Friday, July 20, 2007

O avião

De Leandro Molino

Todos nos solidarizamos, certamente, com os familiares e amigos das mais de 180 vítimas do maior acidente aéreo da história do País. Um acontecimento trágico, um tanto quanto estranho, mal-explicado, que vai render muita discussão, mas que está se tornando corriqueiro. Infelizmente, a queda de aviões comerciais, destinados ao transporte de passageiros, está se tornando comum no Brasil. Será que em algum outro país, em qualquer tempo, dois aviões repletos de passageiros foram objeto de tragédias em menos de 10 meses? Lembram-se do avião da Gol? Aquele que se chocou com o jato Legacy no espaço aéreo da floresta amazônica? Eu não esqueci. Assim como não esquecerei o acidente desta semana. Independentemente de falhas (sejam estas humanas, mecânicas ou de estrutura) que tenham influído para tais acontecimentos, estes dois eventos são bastante representantivos, pois evidenciam a incapacidade das autoridades brasileiras em gerir qualquer coisa, não apenas as questões atinentes à segurança aérea, aeronáutica ou de infra-estrutura aeroportuária. Vivemos um instante perigoso em nosso País. Como o mundo passa por uma era de certa prosperidade, tendemos a supor que a melhora dos índices econômicos que temos presenciado se dá em razão da mão de nossos administradores públicos. Mas não. Estes apenas seguem o vau da valsa. É uma omissão sem tamanho, jamais vista! E, nesse ínterim, morrem pessoas que não guardam qualquer relação com isso. Morrem pessoas que estão dentro dos aviões que caem; morrem pessoas que estavam abastecendo seus carros; morrem pessoas em razão da disputa por pontos de venda de drogas nas periferias das grandes cidades; morrem pessoas largadas pelos corredores dos abandonados hospitais públicos. Enfim, morrem. Assim como a nossa esperança, que apesar de ultimar, um dia, também, morrerá. Tomara que não seja em decorrência da queda de outro avião.

Wednesday, July 18, 2007

Lu em cartaz

De Lucimara Paiva

Com essa minha mania de escrever sem o mínimo de noção das conseqüências, comecei a ouvir que preciso parar de me expor. “Você está louca?! Pode ser usado contra você qualquer dia.”.
Dia desses a exposição foi tão intensa que fui obrigada a retirar um texto do ar para que minha integridade física fosse mantida. Moça, a minha intenção é ser sincera, não encha meu saco. Mas mesmo assim retirei o texto. Não quis pagar para ver.
E nessas de sinceridade e exposição, descobri que escrevo nesse site há meses, mas a maioria dos que lêem os textos, não sabe quem é a Lucimara. Por mais que eu escreva, faça a galera rir, receba xingamentos, manifestações diversas, por mais que as pessoas se identifiquem com a realidade descrita, cheguei invadindo. Nem ao menos falei “Oi”. Exposição assim não tem graça. Quem é a fulana? Fulana é sua mãe, ô filho-da-put****.
Será que alguém sabe que eu só consigo escrever sobre o que me deixa indignada? Será que alguém sabe que sou péssima para fazer contos? Limitada. Além disso, por mais indignada que eu seja, às vezes canso de me esforçar e volto com meus pensamentos fúteis para tomar um fôlego como, por exemplo, minha atual crise dos 25. Após meu aniversário, na semana passada, descobri que os 18 anos nunca foram tão distantes. Se estou sentindo o peso dos 25, imagino dos 40. Terei que fazer 20 anos de análise. Quanto mais o tempo passa, mais minha bunda cai. Nunca fico muito tempo de costas para o espelho. Prefiro evitar lágrimas logo pela manhã. Se os 10 tubos de protetor solar e as 44 horas semanais de ginástica facial não resolverem, não me responsabilizo. Estou com medo. Alguém me dá um abraço?
Ah, sou reclamona também. Quase uma chata. Teimosa, cabeça dura e mimada. Falam que eu tenho a personalidade de um demônio e que já tiveram vontade de me bater para que eu calasse a boca. Mas sou sincera. Minha cara de nojo quando algo me incomoda é incontrolável. Tenho ímpetos de prepotência, mas só porque, como diz meu irmão, adoro mandar algumas pessoas se foderem. Nada que não tenha sido merecido. De todas, uma: ou tentaram me converter ou gritaram comigo sem razão, com a possibilidade de tentativa de me fazer de idiota ou foram hipócritas. Viu? Merecido.
Posso ser um monstro egoísta, eu sei. Mas esse meu coração que ainda bate, é enorme, e se alguém quiser fazê-lo de idiota, vai conseguir, assumo. É fácil me dobrar, sou sensível. Fiquei encantada com a Nutella e com a sapatilha de zebra que ganhei de presente. Choro de repente. A pose de durona desencanada é só um esforço, muitas vezes inútil, de não sofrer tanto.
Gosto de pizza, de Rob Zombie e de andar descalça. Odeio livro de auto-ajuda e manicure. Gosto de estudar, sou nerd. Tenho aflição quando mexem no meu joelho. Esqueci qual é o gosto de picanha. Não sei cantar e não tenho tinta no cabelo. Não uso drogas. O entorpecente mais forte que “uso” de vez em quando é tequila. Detesto me vestir de atriz pornô, aquele famoso estilinho “perua-árvore-de-natal” que a mulherada por aí insiste em achar que é a melhor maneira de ter “cara de rica”.
Tempos atrás, num dia de chuva, vi um filhote tremendo de frio no ponto de ônibus. Quase que o enfiei na mochila, mas acho que ele não ia gostar muito do tour que teria que fazer até às 6 da tarde. Já joguei um tijolo num velho maldito que pensou em espancar uma cachorra que estava amarrada num carrinho de catador de papel. Já fiz o trânsito parar para salvar um outro cachorro de ser atropelado, só não me pergunte como consegui convencê-lo a voltar para casa. Acho que foi a coxa de frango que obriguei a tiazinha do boteco a me dar.
Fora os bichos que têm minha preferência, faço qualquer coisa pelos meus poucos e bons amigos. Fico feliz ao extremo quando estão todos perto de mim. Fico bem só quando eles estão bem. Quando eu falo poucos, são poucos mesmo. Cansei de pessoas ridículas que me julgam e fazem sacanagem. Não perco tempo, excluo. Ô gentinha escrota.
Gosto de coisas simples. Sou baladeira, mas não é por isso que sou uma vadia. Adoro ler e de acordar com alguém me fazendo rir. Não gosto de fazer pose, prefiro minha empolgação pura como é. Envolvo-me. Não tenho meio termo, o que sinto chega sempre nos extremos. Não consigo ser superficial. Sou simples assim, não tem mais o que mostrar. E depois de ter sido exposta e virada do avesso mais do que deveria, resta-me dizer: Oi, quer ser meu amigo?

