Só que eu não quero mais saber de orkut e deletei tudo.
Também não estou com a mínima vontade de falar. Língua com preguiça, já viu? Acho que meu corpo está parando aos poucos, e só por hoje vou deixá-lo assim, inércia pura.
Só por hoje quero ser alienada, entende? Alienada sobre o mundo, alienada sobre essa realidade podre que me dá vontade de vomitar a cada meia hora, sobre gravatas, sobre ternos, sobre regras, tanto que parei de passar chapinha e tinta na cabeça. Alienada sobre você que brinca de esconde-esconde comigo só para suprir teu ego sádico, alienada sobre minhas escolhas e minha angústia sem fundo, sobre como serei quando não tiver mais tanto cabelo assim. Não consigo responder se acho mesmo que meu cabelo combina com minha cara, muito menos se meu nome combina com o resto do corpo. E se fosse Júlia, Bárbara, Hermenegilda? E se o cabelo fosse curto e loiro? E se eu fosse magérrima e não tivesse essa bunda grande?
Não quero mais saber porque palavras são desnecessárias, não quero saber por que quanto mais eu falo mais eu me arrependo, e por que cada vez que fico quieta, me arrependo por ter ficado engasgada. Então parei de pensar. Nem adianta tentar me dar opinião, não quero ouvir, além disso, como diria Raulzito, pegue toda essa opinião que você tem formada sobre tudo e enfie no meio do olho do teu cu. Farei algum esforço para ouví-lo quando seus próprios conselhos servirem para você, caso contrário, muito obrigada, enlouqueça sozinho, pois só por hoje não quero saber.
Sabe aquele dia em que a cabeça simplesmente não funciona? Pois é, não estou conseguindo escrever e qualquer tentativa não passaria de um texto chato. Hoje é um daqueles dias em que não tenho vontade de saber de absolutamente nada.
Não quero saber se tem cliente surtado pra variar, se tenho que comer, se a garrafa de água está vazia e que por isso estou com sede. A preguiça é maior.
Foi uma luta para conseguir acordar. A mente mandava, mas o corpo não respondia e ao invés de as coisas serem feitas rapidamente, pois eu já estava atrasada, fiquei enrolando, enrolando, enrolando.....Talvez estava esperando o ânimo chegar. Não chegou e me arrastei até aqui. Só o corpo, que fique bem claro. A mente se perdeu pelo caminho, não sei onde ela está, pois são tantos caminhos que resolvi deixá-la escolher para onde ir.
Não quero saber se você é um doente que me cobra pelos meus sumiços, mas quando eu resolvo aparecer, some também. Se você persegue cada passo meu apenas porque sente que me possui como possui um vaso. Se eu, às vezes, sinto que vou explodir de tanta saudade e fico me sufocando com mil mensagens de celular. Se vou quando você chama e me encolho quando você vai embora. Se fico nessa espera insana sem saber quando e onde vou parar. Teste para ver quem é mais idiota?
Não quero saber se tenho que usar protetor por causa das rugas, se alguma vez me arrependi, se magoei, se fodi a vida de alguém.
Não sei se sou adequada, se o guardinha lá da minha rua fica curioso sobre o que eu faço da vida toda vez que chego em casa, se eu tenho que parar de usar tênis e passar a usar scarpin para parecer comportada e não a Avril Lavigne depois da gripe.
Cansei de ser uma chata reclamona que supre a carência com uma caixa de chocolate e que acha que ser do contra é lindo. Lulu, meu amor, mais fácil ser só mais uma. Aí é só começar a dar para “só mais um”. Será uma foda “só mais uma”, que renderá uma história “só mais uma” e se der algum problema a resposta estará no orkut. Só que eu não quero mais saber de orkut e deletei tudo.
Também não estou com a mínima vontade de falar. Língua com preguiça, já viu? Acho que meu corpo está parando aos poucos, e só por hoje vou deixá-lo assim, inércia pura.
Só por hoje quero ser alienada, entende? Alienada sobre o mundo, alienada sobre essa realidade podre que me dá vontade de vomitar a cada meia hora, sobre gravatas, sobre ternos, sobre regras, tanto que parei de passar chapinha e tinta na cabeça. Alienada sobre você que brinca de esconde-esconde comigo só para suprir teu ego sádico, alienada sobre minhas escolhas e minha angústia sem fundo, sobre como serei quando não tiver mais tanto cabelo assim. Não consigo responder se acho mesmo que meu cabelo combina com minha cara, muito menos se meu nome combina com o resto do corpo. E se fosse Júlia, Bárbara, Hermenegilda? E se o cabelo fosse curto e loiro? E se eu fosse magérrima e não tivesse essa bunda grande?
Não quero mais saber porque palavras são desnecessárias, não quero saber por que quanto mais eu falo mais eu me arrependo, e por que cada vez que fico quieta, me arrependo por ter ficado engasgada. Então parei de pensar. Nem adianta tentar me dar opinião, não quero ouvir, além disso, como diria Raulzito, pegue toda essa opinião que você tem formada sobre tudo e enfie no meio do olho do teu cu. Farei algum esforço para ouví-lo quando seus próprios conselhos servirem para você, caso contrário, muito obrigada, enlouqueça sozinho, pois só por hoje não quero saber.
Monday, August 13, 2007
Aos 13 de agosto
De Luciana Muniz
Acordou com azia. Mais um dia de trabalho. Aquela semana não acabava nunca? Chegou atrasado para a reunião de líderes, justo a que o diretor da sua área compareceria. Dez minutos antes, perdera a vaga para um engraçadinho que se fingiu de morto e estacionou primeiro. Ele teve o ímpeto de fazer o fingimento se tornar realidade, mas desistiu da idéia porque sabia que já estava atrasado e não queria se tornar um homicida e um desempregado no mesmo dia.
A reunião não poderia ter sido mais terrível, um verdadeiro show de horror, o diretor era tão polido quanto um mastodonte e (pior!) tinha a plena certeza de que era a versão melhorada de Maquiavel nos planos estratégicos. Lamentável...
Quando olhou no relógio já eram duas da tarde e nada dele poder sair para almoçar e respirar um pouco. Então, já que o almoço tinha ido para as cucuias, resolveu sair tão logo as dezoito horas chegassem.
Anoitecia quando pisou na calçada, deu um longo suspiro. Que dia!
Manobrava o carro quando se deu conta de que havia esquecido o celular em sua mesa, voltou para buscar rapidamente.
Minutos depois, um tanto cansado, entrou no carro e não percebeu que haviam aproveitado sua distração.
Parou no farol vermelho e ao olhar no espelho percebeu que não estava sozinho. A primeira reação foi de incredulidade, não entendia como alguém tinha entrado em seu carro. Mas assim que sentiu o canivete em seu abdômen, se lembrou de que deixou a porta do carro destravada, confiante de que não demoraria na operação de ir e voltar.
– Entra à esquerda na próxima rua e nem um pio, senão te furo!
– Ca-calma... Já estou entrando... Mas é uma rua sem saída...
– É esta mesmo!
Chegando na ruazinha mal iluminada, agilmente escolhida pelo ladrão, sentiu que assim como o dia, a noite também seria longa. O larápio exigiu que ele saísse do carro e deixasse tudo, celular, carteira, documentos e até o paletó. Pensando bem, a gravata também era bonita...
Obedeceu a todas as exigências sem protesto algum, já tentando buscar na memória os números de telefone do seguro.
De tão obediente que fora, o ladrãozinho de voz fina desconfiou de suas intenções e tratou de retardar a sua busca por qualquer tipo de ajuda.
Saiu decidido do carro e então ele pôde ver que o assaltante era bem alto e corpulento, forte demais para uma briga justa, além de estar com um canivete.
Quando o assaltante saiu da viela com os pneus cantando, ele estava caído no chão com um corte não muito profundo na barriga, mas o suficiente para sangrar e apavora-lo. Sentia uma dor muito fina no local atingido e por conta disso não conseguia andar. Teve que quase se rastejar até a avenida mais próxima e implorar para que o ajudassem. Os transeuntes andavam apressados e não queriam se envolver. Só depois de quase meia hora uma senhora parou e o ajudou a chamar um táxi.
O caminho para o hospital foi um capítulo à parte. Os minutos não passavam e os segundos desfilavam vagarosamente pirracentos, gozando de sua dor. Suava frio. Perdia sangue. Estava exausto.
Quando enfim chegou ao hospital, foi medicado e levou os pontos necessários. Foi liberado em seguida, com uma receita repleta de remédios e recomendações.
Agora a segunda parte. Avisar a seguradora do roubo do automóvel e em seguida procurar uma delegacia para o boletim de ocorrência. Com a seguradora foi relativamente rápido, sem contar os quarenta e cinco minutos de espera ouvindo musiquinha. Mas na delegacia... A espera foi grande, o delegado estava em uma mega operação para prender uma quadrilha de assaltantes que estava lhe tirando o sono desde Abril. Do ano retrasado.
Quando chegou em casa e finalmente foi dormir, eram exatamente vinte e três horas e cinqüenta e oito minutos. Foi então que se deu conta. Faltavam dois minutos para o seu aflitivo dia acabar. Era uma sexta-feira, 13 de Agosto.
Acordou com azia. Mais um dia de trabalho. Aquela semana não acabava nunca? Chegou atrasado para a reunião de líderes, justo a que o diretor da sua área compareceria. Dez minutos antes, perdera a vaga para um engraçadinho que se fingiu de morto e estacionou primeiro. Ele teve o ímpeto de fazer o fingimento se tornar realidade, mas desistiu da idéia porque sabia que já estava atrasado e não queria se tornar um homicida e um desempregado no mesmo dia.
A reunião não poderia ter sido mais terrível, um verdadeiro show de horror, o diretor era tão polido quanto um mastodonte e (pior!) tinha a plena certeza de que era a versão melhorada de Maquiavel nos planos estratégicos. Lamentável...
Quando olhou no relógio já eram duas da tarde e nada dele poder sair para almoçar e respirar um pouco. Então, já que o almoço tinha ido para as cucuias, resolveu sair tão logo as dezoito horas chegassem.
Anoitecia quando pisou na calçada, deu um longo suspiro. Que dia!
Manobrava o carro quando se deu conta de que havia esquecido o celular em sua mesa, voltou para buscar rapidamente.
Minutos depois, um tanto cansado, entrou no carro e não percebeu que haviam aproveitado sua distração.
Parou no farol vermelho e ao olhar no espelho percebeu que não estava sozinho. A primeira reação foi de incredulidade, não entendia como alguém tinha entrado em seu carro. Mas assim que sentiu o canivete em seu abdômen, se lembrou de que deixou a porta do carro destravada, confiante de que não demoraria na operação de ir e voltar.
– Entra à esquerda na próxima rua e nem um pio, senão te furo!