Tuesday, July 17, 2007

O paciente inglês

De Antonio Zubieta

"Senhor,Que eu não fique nunca
Como esse velho inglês
Aí do lado
Que dorme numa cadeira à espera de visitas que não vêm "
(Oswald de Andrade)


Quem já sabe o que é ser velho sabe qual a expectativa que se tem da vida. Velho é quando ficamos à espera de visitas que não vem, de dias que não passam, de fim de semana que foi e que bom que foi.
Conheci Tartúlio ontem. Estava numa fila de banco (quem faz fila em banco hoje?). Pois é, estávamos lá. Tartúlio sempre faz fila de banco. Não gosta de internet, se recusa a aprender informática, odeia celular, mas adora fila de banco. Aliás, qualquer fila o leva para o passado. O glorioso passado de branco e preto, de quando as pessoas conversavam e não apenas escreviam. Toda essa tecnologia faz plugá-lo ao mundo, interagir com as pessoas, falar sobre coisas que poderiam ser maiores daquilo que ele já sabe. Isso ele detesta.
Por isso estava lá numa fila de banco, pagando uma conta de luz de oito reais, que poderia estar no débito automático. Contou-me de grandes passagens da sua vida. Viu todos os jogos da copa do mundo. Não perde nenhuma disputa de medalha do pan-garé . Tartúlio sabe todos os resultados dos torneios de tênis deste ano. E por sorte esqueceu os outros resultados do ano passado. Seria demais para seus 82 anos. Aliás, "me surpreende o Senhor ter TV a cabo!". "Não fui eu, foi minha filha que insistiu", resmungou.
Aí me lembrei de um texto do Oswald de Andrade. Falei para ele sobre o texto e que iria escrever nossa conversa.
Falei do filme "Efeito borboleta". " Se você pudesse mudar algo do passado, o que mudaria para fazer diferente do que hoje realmente o é? " Não tenho necessidade de outra mudança. O que já estamos vivendo é a mudança de algo que já é diferente do que deveria ser."
Ele pediu para imprimir em papel meu texto.Falamos sobre tudo isso em uma hora de fila. Tartúlio era paciente.

Monday, July 16, 2007

O toque da chuva

De Luciana Muniz

Sua cabeça latejava ferozmente, a impressão que tinha era a de que suas veias iam explodir! Tomou o remédio habitual e deitou-se no mais absoluto silêncio e na completa escuridão, sabia que por alguns instantes precisava se desligar do mundo e esquecer seus problemas ou a dor não lhe deixaria em paz.
De tão cansada que estava não demorou a cair em sono profundo, o remédio começava a fazer efeito e a relaxar os seus músculos, involuntariamente retesados durante o transcorrer do dia.
Em seus sonhos ela se viu em um lugar da cidade que nunca tinha visto antes, não sabia explicar como, mas sabia que aquele lugar pertencia a sua cidade. Estava escurecendo e logo a noite deixou transparecer a luz da lua, única fonte de luz do lugar. Mesmo assim não sentiu medo e deixou que o vento brincasse com os seus longos cabelos. Sentir o vento acariciar o seu rosto lhe dava a sensação de leveza que há muito não sentia. Começou a reparar mais no lugar e então se deu conta de que não estava sozinha... Outras pessoas, como ela, também desfrutavam da luz da lua sob seus corpos e também pareciam maravilhadas com o vento que soprava sobre elas, parecia um presente divino!
Começou a chover, porém a chuva não lhe molhava, apenas aos outros, ela olhou em volta e achou estranho, pois não estava em um lugar coberto, estava no campo tanto quanto as outras pessoas, então por que a chuva não lhe tocava? Parou por alguns instantes e ficou pensativa olhando para os seus pés descalços, quando percebeu uma mão estendida para si. Levantou o olhar e viu um homem moreno, não totalmente desconhecido, porém ela nunca havia lhe visto. Ele percebeu a sua hesitação e lhe falou calmamente:
“Venha, sei que você também gosta da chuva...”
Ela sorriu como uma criança e tocando as mãos do misterioso homem, se deixou conduzir por ele até que, como magia, sentiu a chuva molhar todo o seu corpo. Era como se não seu corpo, mas sua alma fosse tocada pela chuva. Ela não sentia frio, medo ou qualquer agonia, sentia apenas a crescente sensação de bem estar.
O homem moreno a olhava maravilhado, estava contente por poder proporcionar este momento mágico para a sua amada, ela que não sabia do seu amor e tampouco da sua existência até aquele instante. Ele sabia que ainda demoraria um pouco para que ela se desse conta de sua existência e de sua paixão, mas ela já dava os primeiros passos na longa estrada que a levaria até os seus braços.
O seu êxtase com a chuva que caía sobre si havia lhe provado isso. Ele olhou para o céu e viu os primeiros raios de sol a aparecer, tinha que ir... Deixou-a sentindo o brando calor do sol sob sua pele, a secar o seu corpo e aquecer sua alma. Talvez ela não se lembrasse do sonho que tivera, vida corrida, cheia de afazeres, mas quando se encontrasse novamente solitária e deprimida pensaria no destino e nos sinuosos caminhos da vida. E então saberia que no universo existia alguém que a amava e que torcia em silêncio para que ela jamais deixasse de acreditar... Ele existia e estava à sua espera!

Saturday, July 14, 2007

A CAMBALHOTA DO BUDA

De Marcelo Ferrari

Hoje é domingo. Meus amigos me convidaram pra jogarfutebol. Seria um enorme prazer ficar correndo feitobobo atrás de uma bola, mas hoje também é dia depraticar meditação no templo. Estou em dúvida. Será que caso ou compro uma bicicleta? Buda ou Pelé? Fazer 1000 gols efêmeros ou chegar a iluminação? Quanto sofrimento trás esta coisa de livre-arbítrio. Nem fiz nada ainda e já estou sofrendo como se estivesse numa cadeira de dentista escutando o barulho do motorzinho.Como será que Sidarta se livrou deste inferno? De qualquer maneira, acho melhor usar meu livre-arbítrio e escolher ir pro templo praticar Zazen. Quem sabe é hoje que chego a iluminação!

Pronto, aqui estou! Mas como cheguei aqui? Sim, usei meu livre-arbítrio. Decidi pegar o ônibus, decidi entrar no templo, decidi sentar nesta almofadinha preta e agora estou decidindo deixar os pensamentos passarem. Estou decidindo não acolhe-los nem rejeita-los. Este pensamento aqui, por exemplo, do mestre Zen dançando com uma fruteira na cabeça, feito Carmem Miranda, é bem engraçado. Será que posso dar uma risadinha? Melhor não! Vou usar meu livre-arbítrioe permitir que ele passe. Você não sou eu, vá com deus. Este outro aqui, sobre a violência urbana, também não sou eu. Não concordo com a violência, masf azer o que? Não posso acolher nem recusar nada, eis a prática do Zazen.

Já deve ter passado pelo menos uma meia hora. Se estou decidindo tudo certinho, como manda o figurino, porque não chego a iluminação? Tudo quanto é pensamento que aparece eu deixo passar, estou usando meu livre-arbítrio da melhor maneira possível, mas porque estas escolhas não me levam a iluminação?Chega! Vou me levantar. Foda-se o Buda! Fo-da-se! Além do mais, minha perna está doendo pra caralho! Pra ficar sofrendo aqui, muito melhor seria sofre lá no campo de futebol. E se Sidarta estiver errado? Ou então, se ninguém entendeu o que o cara falou? Vai ver a felicidade é realmente feita de momentos efêmeros,como marcar um gol e dar uma cambalhota. Vai ver ela dura apenas o momento da cambalhota. Um ciclo fechado que vai do momento em que o pé sai do chão até o momento em que volta.

Mas o que faço? Levanto ou não levanto desta merda de almofadinha. Mais uma vez é a porra do livre-arbítrio! Que inferno! E o filho da puta do Buda ali no altar, me olhando com aquele sorrisinho de canto de boca, feito a monalisa. O cara deve ter mesmo chegado ailuminação, por isto fica rindo da nossa cara. Afinal,se o budismo começou depois do Sidarta, nem budista ele era. Ele não era porra nenhuma. Era um mané que nem eu.

C-a-r-a-l-h-o! Não acaba nunca esta porra de prática! Mas que merda de livre-arbítrio é este que não me deixa levantar e ir embora. É muito simples, primeiro decido me levantar, então, movimento o corpo e vouembora. Porque não? O que me impede? Meulivre-arbítrio? Mas não é justamente pra isto que eleserve? Pra que eu possa me levantar e ir embora? Vaiver é assim que se chega a iluminação, usando estamerda de livre-arbítrio pra fazer o que realmentetemos vontade e não pra ficar sentado nestaalmofadinha esperando o Nirvana cair do céu.

É isto! Vou me levantar! Vou contar até três, melevanto e nunca mais volto a usar meu livre-arbítrio pra nada além do que buscar cambalhotas efêmeras. Um. Será que é isto mesmo? Só tem um jeito de saber. Dois. Vamos lá, você consegue! Livre-arbítrio e determinação! Você quer ou não quer ser feliz? Dois e meio. Rapaz, mas o prazer é efêmero. O Sidarta chegou a felicidade sentado debaixo da figueira. Este é o caminho do meio. Dois e quase três. Ah! Foda-se ocaminho do meio, do lado e da frente! Se o caminho émeu, deixa eu caminhar, deixa eu. Três.

Não acredito, me levantei! Estou de pé! O mestre estáme olhando! Será que eu atingi a iluminação? Será queele reconheceu isto? Ele não está me censurando. Ah! Só pode ser isto a iluminação! Os mestres nos deixam aqui, subjugados pelas regras da meditação, presos nestas almofadinhas de merda, até descobrimos que a felicidade está no livre-arbítrio de ir e vir. Vou embora e nunca mais volto aqui. Agora sou um homem livre, dono do meu livre-arbítrio. Ou será que não? Ou será que tudo que acreditei estar escolhendo até me levantar foi só uma seqüência de ilusões? Só cambalhotas efêmeras? Será que o livre-arbítrio é uma ilusão? Será que eu...???Ooooops! É gooooooool!

Thursday, July 12, 2007

40% do que compramos é lixo

De Tiago Abad

A internet também é cultura, e quanto mais nos informamos, mais nos deparamos com a própria ignorância. E nos sentimos pequenos. Normal, até agora não falei nenhuma novidade.
Nessas empreitadas via web, encontro a informação de que 40% do que compramos é lixo! Ou seja, em uma lata de leite condensado, 60% é produto e 40% é lata e rótulo; existem vários exemplos: uma garrafinha de iogurte, uma caixa de "Bis", uma caixinha de molho de tomate, etc. E sabe o que é o pior? Pessoas perguntam porque existe crise no país, porque existe fome, porque os produtos são um lixo...
Sobre os produtos serem um lixo, eu respondo de prontidão, se em tudo que compramos, 40% é lixo, podemos chegar à simples (ou ridícula) conclusão de que a ênfase é dada na embalagem, ou seja, o produto é algo sub-embalagem. Aliás, essa é uma cultura incorporada pela maioria da população, vemos várias pessoas bonitas (embalagem) mas o conteúdo interno (produto) é um lixo. Agora me questiono, será que somente o que compramos tem 40% de lixo? Ou será que aquilo que desejamos também não é repleto de lixos? O desejo nada mais é que, aquilo que é colocado na embalagem! Ou seja, lixo. Claro, não estou falando aqui de desejos de ser feliz, etc, mas daqueles desejos do prazer pelo prazer.
Confusão instalada, mas pelo jeito o desejo supera a razão. Desejar não é raciocinar... alguém, antes de comer alguma coisa, já parou pra pensar na origem ou mesmo no processo do que aquilo é feito? Molho de tomate, será realmente que o que vem na caixinha é somente tomate? Os pontinhos pretinhos são temperos? Imagino que os tomates são jogados em uma esteira e lavados em série, claro, devem ser milhões de tomates por mês, e como todos podemos raciocinar, de onde vem os tomates existem bichos, será que não escapa nenhum? Duvido! Mas não imaginem que eu fico pensando nisso antes de comer, claro que não e ninguém faz isso. E dentro destes 40% de lixo, podemos ter materiais como o plástico e o metal que demoram mais de 100 anos pra sumirem, é praticamente uma vida de tartaruga. Um carrinho de brinquedo quebrado que você jogou fora quando criança, leva mais tempo para se decompor do que a sua vida toda, ou seja, você morre e aquele carrinho fica aqui! Agora, o vidro, 1 milhão de anos... é ano pra dedéu! Se o corpo fosse feito de vidro, teríamos umas espécies bem estranhas pra ver até hoje, intactas, mas, não poderíamos nem pensar em tropeçar.