– Ca-calma... Já estou entrando... Mas é uma rua sem saída...
– É esta mesmo!
Chegando na ruazinha mal iluminada, agilmente escolhida pelo ladrão, sentiu que assim como o dia, a noite também seria longa. O larápio exigiu que ele saísse do carro e deixasse tudo, celular, carteira, documentos e até o paletó. Pensando bem, a gravata também era bonita...
Obedeceu a todas as exigências sem protesto algum, já tentando buscar na memória os números de telefone do seguro.
De tão obediente que fora, o ladrãozinho de voz fina desconfiou de suas intenções e tratou de retardar a sua busca por qualquer tipo de ajuda.
Saiu decidido do carro e então ele pôde ver que o assaltante era bem alto e corpulento, forte demais para uma briga justa, além de estar com um canivete.
Quando o assaltante saiu da viela com os pneus cantando, ele estava caído no chão com um corte não muito profundo na barriga, mas o suficiente para sangrar e apavora-lo. Sentia uma dor muito fina no local atingido e por conta disso não conseguia andar. Teve que quase se rastejar até a avenida mais próxima e implorar para que o ajudassem. Os transeuntes andavam apressados e não queriam se envolver. Só depois de quase meia hora uma senhora parou e o ajudou a chamar um táxi.
O caminho para o hospital foi um capítulo à parte. Os minutos não passavam e os segundos desfilavam vagarosamente pirracentos, gozando de sua dor. Suava frio. Perdia sangue. Estava exausto.
Quando enfim chegou ao hospital, foi medicado e levou os pontos necessários. Foi liberado em seguida, com uma receita repleta de remédios e recomendações.
Agora a segunda parte. Avisar a seguradora do roubo do automóvel e em seguida procurar uma delegacia para o boletim de ocorrência. Com a seguradora foi relativamente rápido, sem contar os quarenta e cinco minutos de espera ouvindo musiquinha. Mas na delegacia... A espera foi grande, o delegado estava em uma mega operação para prender uma quadrilha de assaltantes que estava lhe tirando o sono desde Abril. Do ano retrasado.
Quando chegou em casa e finalmente foi dormir, eram exatamente vinte e três horas e cinqüenta e oito minutos. Foi então que se deu conta. Faltavam dois minutos para o seu aflitivo dia acabar. Era uma sexta-feira, 13 de Agosto.
Thursday, August 09, 2007
Problemas encontrados em uma lata de refrigerante
De Tiago Abad
Apresentarei agora oito problemas encontrados nas latas de refrigerante. Não gostaria que pensassem que não tenho nada pra escrever, mas gostaria de uma oportunidade em fornecer mais um pensamento sobre utilidade pública.
1. O anelzinho entra no vão da unha, dói pra caramba.
2. Se o anelzinho quebra, antes de abrir a lata, fudeu. Você terá que meter o dedo dentro da lata, e possivelmente acaba de ganhar um cortinho, que arde pra caramba.
3. Enquanto você bebe, sempre fica um restinho envolta da boca da lata. Aliás, cuidado, ao menor descuido, pode cair na roupa. Digo isto, pois se você estiver em uma festa e a mancha na roupa estiver presente, você acreditará piamente que todos estão te olhando.
4. As latas estão cada vez mais finas, se caso você têm manias de amassar a lata enquanto conversa, ela corta e aí já sabemos, ocorre o mesmo problema da situação "3".
5. Dizem que pode ter xixi de rato na boca da lata, nunca ouvi dizer que alguém morreu ou está doente por causa disso (sempre lançam boatos pra evitar a possibilidade de o cara ser pobre, morar do lado de um esgoto à céu aberto e numa enchente ter ficado doente).
6. Se você estiver puto e jogar em alguém, alvo de sua putisse, não machucará, procure algo mais pesado.
7. É um material reciclável, mas, dificilmente você encontra um lixinho para materiais recicláveis, logo, você poderá ficar com a lata o dia todo nas mãos.
8. Jamais (eu disse Jamais!), deixe a lata no sol com o refrigerante (o efeito produzido por esta combinação é similar ao da ingestão de um lacto purga).
Claro que temos vários problemas em vários produtos, mas como consumidores, consumíveis, precisamos avaliar as embalagens também, e olha que nem comecei a falar sobre embalagens de molho de tomate, por exemplo.
Apresentarei agora oito problemas encontrados nas latas de refrigerante. Não gostaria que pensassem que não tenho nada pra escrever, mas gostaria de uma oportunidade em fornecer mais um pensamento sobre utilidade pública.
1. O anelzinho entra no vão da unha, dói pra caramba.
2. Se o anelzinho quebra, antes de abrir a lata, fudeu. Você terá que meter o dedo dentro da lata, e possivelmente acaba de ganhar um cortinho, que arde pra caramba.
3. Enquanto você bebe, sempre fica um restinho envolta da boca da lata. Aliás, cuidado, ao menor descuido, pode cair na roupa. Digo isto, pois se você estiver em uma festa e a mancha na roupa estiver presente, você acreditará piamente que todos estão te olhando.
4. As latas estão cada vez mais finas, se caso você têm manias de amassar a lata enquanto conversa, ela corta e aí já sabemos, ocorre o mesmo problema da situação "3".
5. Dizem que pode ter xixi de rato na boca da lata, nunca ouvi dizer que alguém morreu ou está doente por causa disso (sempre lançam boatos pra evitar a possibilidade de o cara ser pobre, morar do lado de um esgoto à céu aberto e numa enchente ter ficado doente).
6. Se você estiver puto e jogar em alguém, alvo de sua putisse, não machucará, procure algo mais pesado.
7. É um material reciclável, mas, dificilmente você encontra um lixinho para materiais recicláveis, logo, você poderá ficar com a lata o dia todo nas mãos.
8. Jamais (eu disse Jamais!), deixe a lata no sol com o refrigerante (o efeito produzido por esta combinação é similar ao da ingestão de um lacto purga).
Claro que temos vários problemas em vários produtos, mas como consumidores, consumíveis, precisamos avaliar as embalagens também, e olha que nem comecei a falar sobre embalagens de molho de tomate, por exemplo.
Wednesday, August 08, 2007
Crise Aérea
De Li de Oliveira
Lady Leydiane mal podia crer em sua falta de sorte. Suas mãos estavam geladas e tremulas e seu pensamento ia longe... Voava! A propósito, pelo visto é a única coisa que poderia voar ali. Estava ela no aeroporto de Guarulhos, a espera do seu vôo. Vôo que estava atrasado.
Essa seria no mínimo a viagem dos seus sonhos, estava a caminho de Porto Seguro, para conhecer Jorge Welson, o homem da sua vida. Há três meses eles teclavam pela internet, se conheceram na comunidade do Orkut “Românticos Assumidos”. E o amor havia nascido assim, à distância. E agora, finalmente o conheceria pessoalmente! Mas e este vôo??
Olhou mais uma vez o painel... E nada. Nem sombra que seu vôo sairia. Pensou comprar uma revista para se distrair. Enquanto olhava as manchetes, decidindo qual levaria, uma voz surgiu aos seus ouvidos.
- Aposto que a guria vai morrer para que tenha assunto para o resto da novela.
Lady Leydiane olhou para um lado, para o outro e ninguém estava tão próximo para que o comentário pudesse ser com outra pessoa. Mirou o homem a sua frente, era loiro, de porte atlético, olhos claros. Sim, ele era bonito demais, porque falava com ela?
- Desculpe, tu não sabes que estou tão cansado de esperar meu vôo, que acho que se não conversar com alguém enlouqueço. Prazer sou Sandro Anderson.
- Oh, prazer, sou Lady Laydiane. Seu vôo também está atrasado? Bom, isso não é novidade. – Ela riu tímida.
- Ah estais no mesmo barco? Ou melhor, no mesmo avião? Ou melhor, avião é que não estamos mesmo, não é?
- Verdade, avião é o que está bem difícil para estar ultimamente. Para onde vai?
- Sou de Porto Alegre, sabes. Mas vou a Belo Horizonte a negócios. Isto se esse negócio aí resolver levantar vôo.
Mais uma vez ela riu, desta vez mais largamente, ele era extremamente agradável. Além de inegavelmente bonito. Estava sendo muito bom poder contar com esta companhia tornando os momentos de aflição, em leves sorrisos.
- Ah, eu estou indo para Porto Seguro, mas farei escala em Belo Horizonte. Você vai de PAM?
- Não! Com os últimos acontecimentos... PAM é o que ela faz quando chega ao chão. Não, meu vôo é o KY 6969. E o seu?
- Sério? Também irei neste!
- Oh pelo menos teremos companhia até o vôo sair. Você não fugirá antes de mim.
- É ... parece que não...
- Mas então, vai morrer?
- O que??????
- Calma! A guria da novela, estas para morrer para que haja vários suspeitos.
- Nossa, que susto Sandro Anderson, não pode falar assim em um aeroporto! – ela não conseguia parar de sorrir para ele.
- Guria, se continuar a sorrir assim, não me importo de chegar em Belo Horizonte amanhã.
A conversa fluiu durante toda a espera, durante todo o vôo. Inclusive, Lady Laydiane segurou a mão de Sandro Anderson bem apertada ao levantar vôo. E sentiu um aperto, não pelo avião que subia e sim no coração. Quando chegou em Belo Horizonte, tinha descoberto novos caminhos e sentidos a sua vida. O que pensava que era amor, não era. Tudo fez um sentido muito maior ao conhecer Sandro Anderson. Então, limitou-se a mandar uma mensagem de texto a Jorge Welson: “Jorge Welson não me espere mais, no aeroporto eu entendi o conselho da ministra. Vou segui-lo!”.
Lady Leydiane mal podia crer em sua falta de sorte. Suas mãos estavam geladas e tremulas e seu pensamento ia longe... Voava! A propósito, pelo visto é a única coisa que poderia voar ali. Estava ela no aeroporto de Guarulhos, a espera do seu vôo. Vôo que estava atrasado.
Essa seria no mínimo a viagem dos seus sonhos, estava a caminho de Porto Seguro, para conhecer Jorge Welson, o homem da sua vida. Há três meses eles teclavam pela internet, se conheceram na comunidade do Orkut “Românticos Assumidos”. E o amor havia nascido assim, à distância. E agora, finalmente o conheceria pessoalmente! Mas e este vôo??
Olhou mais uma vez o painel... E nada. Nem sombra que seu vôo sairia. Pensou comprar uma revista para se distrair. Enquanto olhava as manchetes, decidindo qual levaria, uma voz surgiu aos seus ouvidos.
- Aposto que a guria vai morrer para que tenha assunto para o resto da novela.
Lady Leydiane olhou para um lado, para o outro e ninguém estava tão próximo para que o comentário pudesse ser com outra pessoa. Mirou o homem a sua frente, era loiro, de porte atlético, olhos claros. Sim, ele era bonito demais, porque falava com ela?
- Desculpe, tu não sabes que estou tão cansado de esperar meu vôo, que acho que se não conversar com alguém enlouqueço. Prazer sou Sandro Anderson.
- Oh, prazer, sou Lady Laydiane. Seu vôo também está atrasado? Bom, isso não é novidade. – Ela riu tímida.
- Ah estais no mesmo barco? Ou melhor, no mesmo avião? Ou melhor, avião é que não estamos mesmo, não é?
- Verdade, avião é o que está bem difícil para estar ultimamente. Para onde vai?
- Sou de Porto Alegre, sabes. Mas vou a Belo Horizonte a negócios. Isto se esse negócio aí resolver levantar vôo.
Mais uma vez ela riu, desta vez mais largamente, ele era extremamente agradável. Além de inegavelmente bonito. Estava sendo muito bom poder contar com esta companhia tornando os momentos de aflição, em leves sorrisos.
- Ah, eu estou indo para Porto Seguro, mas farei escala em Belo Horizonte. Você vai de PAM?
- Não! Com os últimos acontecimentos... PAM é o que ela faz quando chega ao chão. Não, meu vôo é o KY 6969. E o seu?
- Sério? Também irei neste!
- Oh pelo menos teremos companhia até o vôo sair. Você não fugirá antes de mim.
- É ... parece que não...
- Mas então, vai morrer?
- O que??????
- Calma! A guria da novela, estas para morrer para que haja vários suspeitos.
- Nossa, que susto Sandro Anderson, não pode falar assim em um aeroporto! – ela não conseguia parar de sorrir para ele.
- Guria, se continuar a sorrir assim, não me importo de chegar em Belo Horizonte amanhã.
A conversa fluiu durante toda a espera, durante todo o vôo. Inclusive, Lady Laydiane segurou a mão de Sandro Anderson bem apertada ao levantar vôo. E sentiu um aperto, não pelo avião que subia e sim no coração. Quando chegou em Belo Horizonte, tinha descoberto novos caminhos e sentidos a sua vida. O que pensava que era amor, não era. Tudo fez um sentido muito maior ao conhecer Sandro Anderson. Então, limitou-se a mandar uma mensagem de texto a Jorge Welson: “Jorge Welson não me espere mais, no aeroporto eu entendi o conselho da ministra. Vou segui-lo!”.
Tuesday, August 07, 2007
Toda vez
De Thiago Fabrette
Toda vez que eu como um pedaço de carne, eu contribuo para o aquecimento global – a flatulência do gado é um dos maiores causadores do efeito estufa...
Mas toda vez que eu fecho a torneira para escovar os dentes ou lavar a louça,
Eu economizo água, uso menos produtos, enfim – os reservatórios de água e hidroelétricas são grandes responsáveis pela emissão de gases estufa.
Toda vez que eu vejo passar um avião, eu penso no presidente e nos motivos que me levaram a votar nele – se há dez meses, o caos aéreo é notícia na primeira página de todos os jornais, como ele não sabia?
Mas todas as vezes que eu vejo TV, eu penso – e essa corja completa? Quem daí se salva? Quem daí merece meu voto? – São todos, sem exceção, participantes, omissos ou não, desse sistema podre.
Toda vez que eu venho de carro para o trabalho, eu emito sujeira preta do meu pneu, emito gases estufa, contribuo para o trânsito caótico, contribuo para a redução da qualidade de vida em São Paulo...
Mas toda vez que eu pego o Metrô, eu vejo os trabalhadores ameaçando greves, eu fico inseguro de levar um Laptop, perco precioso tempo parado esperando, esperando...
E toda vez que eu olho pra mim no espelho, eu vejo um garoto ficando velho, sem passar pela fase adulta – Estou envelhecendo fisicamente, mas mentalmente, ainda me sinto um garoto, quero pular, correr, cometer irresponsabilidades...
Mas toda vez que eu me atraso pro trabalho, eu fico ansioso, acho que o mundo vai cair, irresponsabilidades não fazem mais parte desse garoto – adulto.
E toda essa história de “Toda vez” e “Mas toda vez” quer dizer uma coisa só: cadencio a minha vida por mim mesmo, sem pensar à minha volta. E toda vez, tenho que estar alerta para tudo, sempre em movimento, sempre preocupado.
Talvez por isso, toda vez que eu estou com meus amigos, em uma praia, sossegado, eu precise extravasar, beber, fumar, correr, gritar, dançar e me divertir ao extremo.
Porque toda vez, eu preciso esquecer o que é o meu dia-a-dia, toda vez.
Toda vez que eu como um pedaço de carne, eu contribuo para o aquecimento global – a flatulência do gado é um dos maiores causadores do efeito estufa...
Mas toda vez que eu fecho a torneira para escovar os dentes ou lavar a louça,
Eu economizo água, uso menos produtos, enfim – os reservatórios de água e hidroelétricas são grandes responsáveis pela emissão de gases estufa.
Toda vez que eu vejo passar um avião, eu penso no presidente e nos motivos que me levaram a votar nele – se há dez meses, o caos aéreo é notícia na primeira página de todos os jornais, como ele não sabia?
Mas todas as vezes que eu vejo TV, eu penso – e essa corja completa? Quem daí se salva? Quem daí merece meu voto? – São todos, sem exceção, participantes, omissos ou não, desse sistema podre.
Toda vez que eu venho de carro para o trabalho, eu emito sujeira preta do meu pneu, emito gases estufa, contribuo para o trânsito caótico, contribuo para a redução da qualidade de vida em São Paulo...
Mas toda vez que eu pego o Metrô, eu vejo os trabalhadores ameaçando greves, eu fico inseguro de levar um Laptop, perco precioso tempo parado esperando, esperando...
E toda vez que eu olho pra mim no espelho, eu vejo um garoto ficando velho, sem passar pela fase adulta – Estou envelhecendo fisicamente, mas mentalmente, ainda me sinto um garoto, quero pular, correr, cometer irresponsabilidades...
Mas toda vez que eu me atraso pro trabalho, eu fico ansioso, acho que o mundo vai cair, irresponsabilidades não fazem mais parte desse garoto – adulto.
E toda essa história de “Toda vez” e “Mas toda vez” quer dizer uma coisa só: cadencio a minha vida por mim mesmo, sem pensar à minha volta. E toda vez, tenho que estar alerta para tudo, sempre em movimento, sempre preocupado.
Talvez por isso, toda vez que eu estou com meus amigos, em uma praia, sossegado, eu precise extravasar, beber, fumar, correr, gritar, dançar e me divertir ao extremo.
Porque toda vez, eu preciso esquecer o que é o meu dia-a-dia, toda vez.
Monday, August 06, 2007
Eu preciso
De Suzana Marion
Espelhos, mídia, gente. Eu já me perdi muitas vezes no meio dessas vitrines ambulantes que passam no meu nariz. Marcas e modas, todo tipo de conceito que já vem pré-moldado, que é só vestir para entrar na moda.
Ônibus, shopping, escola. Preciso de um sobretudo... Que celular lindo! Ah, eu quero! Preciso de uma bolsa nova e meus sapatos já estão tão antigos. Queria um perfume destes...
Mas não posso esquecer da minha frase preferida: “Eu seria feliz se ganhasse um Peugeot 206 cc!” Quantas vezes não torci o pescoço pra sonhar mais um pouco com aquela visão do outro mundo? Realmente um sonho!
Mas será que eu seria mesmo feliz, se por mágica (quem sabe um gênio da lâmpada), todas as vezes que eu dissesse “eu preciso”, surgisse na minha frente o objeto do meu desejo?
Quem sabe se eu tivesse um rompante de benevolência eu às vezes dissesse “ele precisa”? Para falar a verdade, no meio de todo esse entulho e lixo do consumismo que já nem dá prazer, o que mais eu preciso é deixar pelo menos por um dia de dizer “EU PRECISO!”.
*Resolvi publicar em comemoração ao meu “destrancamento” de matrícula e a volta às aulas hoje à noite. Escrevi este textinho em 2005, nos primeiros dias da faculdade. A professora que solicitou era uma daquelas pessoas beeem alternativas e eu pensei que ela fosse me expulsar da sala por excesso de consumismo! Mas que nada, consegui um 9,5 pro meu grupo! Como é que eu podia imaginar?
Espelhos, mídia, gente. Eu já me perdi muitas vezes no meio dessas vitrines ambulantes que passam no meu nariz. Marcas e modas, todo tipo de conceito que já vem pré-moldado, que é só vestir para entrar na moda.
Ônibus, shopping, escola. Preciso de um sobretudo... Que celular lindo! Ah, eu quero! Preciso de uma bolsa nova e meus sapatos já estão tão antigos. Queria um perfume destes...
Mas não posso esquecer da minha frase preferida: “Eu seria feliz se ganhasse um Peugeot 206 cc!” Quantas vezes não torci o pescoço pra sonhar mais um pouco com aquela visão do outro mundo? Realmente um sonho!
Mas será que eu seria mesmo feliz, se por mágica (quem sabe um gênio da lâmpada), todas as vezes que eu dissesse “eu preciso”, surgisse na minha frente o objeto do meu desejo?
Quem sabe se eu tivesse um rompante de benevolência eu às vezes dissesse “ele precisa”? Para falar a verdade, no meio de todo esse entulho e lixo do consumismo que já nem dá prazer, o que mais eu preciso é deixar pelo menos por um dia de dizer “EU PRECISO!”.
*Resolvi publicar em comemoração ao meu “destrancamento” de matrícula e a volta às aulas hoje à noite. Escrevi este textinho em 2005, nos primeiros dias da faculdade. A professora que solicitou era uma daquelas pessoas beeem alternativas e eu pensei que ela fosse me expulsar da sala por excesso de consumismo! Mas que nada, consegui um 9,5 pro meu grupo! Como é que eu podia imaginar?
Friday, August 03, 2007
Para quê Brasil?