Wednesday, July 11, 2007

07/07/07, VOTAMOS EM CRISTO

De Li de Oliveira

"Moro num país tropical, abençoado por Deus...", assim diz Jorge Ben Jor. E ele estava certo. Brasil é um país abençoado por muito mais de sete maravilhas. No entanto, diante a votação mundial, me senti na seguinte situação: quando seu filho está na escola e vem com um rabisco que chama de desenho, contente e feliz para perguntar se não é o desenho mais bonito da classe. Quando você sabe que na classe do seu filho existe um desenhista nato com lindos trabalhos mesmo tendo ele pouca idade. O que você faz? Obviamente sorri largamente e diz: "Sim, meu filho não existe aqui desenho mais bonito que o seu!". Pergunta-se por quê? Por amor.
O Brasil (graças a Deus) é um país unido. E por amor ao solo verde e amarelo, acredito eu que abraçaram a campanha "Vote Cristo" e nos levaram a lista das "7 Novas Maravilhas do Mundo"*. Na maior eleição globalizada, computando um total de 100 milhões de votos.
Por este amor, me orgulho. Entretanto, não culpo o jornal espanhol "El Mundo" em chamar o evento de "farsa em escala global", vendo pelo prisma que a votação foi dada pela internet e telefones celulares. O Brasil, com seus 188 milhões de habitantes, com certeza de qualquer forma sairia na frente de países como Grécia ou, até mesmo, Espanha, com suas pequenas populações. A competição foi realmente desigual.
Ou melhor, dizendo, injusta. Desculpem-me aos patriotas de plantão. Mas considero, de verdade, injusta esta votação. Qual é a história do Cristo Redentor? Você que votou nele sabe? Monumento grandioso construído desde 1926 e inaugurado em 1931, com a intenção de ser marco comemorativo do centenário da independência. Sabia disto? Porque quem não sabe disto, ainda diminuí a importância do tal para apenas um ponto turístico. Uma estátua religiosa que nos traz dinheiro. Contraditório.
E o que é o Cristo diante ao mistério de Stonehenge (Reino Unido)? Diante a resistência de Acrópole de Atenas (Grécia)? O romantismo da Torre Eiffel (França)? Ou a suntuosidade do Kremlin e Praça Vermelha (Moscou)? O concurso foi promovido por uma fundação suíça, encabeçado pelo cineasta Bernard Weber. A iniciativa não teve apoio unânime e a Unesco, que se dedica ao patrimônio mundial, decidiu não participar do evento. O que nos faz acreditar que tudo não passou de uma grande estratégia de marketing dos suíços, que agora se deleitam com os resultados do "concurso de beleza".
Enfim, as sete novas maravilhas do mundo são realmente "maravilhosas", no entanto, lamento por tantas outras que ficaram de fora. Como sempre nos foi dito, não é possível nunca agradar gregos e troianos. Ou devia dizer americanos e espanhóis? Franceses e japoneses...
O que nos resta é rezar para este Cristo que Sergio Cabral, governador do Rio de Janeiro, tenha mesmo razão. Com esta vitória, 250 mil empregos serão criados devido ao aumento do turismo em terras brasileiras. Assim seja.





*7 Novas Maravilhas do Mundo: Cristo Redentor, Muralha da China e Petra (Jordânia), Machu Picchu (Peru), Chichen Itza (México), Coliseu (Roma) e Taj Mahal (Índia).

Tuesday, July 10, 2007

É HOJE MESMO!

De Thiago Fabrette

Por motivos pessoais, hoje quase que eu não escrevo, mas estou aqui, sentado em minha mesa de trabalho confabulando bastante sobre uma notícia:

Um tal de Jin Seng alguma-coisa-assim, político corrupto chinês, foi executado hoje por ter aceito suborno para liberar o uso de um antibiótico particularmente perigoso, causando a morte de pelo menos dez pessoas.

Muito bem. Hora de trazermos pra nossa realidade...

Notícias – dia 12/07 de 2007
Em uma guinada fantástica na história do Brasil, o congresso e o atual presidente, Luiz Inácio Lula da Silva, aprovam a pena de morte por fuzilamento para qualquer cidadão brasileiro que for pego em atos de corrupção que resultarem em prejuízo em saúde ou morte de brasileiros ou estrangeiros no território nacional.

Dia 27/10 de 2007
Em Rondônia, os vinte e três detidos na operação Dominó, acusados de desvio de recursos públicos, corrupção, prevaricação, concussão, peculato, extorsão, lavagem de dinheiro e venda de sentenças judiciais, entre eles, o presidente do Tribunal de Justiça de Rondônia, Sebastião Teixeira Chaves, foram os primeiros a serem indicados à pena de morte por fuzilamento por desviarem mais de R$ 15.000.000,00 dos cofres públicos dentro das acusações acima. Eles devem recorrer da sentença e nenhum centavo foi até o momento rastreado ou devolvido às respectivas origens.

Dia 28/10 de 2007
Em Pirapora do Bom Jesus, um trabalhador rural foi preso por tentar subornar um médico com uma mandioca e um cacho de bananas, para que o mesmo atendesse a sua filha, em grave estado de epilepsia, antes dos outros pacientes em espera. Sob risco de linchamento e gritos de “fuzila!”, o trabalhador foi levado ao distrito policial onde aguarda o seu julgamento. Um defensor público deverá ser indicado para defendê-lo.

(Desenrolar dos fatos... ano seguinte)

Dia 30/04 de 2007
Pirapora do Bom Jesus. O primeiro brasileiro julgado e condenado à morte por fuzilamento será executado hoje em praça pública por ter tentado subornar um médico com uma mandioca e um cacho de bananas. O horário da execução foi definido como cinco da tarde. O defensor público encarregado da defesa do condenado não quis comentar o caso.

(Desenrolar dos fatos... dez anos depois)

Dia 12/03 de 2017
Rondônia. Os vinte e três detidos na operação Dominó, do ano de 2006, indicados à pena de morte em 2007, foram julgados e considerados inocentes no processo que avaliava desvio de recursos públicos, corrupção, prevaricação, concussão, peculato, extorsão, lavagem de dinheiro e venda de sentenças judiciais. Os dezoito defensores fizeram um comunicado à imprensa que a justiça foi feita, alcançada com muito esforço e dedicação por eles. Eles também já obtiveram o mesmo sucesso em casos como dos “dólares na cueca” e no escândalo da compra de ambulâncias, onde dos 72 (veja bem, setenta e dois) acusados, nenhum cumpriu um só dia de prisão ou devolveu um só centavo. Até agora, o único caso com pena de morte que foi realmente executado é o do trabalhador rural, Josiney da Costa, fuzilado em 2007 por tentar subornar um médico com um cacho de bananas e uma mandioca.
bananas e uma mandioca.