De Leandro Molino
Inicio a crônica desta semana já alertando: sei que irão me rotular de louco, racista, não-patriota, “anti-nordestino” e sei lá mais do quê. Adianto aos leitores e amigos que visitam esse espaço na “net” que aceito qualquer crítica, mesmo as mais duras, respeitando todas as opiniões. Mas tentem, ao menos, compreender em todas as nuanças o texto que se segue. Ele não se esgota em si próprio, pois pretende tão-somente instituir uma determinada discussão. Não sou santo, sequer o mais paciente e sábio dos homens. Todavia aprendi, com a mestra Vida que um dos primados da convivência é respeitar, principalmente os ideais dos outros. Isto posto, vamos ao texto. E seja o que Deus quiser... O seu título já sugere o roteiro que se seguirá: questiono para que serve esse trem chamado “Brasil”. Desde a formação deste País, em nenhum instante de sua história foi possível afirmar que esta nação encontrou o norte do desenvolvimento, elemento realmente capaz de dissipar, no que é possível, a mazela da pobreza, da ausência de educação e de cultura. Desde a sua “descoberta” (alguém ainda acredita na história do Cabral?), nosso País sempre foi administrado de maneira inteiramente equivocada, em razão da evidente falta de sensibilidade de nossos governantes. A inteligência dos nossos “administradores públicos” jamais atingiu este estágio, o da sensibilidade política e o do sentimento de servir à maioria e não aos interesses de seu grupo ideológico. Como sempre serviram aos interesses menores e pertencentes a uma minoria, os nossos “homens públicos” conseguiram gerar um povo individualista e receoso, desconfiado, especialmente no que concerne às divisões geopolíticas do País. Temos a sensação de que sempre está faltando alguma coisa para esse País “dar certo”. Desse modo, os devaneios administrativos que marcam a nossa História, desde as Capitanias Hereditárias, serviram para gerar o comportamento que até hoje nos caracteriza: o da segregação social. Somos racistas? Creio que sim. Mas em nossa sociedade, um outro comportamento ganha força dia-a-dia. Sejamos brancos ou negros, amarelos ou vermelhos, ou qualquer outra tipificação que seja inventada, em sendo brasileiros, somos, sim, “classistas”, pois discriminamos quem não detém ou dispõe, independente da cor da pele deste sujeito desventurado. Valoramos mais os que têm, não os que são. E, desta forma, valoramos mais o que temos e não o que somos. Nós, que habitamos a porção Centro-Sul do País, valoramos as nossas características, as nossas conquistas, a nossa historia. Os habitantes do Norte, idem. E o mesmo ocorre com os da região Nordestina. A denominada “história do Brasil” é, em verdade, uma colcha de retalhos. Nem mesmo com relação aos chamados “fatos históricos” há unidade, concordância. Daí calha a seguinte questão: somos, de verdade, um povo? Dispomos dos mesmos caracteres genéticos, culturais e comportamentais? E se não somos mais (ou nunca fomos) um povo verdadeiramente, necessitamos viver em um único País, “sobre o mesmo teto”? Hodiernamente, somos uma nação até mesmo em decorrência das questões legais: somos a República Federativa do Brasil, composta por vinte e sete estados agrupados em cinco regiões geopolíticas. E daí? Ser uma nação meramente do ponto de vista jurídico não nos torna um povo, unido pelo orgulho de sermos iguais e de determos os mesmos escopos. A principal causa da pobreza nordestina se dá pelo fato de o Nordeste pertencer ao Brasil. Loucura da minha parte? Se o Nordeste pudesse se separar do País, não existiriam mais as tão mal-afamadas verbas da “Indústria da Seca”. E o Nordeste poderia ser um País rico e vigoroso, produtor e exportador de frutas de qualidade, de vinhos nobres, detentor de uma pujante indústria do turismo, tão ou mais rica do que qualquer outra, oferecendo aos seus visitantes belezas naturais inimagináveis. As riquezas produzidas pelo Nordeste seriam administradas pelo seu próprio Governo, constituído lá mesmo, sendo destinadas a suprir as suas reais necessidades, não as necessidades que um engravatado, há mais de 800 km de distância, imagina existirem. Todos nós que vivemos no eixo centro-sul do País acreditamos, piamente, termos as respostas para todas as questões que afligem os nordestinos. Quanta presunção! E esse comortamento E o Norte do tal “Brasil”? Quem consegue, de fato, administrar e atender as necessidades de um povo que habita a maior reserva florestal do planeta? Seria alguém sentado à frente de um computador distante 1000 km da Selva Amazônica? A cada dia, ficam mais evidentes as discrepâncias deste País, onde cada vez mais há desunião ao invés de unidade. As demandas das Regiões Norte e Nordeste são absolutamente distintas entre si e entre as das outras Regiões do País. E em razão da vigência de um sistema absurdo, quem “sustenta” este País são as Regiões mais desenvolvidas. A que preço? Será que os habitantes destas regiões (supostamente) mais desenvolvidas concordam em verificar que seus impostos e taxas não lhe sejam direcionados, retornados? E será que este sistema é verdadeiramente capaz de fazer com que as regiões menos desenvolvidas um dia se desenvolvam social e economicamente? Como se percebe, do ponto de vista da lógica, não há qualquer razão para que os atualmente brasileiros se submetam, placidamente, a algo que não funciona. Nunca funcionou. Questões de soberania internacional? As “forças” que um País de grandes dimensões disporia no universo globalizado de hoje? Para estas duas questões, há controvérsias, até porque a Europa é pulverizada por diversos povos e Países. E é forte, muito forte. O que é certo, de fato, é que o mundo mudou e muda cada vez mais rapidamente. Da mesma forma, é certo que somente a partir de educação e cultura é que um povo ascende econômica ou socialmente. Errar uma vez é absolutamente humano. Mas insistir no erro, não. É doentio. Sádico. Errou-se ao pensar, ao projetar o Brasil? Sem dúvida. Então por que não mudamos tudo?
Inicio a crônica desta semana já alertando: sei que irão me rotular de louco, racista, não-patriota, “anti-nordestino” e sei lá mais do quê. Adianto aos leitores e amigos que visitam esse espaço na “net” que aceito qualquer crítica, mesmo as mais duras, respeitando todas as opiniões. Mas tentem, ao menos, compreender em todas as nuanças o texto que se segue. Ele não se esgota em si próprio, pois pretende tão-somente instituir uma determinada discussão. Não sou santo, sequer o mais paciente e sábio dos homens. Todavia aprendi, com a mestra Vida que um dos primados da convivência é respeitar, principalmente os ideais dos outros. Isto posto, vamos ao texto. E seja o que Deus quiser... O seu título já sugere o roteiro que se seguirá: questiono para que serve esse trem chamado “Brasil”. Desde a formação deste País, em nenhum instante de sua história foi possível afirmar que esta nação encontrou o norte do desenvolvimento, elemento realmente capaz de dissipar, no que é possível, a mazela da pobreza, da ausência de educação e de cultura. Desde a sua “descoberta” (alguém ainda acredita na história do Cabral?), nosso País sempre foi administrado de maneira inteiramente equivocada, em razão da evidente falta de sensibilidade de nossos governantes. A inteligência dos nossos “administradores públicos” jamais atingiu este estágio, o da sensibilidade política e o do sentimento de servir à maioria e não aos interesses de seu grupo ideológico. Como sempre serviram aos interesses menores e pertencentes a uma minoria, os nossos “homens públicos” conseguiram gerar um povo individualista e receoso, desconfiado, especialmente no que concerne às divisões geopolíticas do País. Temos a sensação de que sempre está faltando alguma coisa para esse País “dar certo”. Desse modo, os devaneios administrativos que marcam a nossa História, desde as Capitanias Hereditárias, serviram para gerar o comportamento que até hoje nos caracteriza: o da segregação social. Somos racistas? Creio que sim. Mas em nossa sociedade, um outro comportamento ganha força dia-a-dia. Sejamos brancos ou negros, amarelos ou vermelhos, ou qualquer outra tipificação que seja inventada, em sendo brasileiros, somos, sim, “classistas”, pois discriminamos quem não detém ou dispõe, independente da cor da pele deste sujeito desventurado. Valoramos mais os que têm, não os que são. E, desta forma, valoramos mais o que temos e não o que somos. Nós, que habitamos a porção Centro-Sul do País, valoramos as nossas características, as nossas conquistas, a nossa historia. Os habitantes do Norte, idem. E o mesmo ocorre com os da região Nordestina. A denominada “história do Brasil” é, em verdade, uma colcha de retalhos. Nem mesmo com relação aos chamados “fatos históricos” há unidade, concordância. Daí calha a seguinte questão: somos, de verdade, um povo? Dispomos dos mesmos caracteres genéticos, culturais e comportamentais? E se não somos mais (ou nunca fomos) um povo verdadeiramente, necessitamos viver em um único País, “sobre o mesmo teto”? Hodiernamente, somos uma nação até mesmo em decorrência das questões legais: somos a República Federativa do Brasil, composta por vinte e sete estados agrupados em cinco regiões geopolíticas. E daí? Ser uma nação meramente do ponto de vista jurídico não nos torna um povo, unido pelo orgulho de sermos iguais e de determos os mesmos escopos. A principal causa da pobreza nordestina se dá pelo fato de o Nordeste pertencer ao Brasil. Loucura da minha parte? Se o Nordeste pudesse se separar do País, não existiriam mais as tão mal-afamadas verbas da “Indústria da Seca”. E o Nordeste poderia ser um País rico e vigoroso, produtor e exportador de frutas de qualidade, de vinhos nobres, detentor de uma pujante indústria do turismo, tão ou mais rica do que qualquer outra, oferecendo aos seus visitantes belezas naturais inimagináveis. As riquezas produzidas pelo Nordeste seriam administradas pelo seu próprio Governo, constituído lá mesmo, sendo destinadas a suprir as suas reais necessidades, não as necessidades que um engravatado, há mais de 800 km de distância, imagina existirem. Todos nós que vivemos no eixo centro-sul do País acreditamos, piamente, termos as respostas para todas as questões que afligem os nordestinos. Quanta presunção! E esse comortamento E o Norte do tal “Brasil”? Quem consegue, de fato, administrar e atender as necessidades de um povo que habita a maior reserva florestal do planeta? Seria alguém sentado à frente de um computador distante 1000 km da Selva Amazônica? A cada dia, ficam mais evidentes as discrepâncias deste País, onde cada vez mais há desunião ao invés de unidade. As demandas das Regiões Norte e Nordeste são absolutamente distintas entre si e entre as das outras Regiões do País. E em razão da vigência de um sistema absurdo, quem “sustenta” este País são as Regiões mais desenvolvidas. A que preço? Será que os habitantes destas regiões (supostamente) mais desenvolvidas concordam em verificar que seus impostos e taxas não lhe sejam direcionados, retornados? E será que este sistema é verdadeiramente capaz de fazer com que as regiões menos desenvolvidas um dia se desenvolvam social e economicamente? Como se percebe, do ponto de vista da lógica, não há qualquer razão para que os atualmente brasileiros se submetam, placidamente, a algo que não funciona. Nunca funcionou. Questões de soberania internacional? As “forças” que um País de grandes dimensões disporia no universo globalizado de hoje? Para estas duas questões, há controvérsias, até porque a Europa é pulverizada por diversos povos e Países. E é forte, muito forte. O que é certo, de fato, é que o mundo mudou e muda cada vez mais rapidamente. Da mesma forma, é certo que somente a partir de educação e cultura é que um povo ascende econômica ou socialmente. Errar uma vez é absolutamente humano. Mas insistir no erro, não. É doentio. Sádico. Errou-se ao pensar, ao projetar o Brasil? Sem dúvida. Então por que não mudamos tudo?