Monday, July 09, 2007

O deserto de nós mesmo

De Suzana Marion

Todo mundo trancado em seus próprios pensamentos, o cérebro vedado pelos fones brancos. Já não são as baias de 1x1m, já não é a caixa mágica a culpada, somos nós que aprendemos a viver sozinhos. Eu prefiro jogar sudoku na fila do banco do que falar com o camarada na minha frente sobre o tempo, sobre o governo. E todo mundo prefere ficar imerso em seus próprios pensamentos do que desejar “bom dia”! Pra ninguém se meter na nossa vida, a gente costuma não se envolver com a do outro, assim não dá legalidade pra meterem o bedelho no nosso namoro, nas nossas decisões...
O problema é que depois de passar muito tempo no deserto, duas coisas costumam acontecer: primeiro a gente começa a ver miragens, a pensar que existem oásis de refrigério no meio da areia quente... daí acaba se ralando nessa areia, se queimando e sofrendo mais ainda quando descobre que imaginou demais, que se iludiu.
Depois, é muito comum que o delírio e a decepção nos levem a esquecer que a água existe, a não acreditar mais em saída, em solução, em salvação. E é aí que a gente se entrega, deixa a pele queimar no calor do dia, deixa a boca rachar no frio a noite. Chora sozinho e desidrata mais ainda, teme os animais velozes e peçonhentos mais que tudo nessa vida, mas é capaz de se entregar a eles na esperança de que dêem fim em sua agonia.
E é preciso ter fé, esperança, coragem! É preciso manter viva a lembrança da água que nos envolveu, nos matou a sede e nos limpou... é preciso não deixar a memória derreter nem o coração endurecer. O socorro no deserto vem do alto! Mesmo que você sofra muito, não há o que temer, enquanto você está sedento e perdido, Deus está procurando por você.

Monday, July 02, 2007

Os deuses são escritores

De Luciana Muniz

Pode parecer uma afronta aos Deuses ou um elogio exagerado aos escritores, mas sinto as emanações divinas desta maneira. Para os Deuses somos como personagens de romances e contos paralelos e que em alguns momentos se interligam de alguma maneira.
Ele nos cria ao seu bel prazer, somos mocinhos, bandidos e coadjuvantes de sua obra, cada qual ao seu tempo. Encenamos um papel hoje e amanhã podemos encenar um novo personagem.
Um escritor sabe o conjunto de sua obra, sabe que necessita de heroínas sofredoras e vilãs para que a sua história aconteça e tenha um sentido. Os personagens não têm noção do desfecho de sua trajetória, são bons ou ruins por determinação de seu criador. Alguns são esféricos e mudam ao longo da trama, outros são inflexíveis ao extremo e invariavelmente sofrem muito mais...
Imagino que com os Deuses não deva ser muito diferente, fomos criados cada qual a sua maneira, com variações de personalidade. Há pessoas egoístas, descrentes, alegres, melancólicas, cada qual com o seu traço característico.
Às vezes sabemos que um caminho é suave e seguro e o outro árduo e cheio de sofrimentos. Pela lógica preferiríamos ir pelo melhor e, no entanto, algo nos impulsiona para a outra direção sem que possamos entender... Manipulações de nossos criadores? Qual é a trama da qual participamos? Uma cena de amor, de amizade sincera, de ira! A resposta mais provável é a de que todas elas ao mesmo tempo fazem parte do espetáculo do qual participamos. Como os personagens das histórias, também não sabemos qual será nosso destino, nos prestamos a vários papéis, um dia somos heróis ao ajudar um cego a atravessar a rua, no outro somos vilões maldizendo uma pessoa ou um ato que não nos agradou.Os Deuses certamente também são escritores e eu como uma mera atriz, aguardo ansiosamente meus próximos papéis para mostrar aos meus criadores que posso ser multifacetada, quero ser útil e tornar o espetáculo da vida cada vez mais belo!

Friday, June 29, 2007

Deus e os Caras

De Marcelo Ferrari

E o cara descarado argumentou: "Deus não existe porque nunca o viu andando pela rua". Ora, se for assim – ver pra crer – precisamos rever também outros ilustres desconhecidos. Os Caras, por exemplo, será que existem mesmo? Tal como Deus, dizem que os Caras estão em todas: na política, na religião, na cultura, no engarrafamento, na internet, na pequena e na grande área. Contudo, todavia, entretanto, eu pessoalmente na pessoa de mim mesmo, nunca vi os Caras andando pela rua. Sei que os Caras são um filhos da puta. Sei que os Caras são foda. Sei que os Caras não entendem porra nenhuma. E sei também que a culpa é dos Caras. Mas, cadê os Caras? Talvez o Povo conheça os caras. Será?Também nunca vi o Povo cara a cara. Sei que o Povo é burro. Sei que o Povo não sabe votar. Sei que o Povo tem o governo que merece. Mas, meu Deus, cadê o Povo que não dá as caras? Se o Povo passasse por mim agora, juro por tudo que é mais sagrado que o convidaria pra tomar um copo. Talvez o povo tenha algo a me dizer sobre os Caras. Afinal, a voz do povo é a voz de Deus, não é mesmo?

Thursday, June 28, 2007

Chamar de loucura é dar espaço pra chamar alguém de normal

De Tiago Abad

Chamamos alguém de louco pra mostrar que existem pessoas normais. Agora, dizemos hoje em dia: "O mundo está louco!", e a quem chamaremos normais? Lua? Marte? Plutão? Talvez sim. Temos liberdade em chamar o mundo de louco pois é o único mundo que acreditamos ser habitado... através da dialética, podemos chegar à brilhante conclusão de que o mundo está louco porque as pessoas estão loucas.
A depressão é a doença do momento, e a tristeza provavelmente tomará conta dos sentimentos futuros da sociedade. Mas também estamos vivendo os frutos de uma sociedade cada vez mais vazia. A sociedade do entretenimento traz um vácuo na cabeça das pessoas como pacote de entrada. Tudo "mastigado". Pra que ler um livro, se os filmes e as novelas nos jogam as informações dentro da mente? Você não tem nem tempo de pensar ou refletir sobre o que quer aprender. O livro te coloca essa possibilidade, e dentro de um livro, quem faz o tempo da propaganda e "assiste ao próximo capítulo" é você, a imaginação dita o que será digerido. O mundo da imaginação é muito mais criativo que um filme, e está sendo jogado às traças pela mídia.
Tudo bem, se os governantes são a solução, acabo de comunicar-lhes que estamos perdidos! É como esperar uma luz de quem não paga a conta? A solução pra acabar com a burrice foi fazer um plano de governo onde as pessoas não mais repetem de ano. Política excelente se fosse baseada em "vamos fazer o cara estudar pra que ele passe de ano". Mas o único objetivo solicitado é que o cara tenha presença em sala de aula... Uau! Agora sim, deixaremos a ignorância satisfazer o governo, ou ao menos, teremos dados maquiados em índices de analfabetismo.
Estudar é conhecer coisas. Não precisamos ler Física Quântica pra sermos inteligentes; não precisamos ler Fernando Pessoa, Fernando Sabino, Mário de Andrade... leiamos gibi da Turma da Mônica, Almanaque, Palavra Cruzada, o diabo que seja, mas manter a mente cheia de letras é o princípio do fim da burrice.
Preocupados com o futuro da nação, vamos iniciar uma campanha “Leia desde matérias que te interessam em jornal de esportes à poesias perdidas em livros esquisitos”.
"A mente parada é a casa do diabo" já diria Edir Macedo.

Wednesday, June 27, 2007

SABEDORIA DE BOTEQUIM

De Li de Oliveira

João Renato estava lá, sentado, preguiçosamente, na cadeira, daquele jeito: um pé lá e outro cá, com sua filosofia de rótulo de garrafa, comentava empolgado: - "Sumemo" , não existe amizade sincera entre homem e mulher!
- Ah vá, Renato, você tá falando isso porque tá com dor de cotovelo. Ele levou um perdido da Claudia Ana, meu! – Sergio Augusto não deixou barato.
- Mentira, cara, que tu tentou comer a Claudia Ana!? Pára, cara, Claudião é brother pra gente. Quase um homem. Por que vamos combinar, ela tem até bigode! Hahahahahha – Rodrigo Lucio se acabou em risada acompanhado por Sergio Augusto.
- Se liga, presta atenção. É disso aqui que eu to falando. – João Renato levantou o copo como um objeto sagrado e contemplou o líquido amarelo. – Vocês acham que quem bebe isso, e bebe bem, vai se lembrar que fulana é amiga na hora que bate o tesão alcoólico?
- Tesão alcoólico? Hahahaha. É aquele tesão que precede a "brochada homérica"? Renatinho, deixa de ser bobo, amigo que é amigo, é amigo até bêbado. – Keli Cristina amenizou.
- Crisca, fala sério, não tem tesão por nenhum de nós? Seja sincera!
- Aonde?????? Não to a perigo não!!!
- Pô Crisca, magoou agora, heim? – Rodrigo Lucio perdeu o seu sorriso.
- Mas, em compensação, aposto que vocês todos adorariam uma noite comigo.
- Ahhh mas vá, ta se tendo certeza, né não? – Sergio comentou
- Fala pra mim Sesé, você não gostaria de me comer?
- Sinceramente? Posso falar? Não. Você é irmã pra mim.
- Ah irmã? Sei. Mas, assim, você não me acha desejável?
- Nunca nem reparei por este lado, Crisca.
- Como assim Sergio Augusto? Ta querendo dizer que eu não tenho nenhum atrativo??!!
- Afe mulher, to querendo dizer que te considero tanto, que nem vejo você pelo prisma sexual! Você também ta com o Renatinho, que não acredita em amizade verdadeira entre sexos diferentes?
- Não! Quer dizer, acredito, mas não to entendendo porque você não me acha gostosa.
João Renato só olhava a discussão, divertindo-se com a semente que plantou.
- To achando que a Crisca quer dar pro Sesé. – foi ele querendo dar mais pimenta à história.
- Quero porra nenhuma! Nunca que eu ia dar pro Sesé. É irmão. Não ouviu o que ele disse? Irmão!! Ora essa.
- A Crisca quer dar pro Sesé! A Crisca quer dar pro Sesé! Ninguém pode negar... – Rodrigo Lucio cantava na melodia "Fulano é bom companheiro".
- Calaboca, Ro! Eu não quero dar pra ninguém. E quer saber? Vou embora, antes que eu não seja nem mais amiga de vocês.
- Veja pelo lado bom cara, se você não for mais amiga, aí pode ser que o Sesé queira te comer...
Keli Cristina levantou da mesa bufando, pegou na carteira a quantia que supôs ser sua parte na conta e jogou para eles. Saiu sem falar tchau. Rodrigo Lucio baixou a cabeça e se pôs a comer amendoim sem parar. Sergio Augusto ficou com a cara de: "mas o que foi que eu falei?" enquanto João Renato se deliciava com um longo gole de cerveja...

- Quer saber? Eu comeria a Crisca! Ô, capitão, traz mais uma aqui pra nós?

Tuesday, June 26, 2007

Mais do mesmo

De Thiago Fabrette

Vou repetir. Pareço repetitivo? MUDE!
Não é nada demais. Não precisa de muito.
Precisa sim, se desprender de muita coisa. Por exemplo, se você quiser mudar de profissão, terá que abrir mão, muitas vezes, de uma condição financeira confortável para, em um esforço hercúleo, desenvolver novas atividades, habilidades, tirar da gaveta velhos conhecidos, novos contatos, estudar muita coisa, esquecer quem você era.
Ah, e muito importante, não dar ouvidos aos vizinhos. Ao irmão. Aos parentes. Aos amigos.
Muito tentarão dissuadi-lo da tarefa. Mas quem você deve ouvir? Você mesmo. Mas quem sou eu então para lhe dizer o que você deve ou não fazer? Não estou falando para você, leitor, na verdade. Estou mesmo é falando para mim.
E se você quer mudar de cidade? Melhorar a sua qualidade de vida, melhorar seus hábitos, mudar de ares ou tentar uma vida nova com alguém. Muito bem. Mais uma vez, vão tentar que você desista. Mas aí, é o seu coração e, meu amigo, esse é o mais forte paredão que encontrará. Mudar de cidade, de estado ou qualquer coisa do tipo requer muita conversa com você mesmo. Como deixar para trás a sua família e amigos? Não se iluda, muitos amigos se tornarão meros colegas, amizades sinceras, sim, mas distantes. Nos envolvemos com o lugar onde vivemos, assumimos compromissos, academia, caminhadas, eventos sociais e a nossa antiga vida, vai ficando pra depois.
E tentar mudar o seu modo de ver as coisas? Tentar mudar de opinião. Tudo bem. Mudar de opinião é fácil, quando não estamos totalmente convictos. Mas tal convicção, quando se aproxima da fé, é realmente difícil. Mas o ponto de vista alheio é um país a ser desvendado. Aprenda com a fé do outro, absorva a convicção alheia e tente respeitá-la.
Faz bem mudar de opinião, de hábitos.
Faz bem mudar de cidade, talvez faça bem mudar a fé.
Só não faz bem mudar o que você é ou o que você deveria ser.
Quando estamos convictos do que somos, devemos perseguir isso até o fim, sob todos os riscos.
Quer um exemplo prático?
Não segui aquilo que eu deveria ser, um biólogo. E hoje, quero mudar. A todo o momento.
No fim, mudar faz bem à alma, ao Homem. Só mantenha aquilo que você tem de maior. A sua liberdade de ser e fazer o que quer. Por que no final, você vai se sentir orgulhoso de ter feito o que seu coração lhe disse.