Wednesday, August 01, 2007
Ela está logo ali
De Lucimara Paiva
Temos a mania de querer saber sobre tudo, ter certeza de tudo. A sensação de controle só vem dessa maneira. Quando antecipamos, nos sentimos preservados. O “quase”, o “talvez”, o “como será” gera angústia. Apesar disso, quando temos a única real certeza, preferimos negá-la.
Eu tenho medo de morrer. E você? Se não conseguir responder, entenderei. Mas vamos morrer, sinto muito. E só de pensar nisso já senti uma pontada aqui dentro. Eita, sensação horrível. Deve ser por isso que caço assunto e fico ansiosa quando me sinto limitada. É a inútil tentativa de fazer o máximo em pouco tempo.
Você poderia estar dentro do “avião surfista”.
Poderia estar dormindo dentro do ônibus bem na hora em que uma carreta cheia de concreto quase passou por cima do mesmo gerando um engavetamento na estrada.
Você poderia estar naquele acidente de carro ou ser o escolhido por um delinqüente inexperiente - pois aqui no Brasil agradecemos quando os bandidos são “profissionais” – que só quer fazer maldade e que mantém tua vida num gatilho.
Nesse exato momento em que estou digitando esse texto, o prédio poderia pegar fogo. Na hora do almoço uma bala perdida pode me atingir ou posso comer comida estragada e morrer de infecção generalizada.
A opção de viver ou não também poderia ser minha, no caso de ser seqüestrada do nada, e na hora em que o infeliz dissesse “Tire a roupa, gatinha, vamos nos divertir um pouco já que você é pobre.”, a minha resposta imediata seria “Desculpe, você vai ter que me matar antes.”.
A morte pode ser trágica, estúpida, rápida, dolorida, lenta, silenciosa, mas sempre será inesperada. Mesmo que você seja um velhinho “da hora”, que não tenha sido ruim para ninguém e tiver 95 anos, a certeza que você pode sumir de repente, vai deixar alguém muito triste. As sensações de fragilidade e perda são indescritíveis. Nem vou comentar muito, pois vira clichê redundante.
Ê, Dona Cida, como queria que você estivesse aqui. Lembro que você sempre dizia que queria me ver casando. Lembro que você escondia as balas Soft, fazia minhas mamadeiras, me dava água com açúcar quando o tio Beto me assustava, lembro de você toda vez que vejo aquela foto do meu aniversário de quatro anos. Seu olhar meigo era único. A saudade também é, sempre foi. Assim vamos seguindo entre perdas e superações, sabendo que nunca será a mesma coisa. Só queria pedir para ver minhas tatuagens ficando enrugadas e meus netos brincando com cachorros e perguntando porque a avó deles é rabiscada. Queria pedir para conhecer tudo o que eu tiver vontade e para morrer dormindo quando mais nada for novidade. Não dá, né?
No fim, acabo tendo certeza que é melhor negar essa única certeza. Não é conformismo, é que dói menos.
PS: Eu disse velhinho “da hora” porque, como citou Fernanda Young, não é porque você é idoso que vai ganhar uma áurea de anjo e todas suas ”filhadaputices” serão esquecidas, pois nesse caso, meu caro, todo mundo vai querer que você morra sim.
Temos a mania de querer saber sobre tudo, ter certeza de tudo. A sensação de controle só vem dessa maneira. Quando antecipamos, nos sentimos preservados. O “quase”, o “talvez”, o “como será” gera angústia. Apesar disso, quando temos a única real certeza, preferimos negá-la.
Eu tenho medo de morrer. E você? Se não conseguir responder, entenderei. Mas vamos morrer, sinto muito. E só de pensar nisso já senti uma pontada aqui dentro. Eita, sensação horrível. Deve ser por isso que caço assunto e fico ansiosa quando me sinto limitada. É a inútil tentativa de fazer o máximo em pouco tempo.
Você poderia estar dentro do “avião surfista”.
Poderia estar dormindo dentro do ônibus bem na hora em que uma carreta cheia de concreto quase passou por cima do mesmo gerando um engavetamento na estrada.
Você poderia estar naquele acidente de carro ou ser o escolhido por um delinqüente inexperiente - pois aqui no Brasil agradecemos quando os bandidos são “profissionais” – que só quer fazer maldade e que mantém tua vida num gatilho.
Nesse exato momento em que estou digitando esse texto, o prédio poderia pegar fogo. Na hora do almoço uma bala perdida pode me atingir ou posso comer comida estragada e morrer de infecção generalizada.
A opção de viver ou não também poderia ser minha, no caso de ser seqüestrada do nada, e na hora em que o infeliz dissesse “Tire a roupa, gatinha, vamos nos divertir um pouco já que você é pobre.”, a minha resposta imediata seria “Desculpe, você vai ter que me matar antes.”.
A morte pode ser trágica, estúpida, rápida, dolorida, lenta, silenciosa, mas sempre será inesperada. Mesmo que você seja um velhinho “da hora”, que não tenha sido ruim para ninguém e tiver 95 anos, a certeza que você pode sumir de repente, vai deixar alguém muito triste. As sensações de fragilidade e perda são indescritíveis. Nem vou comentar muito, pois vira clichê redundante.
Ê, Dona Cida, como queria que você estivesse aqui. Lembro que você sempre dizia que queria me ver casando. Lembro que você escondia as balas Soft, fazia minhas mamadeiras, me dava água com açúcar quando o tio Beto me assustava, lembro de você toda vez que vejo aquela foto do meu aniversário de quatro anos. Seu olhar meigo era único. A saudade também é, sempre foi. Assim vamos seguindo entre perdas e superações, sabendo que nunca será a mesma coisa. Só queria pedir para ver minhas tatuagens ficando enrugadas e meus netos brincando com cachorros e perguntando porque a avó deles é rabiscada. Queria pedir para conhecer tudo o que eu tiver vontade e para morrer dormindo quando mais nada for novidade. Não dá, né?
No fim, acabo tendo certeza que é melhor negar essa única certeza. Não é conformismo, é que dói menos.
PS: Eu disse velhinho “da hora” porque, como citou Fernanda Young, não é porque você é idoso que vai ganhar uma áurea de anjo e todas suas ”filhadaputices” serão esquecidas, pois nesse caso, meu caro, todo mundo vai querer que você morra sim.
Tuesday, July 31, 2007
Dorabella
De Fernando Alonso
Já se passaram 7 noites desde a gente foi pega, eu e minha irmãzinha. Me lembro bem, como se fosse ontem. Nunca senti um pavor tão grande! Eu sou mais nova que ela. É, a gente estava perto do Shopping. Como chama mesmo? Ah, Interlagos. Brincávamos no estacionamento quando nossa mãe lembrou que não tinha pago o ticket. Pediu para Clara (a Clarinha, minha irmã!) que a gente esperasse ao lado do carro. Foi quando um moço moreno grandão chegou e puxou ela pelo braço. Ela me segurou forte e juntas fomos levadas por aquele homem de nariz achatado. Ele tinha cara de mau, dava medo!
Ele tapou a boca de Clarinha enquanto nos arrastava para um carro amarelo, bem feio. Ela tentava gritar, mas não conseguia porque a boca continuava tapada. Eu gritei, mas ninguém ouvia! Ele então me jogou no banco de trás, e depois foi a vez de Clara. Ela estava muito assustada e ficava me apertando enquanto chorava. Eu também estava com medo, mas Clarinha me apertava tanto que eu nem conseguia enxergar nada!
Andamos por um tempão, e não sei bem por onde. O carro balançava muito e é difícil quando se é pequena conseguir enxergar pelo vidro do carro! E também a Clarinha não conseguia prestar atenção em nada, porque só chorava e me apertava o braço. Mas tudo bem, eu me sentia melhor, porque também morria de medo!
De uma hora pra outra o moço parou o carro. Ele desceu e fechou a porta. A gente tava num lugar muito feio e fedorento perto de um riozinho pequeninho, bem escuro e com um monte de casa feia em volta, parecia que não tavam prontas. Tem um monte de lugar assim em São Paulo né? Aí depois que ele terminou de conversar com outro moço ele voltou. Abriu de novo a porta e mandou a Clarinha calar a boca, senão batia nela. Eu fiquei com tanto medo que nem tentei falar mais nada depois disso.
Então o carro começou a andar de novo e aí a gente foi até o final da rua de terra. Chegando lá, o moço desceu e pegou Clarinha de novo pelo braço. Ela gritou por mim e ele deixou que ela me segurasse novamente pela mão. Estranho, o homem não tava nem aí pra mim, só pra Clarinha. Fiquei com medo por causa dela.
Bom, ele levou a gente pra uma daquelas casas bem feias. Lá abriu uma porta com cadeado e nos levou por uma escada pra baixo. Tinha um quarto escuro lá e sem janelas, com uma só lâmpada. Eu não gosto muito de ficar no escuro. Quando eu ficava só no nosso quarto passava muito nervoso. O bom é que a Clarinha sempre dormiu comigo. Mas então, ele jogou a gente lá dentro e trancou a porta. Minha irmã me abraçou e começou a chorar muito. Eu também queria chorar, mas não conseguia não sei por quê. E assim ficamos.
Passaram vários dias e Clarinha até emagreceu porque não conseguia comer direito. E a comida era muito nojenta também. Eles abriam a porta, deixavam o prato e fechavam de novo. Até barata aparecia no quarto. O colchão era sujo, muito sujo mesmo, e a gente tomava um monte de picada de bicho. Mais a Clarinha, comigo eles só pulavam e iam embora.
Olha, passamos um sufoco viu. Aí ontem o moço de nariz achatado apareceu e disse que a gente ia ser libertada. Ouvi ele dizer que ia deixar a gente na marginal Pinheiros, só não sabia onde ficava esse lugar. Ficamos super felizes, mas minha irmã não conseguia sorrir. Tava com medo ainda.
A Clarinha ficou esperando ansiosa a noite toda. Quando amanheceu, o moço abriu a cela e falou pra Clarinha que o pai dela tava esperando. Não sei porque não falou ‘’nosso’’ pai, mas percebi que pra ele eu nem existia! E Clarinha sempre cuidou de mim, mas ela tava tão feliz em ouvir falar do papai que soltou minha mão, pegou a do moço e assim foi embora! Ela me deixou...
Fiquei muito triste e com medo. Não sabia mais o que fazer. Eu nunca tinha dormido sozinha antes, e passei a noite mais horrível de minha vida. Abandonada pela minha família achei que ia ficar ali pra sempre.
Foi então que, quando amanheceu, uma moça abriu o quarto. Parecia que ela ia limpar lá, quando me encontrou. Ela estendeu sua mão, me pegou e me colocou numa cadeira, fora do quarto. Quando terminou de limpar, me pegou de novo e disse que ia me apresentar sua filha. Chamava Jéssica.