Monday, June 25, 2007

Verdades e Mentiras

De Suzana Marion

Todos os dias eu lido com gente enrolada que dá desculpas esfarrapadas quando não pode ir a um compromisso. Sabe aquele tipo “MEU CACHORRO COMEU MINHA LIÇÃO”? Então, quando eles crescem matam a mãe morta todo dia pra escapar das suas responsabilidades, te ligam 12:30 pra dizer que não podem comparecer a reunião das 13:00, porque se esqueceram que a placa do carro é final 1; dizem no dia 30 que os clientes ainda não pagaram os títulos do dia 5, pra você segurar o cheque por mais uns dias; inventam que os filhos estão doentes, mas na semana seguinte não se lembram da mentira e acabam se entregando; batem no peito dizendo eu odeio mentira, mas quando o telefone toca gritam “fala que eu não estou se for a Marília”.
Sabe aquele tipo “TIA, FOI O JOÃO QUE GRUDOU A MASSINHA NO CABELO DA ANINHA”? Então, quando eles crescem viram a prima recalcada que diz “você sabe que eu sou sua amiga, mas o seu namorado me deu a maior secada quando eu cheguei”, ou o marido que diz que você ficou muito estranha com essa franja quando você chega do cabeleireiro, o tio que diz que você está muito peituda no meio do almoço de família, o colega que puxa o seu tapete contando pro chefe que você saiu mais cedo na quinta e pediu pra sua amiga bater seu cartão, o cliente inconveniente que pergunta se você está grávida naquele dia de calor em que você decidiu vestir uma bata, o pretê que diz que o filme que você escolheu é muito ruim, o avô que diz que não gostou do presente, a faxineira que diz que você cozinha mal... tem de tudo nessa vida em nome da sinceridade e contra a cordialidade!
Você certamente já mentiu para se proteger e já disse a verdade para ferir. E certamente já conheceu mentirosos compulsivos, que mentem até mesmo quando a verdade é mais fácil e melhor. Provavelmente você conhece alguém que cospe a verdade na cara de todo mundo a pretexto de ser uma pessoa sincera, acreditando que quem diz a verdade é o dono dela. Não estou aqui fazendo acusações, nem tentando eu mesma ser a dona da verdade, um baluarte de justiça. Eu admito que minto (bem as vezes porque eu me esqueço logo e acabo me traindo) e que sou capaz de ser bem arrogante dizendo a verdade como se fosse a revelação final da série, com direito a plano americano, close no olho tremendo e até flashback! Mas o que eu quero discutir (então fiquem a vontade para deixar comentários sobre o assunto no link ali embaixo) é o comportamento descontrolado de tanta gente, que às vezes parece doença, mas na verdade é falta de vergonha na cara, de confiança em si mesmo e de respeito com o meu ouvido.(Agora me ocorreu que a vida dessa gente enrolada em “verdades” e mentiras deve ser bem emocionante...hehe)

Friday, June 22, 2007

A aptidão

De Leandro Molino

Um dos maiores problemas do nosso tempo é a questão da educação. Desde sempre, a (boa) educação é considerada a base para o desenvolvimento humano. Com o advento de inovações tecnológicas a cada minuto, os especialistas no assunto questionam-se como proceder no sentido de proporcionar-se uma educação realmente capacitante. Hoje em dia, não basta mais ensinar Matemática, Geografia ou História: é necessário produzir metodologias que propiciem aos jovens tornarem-se realmente capazes de lidar com as novas situações de nosso tempo. Ou capacitados para desenvolverem as soluções para estas situações. Tal questão é tão relevante que foi, ou é, capa das mais renomadas revistas e semanários do planeta. Portanto, cuida-se de uma preocupação globalizada, que não se restringe aos países em desenvolvimento, como o Brasil. Os parâmetros educacionais alteraram-se na mesma velocidade das inovações propiciadas pela tecnologia. Todavia, não podemos ainda determinar se essas alterações se deram, e se dão, para melhor ou para pior. Muitos já questionaram, e outros ainda questionam, quais as benesses que essa quantidade brutal de informações proporcionaria à humanidade. Muitos dos críticos da “era da informação” sustentam que o ser humano ainda não se encontra inteiramente preparado para lidar adequadamente com esse amontoado de novidades, que necessariamente precisam ser “processadas” por nossos cérebros. Particularmente, entendo que essa discussão não tem razão de existir, pois o ser humano é apto naturalmente às transformações. O ser humano preponderou no Planeta em razão da sua inequívoca capacidade de adaptação. Adaptar-se significa, em muitos casos da História Humana, transformar-se. Mas para ser capaz de transformar é preciso, preliminarmente, informar-se. Sem dispor de informações adequadas, o ser humano até pode ser capaz de realizar. Contudo, através de um processo lento, espinhoso e desgastante. Informar-se significa crescer, superar barreiras, sejam estas reais ou psicológicas. Quanto mais informado é o ser humano, mais preparado às transformações e adaptações ele é. E bem informado, munido de uma teia de dados relevantes e precisos, o ser humano é preparado para superar quase tudo. Nesse caso, estará o Homem especialmente preparado para discernir sobre o que deseja ou não, sobre aquilo que lhe é bom ou não é, enfim, sobre aquilo que lhe serve ou não serve. Esse é o ponto nodal do poder da informação: somente a informação é capaz de preparar o ser humano, conferido-lhe aptidão. Mas a quem interessaria tal quadro? A quem interessaria um planeta habitado por pessoas bem informadas, aptas a decidirem sobre quais caminhos seguir? A cada dia, a possibilidade de nos informarmos é majorada. Mas não nos possibilitam o alcance às informações relevantes, sobre aquilo que realmente importaria em nossas vidas! Não desejam tal fato, pois passaríamos a compor uma sociedade crítica, com aptidão para questionar as mais variadas situações. Vivemos, assim, um momento de crise na humanidade, onde a informação é farta em razão das inovações tecnológicas, mas tal fartura não é disseminada. Assim sendo, nos deparamos com uma imensa maioria de pessoas incapacitada para o nosso tempo e, mais grave, para o futuro. Desse modo, o atual desafio no campo da educação não é somente atingir novos conceitos, mas distribuí-los mundo afora, como uma verdadeira praga! Precisamos educar, informar o maior número de seres humanos possível. Somente assim atingiremos um real estágio de aptidão que nos permitirá sermos críticos de verdade. Aptos, capacitados e informados, escolheremos de forma mais adequada nossos políticos, nossas profissões, nossos parceiros e parceiras de vida, de trabalho, de lazer. Poderemos escolher, aliás, se desejamos sermos aptos ou não. E discerniremos, assim, se desejamos um futuro melhor ou não.