Minha vida então mudou. Eu não vivo mais numa casa tão legal, num bairro de casas mais bonitas. Moro agora num lugar sujo chamado ‘’Elióplis’’, ando cheia de terra e meu braço tá todo descosturado. Aqui cheira a esgoto, não me chamam mais de Dorabella, mas pelo menos eu não tô mais sozinha.
Já se passaram 7 noites desde a gente foi pega, eu e minha irmãzinha. Me lembro bem, como se fosse ontem. Nunca senti um pavor tão grande! Eu sou mais nova que ela. É, a gente estava perto do Shopping. Como chama mesmo? Ah, Interlagos. Brincávamos no estacionamento quando nossa mãe lembrou que não tinha pago o ticket. Pediu para Clara (a Clarinha, minha irmã!) que a gente esperasse ao lado do carro. Foi quando um moço moreno grandão chegou e puxou ela pelo braço. Ela me segurou forte e juntas fomos levadas por aquele homem de nariz achatado. Ele tinha cara de mau, dava medo!
Ele tapou a boca de Clarinha enquanto nos arrastava para um carro amarelo, bem feio. Ela tentava gritar, mas não conseguia porque a boca continuava tapada. Eu gritei, mas ninguém ouvia! Ele então me jogou no banco de trás, e depois foi a vez de Clara. Ela estava muito assustada e ficava me apertando enquanto chorava. Eu também estava com medo, mas Clarinha me apertava tanto que eu nem conseguia enxergar nada!
Andamos por um tempão, e não sei bem por onde. O carro balançava muito e é difícil quando se é pequena conseguir enxergar pelo vidro do carro! E também a Clarinha não conseguia prestar atenção em nada, porque só chorava e me apertava o braço. Mas tudo bem, eu me sentia melhor, porque também morria de medo!
De uma hora pra outra o moço parou o carro. Ele desceu e fechou a porta. A gente tava num lugar muito feio e fedorento perto de um riozinho pequeninho, bem escuro e com um monte de casa feia em volta, parecia que não tavam prontas. Tem um monte de lugar assim em São Paulo né? Aí depois que ele terminou de conversar com outro moço ele voltou. Abriu de novo a porta e mandou a Clarinha calar a boca, senão batia nela. Eu fiquei com tanto medo que nem tentei falar mais nada depois disso.
Então o carro começou a andar de novo e aí a gente foi até o final da rua de terra. Chegando lá, o moço desceu e pegou Clarinha de novo pelo braço. Ela gritou por mim e ele deixou que ela me segurasse novamente pela mão. Estranho, o homem não tava nem aí pra mim, só pra Clarinha. Fiquei com medo por causa dela.
Bom, ele levou a gente pra uma daquelas casas bem feias. Lá abriu uma porta com cadeado e nos levou por uma escada pra baixo. Tinha um quarto escuro lá e sem janelas, com uma só lâmpada. Eu não gosto muito de ficar no escuro. Quando eu ficava só no nosso quarto passava muito nervoso. O bom é que a Clarinha sempre dormiu comigo. Mas então, ele jogou a gente lá dentro e trancou a porta. Minha irmã me abraçou e começou a chorar muito. Eu também queria chorar, mas não conseguia não sei por quê. E assim ficamos.
Passaram vários dias e Clarinha até emagreceu porque não conseguia comer direito. E a comida era muito nojenta também. Eles abriam a porta, deixavam o prato e fechavam de novo. Até barata aparecia no quarto. O colchão era sujo, muito sujo mesmo, e a gente tomava um monte de picada de bicho. Mais a Clarinha, comigo eles só pulavam e iam embora.
Olha, passamos um sufoco viu. Aí ontem o moço de nariz achatado apareceu e disse que a gente ia ser libertada. Ouvi ele dizer que ia deixar a gente na marginal Pinheiros, só não sabia onde ficava esse lugar. Ficamos super felizes, mas minha irmã não conseguia sorrir. Tava com medo ainda.
A Clarinha ficou esperando ansiosa a noite toda. Quando amanheceu, o moço abriu a cela e falou pra Clarinha que o pai dela tava esperando. Não sei porque não falou ‘’nosso’’ pai, mas percebi que pra ele eu nem existia! E Clarinha sempre cuidou de mim, mas ela tava tão feliz em ouvir falar do papai que soltou minha mão, pegou a do moço e assim foi embora! Ela me deixou...
Fiquei muito triste e com medo. Não sabia mais o que fazer. Eu nunca tinha dormido sozinha antes, e passei a noite mais horrível de minha vida. Abandonada pela minha família achei que ia ficar ali pra sempre.
Foi então que, quando amanheceu, uma moça abriu o quarto. Parecia que ela ia limpar lá, quando me encontrou. Ela estendeu sua mão, me pegou e me colocou numa cadeira, fora do quarto. Quando terminou de limpar, me pegou de novo e disse que ia me apresentar sua filha. Chamava Jéssica.
Minha vida então mudou. Eu não vivo mais numa casa tão legal, num bairro de casas mais bonitas. Moro agora num lugar sujo chamado ‘’Elióplis’’, ando cheia de terra e meu braço tá todo descosturado. Aqui cheira a esgoto, não me chamam mais de Dorabella, mas pelo menos eu não tô mais sozinha.
Monday, July 30, 2007
Conhece-te a ti mesmo
De Luciana Muniz
Os mistérios do universo sempre me fascinaram, sempre tive a curiosidade de saber os porquês dos porquês dos porquês e isso não deve ser à toa...
Então fui atrás da minha curiosidade, sempre guiada pela minha intuição. Li muitos livros, mas ainda sentia que lia e não entendia! A sensação de que as palavras eram literais me perturbava, foi quando li, não recordo o livro tampouco o autor, que o caminho que leva à consciência do universo é um caminho sem volta...
Sinceramente não compreendi o que isso significava, como sem volta?
Somente anos mais tarde me dei conta do seu real significado, principalmente quando li textos de Sócrates, o filósofo grego, onde ele citou sabiamente: CONHECE-TE A TI MESMO. A meu ver esta frase é a chave para a compreensão de todo o universo!
Só conseguimos compreender as outras pessoas depois que aprendemos a nos conhecer, sem máscaras, sem ilusões. Quando aprendemos a enxergar sem medo nossas qualidades e defeitos, nossos sentimentos e desejos mais profundos, estamos aprendendo também a enxergar o próximo, porque o próximo também tem qualidades e defeitos, também anseia por algo, também sente medo.
Começamos aos poucos a enxergar o mundo à nossa volta e as pessoas que dele fazem parte, de outra forma, mais real, mágica! Aos poucos e naturalmente a sensibilidade vai aflorando até que sejamos capazes de compreender o real significado de um olhar, de uma palavra, um gesto.
É um caminho sem volta sim, pois toda a inocência é perdida, a realidade se mostra totalmente, às vezes de maneira cruel. Por um lado é muito bom, pois estaremos preparados para os acontecimentos, mas por outro... Às vezes é melhor não saber, não intuir e enxergar aquilo que gostaríamos que não fosse real.
Os inocentes são felizes, mas são cegos. Aqueles que conseguem enxergar além do superficial também são felizes, mas de uma felicidade sólida, com os pés fincados no chão, pois antes de tudo conhecem a si mesmos!
Os mistérios do universo sempre me fascinaram, sempre tive a curiosidade de saber os porquês dos porquês dos porquês e isso não deve ser à toa...
Então fui atrás da minha curiosidade, sempre guiada pela minha intuição. Li muitos livros, mas ainda sentia que lia e não entendia! A sensação de que as palavras eram literais me perturbava, foi quando li, não recordo o livro tampouco o autor, que o caminho que leva à consciência do universo é um caminho sem volta...
Sinceramente não compreendi o que isso significava, como sem volta?
Somente anos mais tarde me dei conta do seu real significado, principalmente quando li textos de Sócrates, o filósofo grego, onde ele citou sabiamente: CONHECE-TE A TI MESMO. A meu ver esta frase é a chave para a compreensão de todo o universo!
Só conseguimos compreender as outras pessoas depois que aprendemos a nos conhecer, sem máscaras, sem ilusões. Quando aprendemos a enxergar sem medo nossas qualidades e defeitos, nossos sentimentos e desejos mais profundos, estamos aprendendo também a enxergar o próximo, porque o próximo também tem qualidades e defeitos, também anseia por algo, também sente medo.
Começamos aos poucos a enxergar o mundo à nossa volta e as pessoas que dele fazem parte, de outra forma, mais real, mágica! Aos poucos e naturalmente a sensibilidade vai aflorando até que sejamos capazes de compreender o real significado de um olhar, de uma palavra, um gesto.
É um caminho sem volta sim, pois toda a inocência é perdida, a realidade se mostra totalmente, às vezes de maneira cruel. Por um lado é muito bom, pois estaremos preparados para os acontecimentos, mas por outro... Às vezes é melhor não saber, não intuir e enxergar aquilo que gostaríamos que não fosse real.
Os inocentes são felizes, mas são cegos. Aqueles que conseguem enxergar além do superficial também são felizes, mas de uma felicidade sólida, com os pés fincados no chão, pois antes de tudo conhecem a si mesmos!
Friday, July 27, 2007
O CANDIDATO
De Marcelo Ferrari
- Dona Heloísa, manda entrar o próximo.
- Pois não, Dr. Ataliba!
- O próximo por favor!
- Sou eu.
- Pode entrar. É por esta porta.
- Obrigado
(...)
- Pode se sentar, por favor.
- Obrigado.
- Pois bem, o senhor está procurando emprego, é isto?
- Sim, é isto mesmo.
- E o que o senhor sabe fazer.
- Nada.
- Nada!?
- Bem, quase nada. Tem uma coisa que eu sei fazer.
- Ótimo, e o que é?
- Eu sei amar.
- Amar! Como assim?
- Eu amo as coisas, os bichos, as plantas, as pessoas. Bem, resumindo pro senhor, eu amo a vida.
- Meu amigo, você não pode estar falando sério. Isto só pode ser pegadinha, né? He he he... esta foi engraçada. Cadê a câmera?
- Com todo o respeito Doutor...
- Doutor Ataliba.
- Com todo o respeito Dr. Ataliba, eu estou falando sério. Eu não sei fazer nada, só sei amar mesmo.
- Meu amigo, como espera que eu lhe arranje um emprego assim.
- Ué, sempre ouço dizer que a terra está precisando de amor.
- Sim, mas o seu amor não conserta a geladeira do próximo, conserta?
- Não.
- Não faz pão na padaria, faz?
- Não.
- Não enche o tanque do carro de gasolina, enche?
- Também não. Mas, então, o que é que eu faço? Eu só sei amar, não sei fazer mais nada.
- Bem, você já tentou vaga em outros planetas?
- Dona Heloísa, manda entrar o próximo.
- Pois não, Dr. Ataliba!
- O próximo por favor!
- Sou eu.
- Pode entrar. É por esta porta.
- Obrigado
(...)
- Pode se sentar, por favor.
- Obrigado.
- Pois bem, o senhor está procurando emprego, é isto?
- Sim, é isto mesmo.
- E o que o senhor sabe fazer.
- Nada.
- Nada!?
- Bem, quase nada. Tem uma coisa que eu sei fazer.
- Ótimo, e o que é?
- Eu sei amar.
- Amar! Como assim?
- Eu amo as coisas, os bichos, as plantas, as pessoas. Bem, resumindo pro senhor, eu amo a vida.
- Meu amigo, você não pode estar falando sério. Isto só pode ser pegadinha, né? He he he... esta foi engraçada. Cadê a câmera?
- Com todo o respeito Doutor...
- Doutor Ataliba.
- Com todo o respeito Dr. Ataliba, eu estou falando sério. Eu não sei fazer nada, só sei amar mesmo.
- Meu amigo, como espera que eu lhe arranje um emprego assim.
- Ué, sempre ouço dizer que a terra está precisando de amor.
- Sim, mas o seu amor não conserta a geladeira do próximo, conserta?
- Não.
- Não faz pão na padaria, faz?
- Não.
- Não enche o tanque do carro de gasolina, enche?
- Também não. Mas, então, o que é que eu faço? Eu só sei amar, não sei fazer mais nada.
- Bem, você já tentou vaga em outros planetas?
Thursday, July 26, 2007
Já que mandou, vou mesmo!
De Tiago Abad
Por que existe a expressão "vá pro inferno!"? E por que ninguém te manda pro céu?. Dificilmente lhe desejam coisas boas, tirando seus familiares e amigos, a maioria das pessoas te mandam pra "baixo". A tal expressão está presente nos mais variados locais: no trânsito, nas portas de estádio, nas filas dos bancos, em cima da laje, e até nas religiões, “se você não fizer o bem, vai pro inferno”.
Aproveitando a expressão, e o aquecimento global, – no futuro nem precisaremos mais utilizar a expressão, pois viveremos no inferno – o que eu levaria na mochila pra passar uma estada no inferno? É uma dúvida grande, afinal de contas, ninguém te manda pro inferno e diz “olha, leva protetor solar que lá é quente!”. Bom, se eu realmente tivesse que passar alguns dias no inferno, a lista está pronta!
1. Uma garrafa d'água
2. Um leque (não levo ventilador, pode não haver tomadas)
3. Uma bermuda
4. Desodorante (depois de um tempo as coisas devem ficar "tensas")
5. Meias vivarina (protege de tudo)
6. Um guarda-sol
7. Espetinhos Mimi (onde há fogo, há churrasco)
8. Uma luva de amianto (pra não queimar a mão, vai que tem que abrir alguma porta ou sei lá o que)
9. Um esquimó (só pra ele vivenciar coisas diferentes)
10. Protetor para pernilongos (existe coisa mais infernal que pernilongos?)
E se alguém tiver dicas, por favor, me ajudem! E o capeta que se cuide.
Por que existe a expressão "vá pro inferno!"? E por que ninguém te manda pro céu?. Dificilmente lhe desejam coisas boas, tirando seus familiares e amigos, a maioria das pessoas te mandam pra "baixo". A tal expressão está presente nos mais variados locais: no trânsito, nas portas de estádio, nas filas dos bancos, em cima da laje, e até nas religiões, “se você não fizer o bem, vai pro inferno”.
Aproveitando a expressão, e o aquecimento global, – no futuro nem precisaremos mais utilizar a expressão, pois viveremos no inferno – o que eu levaria na mochila pra passar uma estada no inferno? É uma dúvida grande, afinal de contas, ninguém te manda pro inferno e diz “olha, leva protetor solar que lá é quente!”. Bom, se eu realmente tivesse que passar alguns dias no inferno, a lista está pronta!
1. Uma garrafa d'água
2. Um leque (não levo ventilador, pode não haver tomadas)
3. Uma bermuda
4. Desodorante (depois de um tempo as coisas devem ficar "tensas")
5. Meias vivarina (protege de tudo)
6. Um guarda-sol
7. Espetinhos Mimi (onde há fogo, há churrasco)
8. Uma luva de amianto (pra não queimar a mão, vai que tem que abrir alguma porta ou sei lá o que)
9. Um esquimó (só pra ele vivenciar coisas diferentes)
10. Protetor para pernilongos (existe coisa mais infernal que pernilongos?)
E se alguém tiver dicas, por favor, me ajudem! E o capeta que se cuide.
Wednesday, July 25, 2007
Sem Medo
De Li de Oliveira
Ela sabia bem quem era, aonde ia e como faria para chegar lá. Não se importava com opiniões que não fossem realmente de alguma valia. Abominava hipocrisia. Pois, não entendia nem por segundo a ausência da verdade. Da sua. Do outro. De todos.
Por que as maiorias das pessoas tinham que ocultar a verdade, pois, acham a mentira mais aceitável? A mentira tem perna curta sim, e quando cai... Ahh machuca! Será que você não aprendeu?
Não entendia também, o medo de certas atitudes que todos tem vontade e não fazem porque isto pode chocar alguém. Ou alguém pode não entender. Ou alguém pode julgar errado. Mas “o alguém” paga as suas contas?
E por falar em julgamento... Que esporte é este que todos praticam? Malham suas línguas sem o menor propósito útil. Será que você olhou no espelho antes de falar do outro? Ela acreditava em motivos. Todos têm os seus. E como justiça, acreditava também em ato / conseqüência. Então, porque ela ia se abalar e deixar a sua vida para cuidar da do próximo? Cada um com seu cada qual.
Sim, ela gostava de frases feitas. Tinha uma idéia romântica sobre elas... Que se atravessaram anos e anos, passando por todos é porque realmente tinham força e verdade. Então porque realmente não praticá-las?
Todos complicavam muito. Todos se guardavam muito. E se apegavam muito a rótulos. Para ela não funcionava assim. Ela ria disto. Porque gostava da sensação de fazer. Fazer o que fosse. Quando fosse. Com quem fosse. O ato seria só seu. A conseqüência só sua. Por que deixar de lado as possibilidades?
Vive, pode e quer. Assim ela seguia. Provando um pouco dali. Um pouco daqui. Aproveitando o que lhe convinha. Ignorando o que não fazia a sua cabeça. Espiando o ilegal. Defendendo o legal. Pintando o cabelo e o sete. Beijando o pouco provável. Amando quem realmente merecia...
Por que a vida dela não era novela. Não precisava de expectadores. Tudo que faz é por ela. Pra ser feliz. E isto bastava.
Ela sabia bem quem era, aonde ia e como faria para chegar lá. Não se importava com opiniões que não fossem realmente de alguma valia. Abominava hipocrisia. Pois, não entendia nem por segundo a ausência da verdade. Da sua. Do outro. De todos.
Por que as maiorias das pessoas tinham que ocultar a verdade, pois, acham a mentira mais aceitável? A mentira tem perna curta sim, e quando cai... Ahh machuca! Será que você não aprendeu?
Não entendia também, o medo de certas atitudes que todos tem vontade e não fazem porque isto pode chocar alguém. Ou alguém pode não entender. Ou alguém pode julgar errado. Mas “o alguém” paga as suas contas?
E por falar em julgamento... Que esporte é este que todos praticam? Malham suas línguas sem o menor propósito útil. Será que você olhou no espelho antes de falar do outro? Ela acreditava em motivos. Todos têm os seus. E como justiça, acreditava também em ato / conseqüência. Então, porque ela ia se abalar e deixar a sua vida para cuidar da do próximo? Cada um com seu cada qual.
Sim, ela gostava de frases feitas. Tinha uma idéia romântica sobre elas... Que se atravessaram anos e anos, passando por todos é porque realmente tinham força e verdade. Então porque realmente não praticá-las?
Todos complicavam muito. Todos se guardavam muito. E se apegavam muito a rótulos. Para ela não funcionava assim. Ela ria disto. Porque gostava da sensação de fazer. Fazer o que fosse. Quando fosse. Com quem fosse. O ato seria só seu. A conseqüência só sua. Por que deixar de lado as possibilidades?
Vive, pode e quer. Assim ela seguia. Provando um pouco dali. Um pouco daqui. Aproveitando o que lhe convinha. Ignorando o que não fazia a sua cabeça. Espiando o ilegal. Defendendo o legal. Pintando o cabelo e o sete. Beijando o pouco provável. Amando quem realmente merecia...
Por que a vida dela não era novela. Não precisava de expectadores. Tudo que faz é por ela. Pra ser feliz. E isto bastava.
Tuesday, July 24, 2007
A Diferença
De Thiago Fabrette
Existem duas coisas que parecem muito próximas, muito iguais, mas na real, não são.
Estou aqui falando de “ser sincero” e “ser verdadeiro”. E não quero fazer nenhuma alusão política. Se você, leitor, quiser buscar essa alusão, que o faça (estou aqui, sendo sincero. Pode perceber que ser sincero, às vezes, não é nada bom? Pode aborrecer algumas pessoas.).
Sou uma pessoa sincera e verdadeira. E percebe que um não anula o outro? Pois aí é que está! Não são iguais!
Já tentei ser uma pessoa rigidamente sincera. Muitas pessoas, acho que já tentaram... Falar tudo na cara! Na hora! Pra nós, que estamos sendo totalmente sinceros, é ótimo. Para as pessoas à nossa volta, nem tanto.
- Senhor, há uma cadeira ali, gostaria de sentar-se?
- Não, obrigado, minhas hemorróidas estão atacadas...
Imagine a sensação deliciosa de estar sendo sincero e a sensação horrorosa do receptor da mensagem. Isso não é nada.
- Amor, como ficou meu cabelo?
- Uma merda, se me permite dizer...
Pronto! Um mês para o cabelo crescer e um mês de caras feias. Foi legal?
Não, não foi nada legal. Dói.
É possível ser sincero sem usar tais palavras. É. É possível.
- Senhor, há uma cadeira ali, gostaria de sentar-se?
- Não obrigado, estou bem assim, de pé...
- Mas senhor, o atendimento vai demorar ainda...
- Minha senhora, me desculpe, mas minhas porras de hemorróidas estão atacadas, obrigado.
(às vezes, para não ser mais perturbado, uma pequena dose de sinceridade é bem eficiente, mas com certeza, você será odiado em muitos lugares e por muitas pessoas).
Ser verdadeiro. Isso. Me orgulho hoje de ter evoluído de sincero para verdadeiro. Tenho um compromisso com a verdade, mesmo que não precise machucar os outros.
- Amor, como ficou meu cabelo?
- Ah, meu bem, você fica ótima de qualquer jeito, não é seu aspecto externo que me atraiu em você. Mas, se quer minha opinião, gosto mais do outro jeito. Se bem que se você está se sentindo legal assim, eu também fico!
(que lindo! Mas que trabalhoso! Mas é assim mesmo. Me dá um trabalho danado, mas muitas vezes, recebo de volta uma coisa preciosa: sorrisos).
- Senhor, há uma cadeira ali, gostaria de sentar-se?
- Não obrigado, estou bem assim, de pé...
- Mas senhor, o atendimento vai demorar ainda...
- Hum... Vou considerar isso e posso aceitar seu convite depois. Por enquanto, estou bem acomodado assim, mas, mais uma vez, obrigado.
(sorriso).
Ser sincero e ser verdadeiro. Pra mim, duas coisas diferentes. Não complementares, não antagônicas, mas diferentes. Um dia, ser verdadeiro assim, deverá me valer de algo.
Se a pessoa que me vendeu o meu cachorro, meu filhote, tivesse sido verdadeira, se o veterinário que cuidou dele nos primeiros dias de vida (curta vida), tivesse um compromisso com a verdade, talvez ele não tinha sofrido tanto, nem lutado tanto em vão pela vida.
Viveu somente três meses. Tenho orgulho da luta dele. Eu teria desistido muito antes. Mas ele não, ele era muito forte.Um dia, ser verdadeiro vai me valer de algo. Coisa que, para essas pessoas que não fizeram nada para garantir a vida do meu filhote, um dia, vai fazer falta.
Existem duas coisas que parecem muito próximas, muito iguais, mas na real, não são.
Estou aqui falando de “ser sincero” e “ser verdadeiro”. E não quero fazer nenhuma alusão política. Se você, leitor, quiser buscar essa alusão, que o faça (estou aqui, sendo sincero. Pode perceber que ser sincero, às vezes, não é nada bom? Pode aborrecer algumas pessoas.).
Sou uma pessoa sincera e verdadeira. E percebe que um não anula o outro? Pois aí é que está! Não são iguais!
Já tentei ser uma pessoa rigidamente sincera. Muitas pessoas, acho que já tentaram... Falar tudo na cara! Na hora! Pra nós, que estamos sendo totalmente sinceros, é ótimo. Para as pessoas à nossa volta, nem tanto.
- Senhor, há uma cadeira ali, gostaria de sentar-se?
- Não, obrigado, minhas hemorróidas estão atacadas...
Imagine a sensação deliciosa de estar sendo sincero e a sensação horrorosa do receptor da mensagem. Isso não é nada.
- Amor, como ficou meu cabelo?
- Uma merda, se me permite dizer...
Pronto! Um mês para o cabelo crescer e um mês de caras feias. Foi legal?
Não, não foi nada legal. Dói.
É possível ser sincero sem usar tais palavras. É. É possível.
- Senhor, há uma cadeira ali, gostaria de sentar-se?
- Não obrigado, estou bem assim, de pé...
- Mas senhor, o atendimento vai demorar ainda...
- Minha senhora, me desculpe, mas minhas porras de hemorróidas estão atacadas, obrigado.
(às vezes, para não ser mais perturbado, uma pequena dose de sinceridade é bem eficiente, mas com certeza, você será odiado em muitos lugares e por muitas pessoas).
Ser verdadeiro. Isso. Me orgulho hoje de ter evoluído de sincero para verdadeiro. Tenho um compromisso com a verdade, mesmo que não precise machucar os outros.
- Amor, como ficou meu cabelo?
- Ah, meu bem, você fica ótima de qualquer jeito, não é seu aspecto externo que me atraiu em você. Mas, se quer minha opinião, gosto mais do outro jeito. Se bem que se você está se sentindo legal assim, eu também fico!
(que lindo! Mas que trabalhoso! Mas é assim mesmo. Me dá um trabalho danado, mas muitas vezes, recebo de volta uma coisa preciosa: sorrisos).
- Senhor, há uma cadeira ali, gostaria de sentar-se?
- Não obrigado, estou bem assim, de pé...
- Mas senhor, o atendimento vai demorar ainda...
- Hum... Vou considerar isso e posso aceitar seu convite depois. Por enquanto, estou bem acomodado assim, mas, mais uma vez, obrigado.
(sorriso).
Ser sincero e ser verdadeiro. Pra mim, duas coisas diferentes. Não complementares, não antagônicas, mas diferentes. Um dia, ser verdadeiro assim, deverá me valer de algo.
Se a pessoa que me vendeu o meu cachorro, meu filhote, tivesse sido verdadeira, se o veterinário que cuidou dele nos primeiros dias de vida (curta vida), tivesse um compromisso com a verdade, talvez ele não tinha sofrido tanto, nem lutado tanto em vão pela vida.
Viveu somente três meses. Tenho orgulho da luta dele. Eu teria desistido muito antes. Mas ele não, ele era muito forte.Um dia, ser verdadeiro vai me valer de algo. Coisa que, para essas pessoas que não fizeram nada para garantir a vida do meu filhote, um dia, vai fazer falta.
Monday, July 23, 2007
Mariano e Camila
De Suzana Marion
Mariano encontrou um ombro que era mais um lugar onde encostar a cabeça e não pensar. Onde podia discutir também (por que não?) e ser criticado se fosse necessário. Ele encontrou muito sorriso e pouco abraço, porque no fundo isso era tudo o que ele próprio podia dar. Era romântico, dos bem piegas, e estava sempre a declarar o seu amor por uma menina dessas que todas querem ser. O que Mariano procurava não era cura, mas distração e atenção na medida certa, não pra esquecer, mas pra ficar mais forte.
Camila encontrou a companhia perfeita e chegou a desejar que ele fosse gay. Era alguém com quem se podia ir ao cinema e sair rindo da previsibilidade de uma comédia romântica no meio da sessão, conversar sobre todos os assuntos, se aventurar em novos sabores, andar de bicicleta na chuva e ficar em silêncio sob as estrelas ou sobre qualquer telhado. A relação era o contrário de ‘friends with benefects’, ele era o namorado perfeito sem a parte do namoro, se é que você me entende.
Os dois se viam todos os dias, almoçavam aos domingos numa cantina ali do bairro e um já fazia o pedido pelo outro, tal era a sintonia. Ela ouvia os seus temores, ele ouvia suas histórias e boa parte das vezes sequer davam sua opinião. O coração dele estava quebrado, ela era bem resolvida. Ambos acreditavam que poderiam ainda na vida viver um grande amor e embora parecessem perfeitos um para o outro, tinham certeza de que nada aconteceria, não podiam se ver como homem e mulher.
Num dia de maior correria no trabalho e que eles não pudessem se encontrar, Camila até sonhava que estava dormindo aninhada em seu ombro, contando como foi seu dia, como o Alberto da contabilidade tinha sido um canalha... então ela acordava rindo, com a certeza de que, por mais que todos os seus amigos os apontassem como casal potencial, não era pra ser.
Camila acorda numa manhã chuvosa de março e conferindo o talão de cheque se dá conta que naquele mês eles não almoçaram sequer uma vez na famosa cantina. Mariano já sumiu há 3 dias... nenhuma mensagem de texto, nenhum e-mail, nada. Na última vez em que se viram ele não disse muita coisa, só que não podia ficar. Camila já sabia que trataram de lhe convencer de que se ele quisesse reconquistar seu grande amor não poderia ter uma relação como aquela que tinha com ela. E não poderia mesmo... nesses dias como é que se prova a verdade? Então ela se resignou a sua saudade muda, apagou o número dele do celular, guardou numa caixa no fundo do armário todas as lembranças dele, mas continuou, todos os domingos, almoçando na mesma cantina, onde foi pedida em casamento pelo tal Alberto da contabilidade. Meses depois encontrou Mariano na rua, sozinho, sem aliança, passeando com o cachorro. Foi só um abraço, sem olhares, sem palavras, e cada um seguiu seu rumo, sua vida e continuou correndo atrás da sua própria felicidade.
Mariano encontrou um ombro que era mais um lugar onde encostar a cabeça e não pensar. Onde podia discutir também (por que não?) e ser criticado se fosse necessário. Ele encontrou muito sorriso e pouco abraço, porque no fundo isso era tudo o que ele próprio podia dar. Era romântico, dos bem piegas, e estava sempre a declarar o seu amor por uma menina dessas que todas querem ser. O que Mariano procurava não era cura, mas distração e atenção na medida certa, não pra esquecer, mas pra ficar mais forte.
Camila encontrou a companhia perfeita e chegou a desejar que ele fosse gay. Era alguém com quem se podia ir ao cinema e sair rindo da previsibilidade de uma comédia romântica no meio da sessão, conversar sobre todos os assuntos, se aventurar em novos sabores, andar de bicicleta na chuva e ficar em silêncio sob as estrelas ou sobre qualquer telhado. A relação era o contrário de ‘friends with benefects’, ele era o namorado perfeito sem a parte do namoro, se é que você me entende.
Os dois se viam todos os dias, almoçavam aos domingos numa cantina ali do bairro e um já fazia o pedido pelo outro, tal era a sintonia. Ela ouvia os seus temores, ele ouvia suas histórias e boa parte das vezes sequer davam sua opinião. O coração dele estava quebrado, ela era bem resolvida. Ambos acreditavam que poderiam ainda na vida viver um grande amor e embora parecessem perfeitos um para o outro, tinham certeza de que nada aconteceria, não podiam se ver como homem e mulher.
Num dia de maior correria no trabalho e que eles não pudessem se encontrar, Camila até sonhava que estava dormindo aninhada em seu ombro, contando como foi seu dia, como o Alberto da contabilidade tinha sido um canalha... então ela acordava rindo, com a certeza de que, por mais que todos os seus amigos os apontassem como casal potencial, não era pra ser.
Camila acorda numa manhã chuvosa de março e conferindo o talão de cheque se dá conta que naquele mês eles não almoçaram sequer uma vez na famosa cantina. Mariano já sumiu há 3 dias... nenhuma mensagem de texto, nenhum e-mail, nada. Na última vez em que se viram ele não disse muita coisa, só que não podia ficar. Camila já sabia que trataram de lhe convencer de que se ele quisesse reconquistar seu grande amor não poderia ter uma relação como aquela que tinha com ela. E não poderia mesmo... nesses dias como é que se prova a verdade? Então ela se resignou a sua saudade muda, apagou o número dele do celular, guardou numa caixa no fundo do armário todas as lembranças dele, mas continuou, todos os domingos, almoçando na mesma cantina, onde foi pedida em casamento pelo tal Alberto da contabilidade. Meses depois encontrou Mariano na rua, sozinho, sem aliança, passeando com o cachorro. Foi só um abraço, sem olhares, sem palavras, e cada um seguiu seu rumo, sua vida e continuou correndo atrás da sua própria felicidade.
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