Thursday, June 21, 2007

Erotismo e Pornografia – “Publicidade da Prostituição”

De Léo Lousada

A idade moderna e principalmente o século XX ficarão marcados pela destruição do sujeito e a individualização do ser humano.

No século XX, com a revolução industrial consolidada e o maquinicismo tomando contas das indústrias, o ser humano tem suas funções substituídas por máquinas que tem capacidade produtiva muito maior. Maior produtividade corresponde a maior necessidade de geração de consumo e escoamento dos produtos para o público consumidor. Daí tem-se a origem da mídia em massa e da publicidade moderna.

Desde cedo, a publicidade procura despertar os desejos do inconsciente do ser humano em busca de gerar expectativa e ansiedade. Desperta o desejo sem atendê-lo, apenas dando o que seria a possível solução para a angústia gerada. Levando em conta as teorias de Freud sobre ID e pulsões de vida, há um despertar destas vontades inconscientes e da libido sexual.

Ao mesmo tempo, a sociedade fica cada vez mais deficiente de modelos identificatórios, pois as figuras paternas e maternas encontram-se ausentes devido à necessidade de trabalhar. A mídia passa a criar novos modelos identificatórios para suprir essa carência e através deles vender seus produtos.

Um dos aspectos utilizados pela mídia moderna é a erotização da figura feminina e a pornografia como forma de despertar a libido humana e gerar expectativa de consumo. O Fetichismo e o culto à imagem da mulher perfeita são dois dos mais importantes arquétipos modernos de consumo.

Dúvidas quanto a isso? Assista aos programas de domingo, às publicidades de cerveja, de roupas, de iogurtes e etc. Ou melhor, quem você acha que ganha mais: uma cantora que rebola no palco ou uma professora com mestrado? Infelizmente o puro fetichismo usado na propaganda pode causar um desgaste excessivo dos símbolos sexuais que despertam o desejo no ser humano. Lembro quando tinha 13 anos e dificilmente conseguia ver uma revista masculina. Hoje eu apenas preciso ligar a TV para ver a mesma coisa.

Mas vejam bem, não estou dando uma de santo e falso pregador. O que não concordo é com o fato destas coisas tornarem-se banalizadas a ponto de virarem ferramentas para te convencer de comprar algo.

Wednesday, June 20, 2007

Incurável

De Lucimara Paiva

Tenho resumido meus dias, minhas noites e o que resta desses dois, em trabalho estressante e mal remunerado e festas desgastantes. Por mais que eu não veja razão em nenhum deles, optei por não parar.
Ignoro a audição prejudicada, o cérebro preguiçoso, os “blackouts” mentais. Ignoro também quando a cabeça manda, o corpo não responde e o coração se mantém vazio.
Escondo a ausência em pessoas superficialmente perfeitas, trabalho “fashion”, entorpecentes ilícitos, tequila e festas de álbum de orkut, para poder brincar de felicidade instantânea que funciona na hora em que aperto o botão do “quero me iludir agora” e desligo nas poucas vezes em que dá para dormir, pois só fecho os olhos quando não consigo mais me mexer.
Quanto mais alto o volume, menos raciocínio. A partir disso fica fácil enlouquecer, subir no balcão, pirar o cabeção como dizem, afinal o mundo é perfeito e um eterno comercial de celular moderno desde que eu acredite nisso.
Quanto mais clientes esgotando minha paciência por causa de um pedaço de papel, mais fácil fica entrar no piloto automático e impedir qualquer possibilidade de sentar, chorar e pedir socorro. Entre baladas e trabalho aproveito para camuflar as “brechas-realidade” com necessidades fúteis e esqueço meu cansaço enquanto procuro minha cura, se é que alguém tem cura*.
Aí chega a hora em que as luzes se apagam, a festa acaba, o expediente termina e todo mundo volta para casa. É o momento em que eu me sento num canto, tiro o scarpin e dou risada de mim mesma. Menina boba, acorde, é tudo mentirinha. Nada disso existe, nenhuma dessas ilusões vai amenizar qualquer falta. É o momento em que peço a última dose de sensatez para tentar responder a constatação mais cruel que surge: “O que eu estou fazendo?Mundo, páraaaa que eu quero descer!”. Porque nada disso tem graça se não tenho com quem dividir cada momento de loucura, medo ou cara de “pidoncha” no final do dia.

*Zeca Baleiro

Monday, June 18, 2007

O Tempo não é o que espera*

De Luciana Muniz

Quando se têm vinte e quatro horas para cuidar da própria vida e uma imensa necessidade de fazer hora extra na vida dos outros se faz presente, há algo errado...
O tempo, grande filósofo do universo, é curto demais se formos pensar em uma vida de sessenta, setenta anos em média. O que dá para ser feito neste período? Quantas transformações e descobertas o ser humano consegue em sessenta e cinco anos?
Alguns conseguem entender os sinais divinos e valorizam aquilo que realmente interessa: A simplicidade de compreender que algumas coisas não têm explicação. Os sentimentos não têm explicação, as aptidões naturais também não e aquela minha amiga insistentemente curiosa também não!
Me desespero para completar meus projetos, às vezes amaldiçoou o tempo que ora passa depressa demais, ora lento demais para as minhas necessidades, e no entanto minha querida amiga nada faz além de criticar as minhas atividades!
“ – Você está magra demais!”.
Ela sabe o quanto eu odeio ser “magrinha”...
“ – Nem parece que estuda Sistemas de Informação...”.
Sou analista de sistemas e não PHD em pau de computador!
E por aí vai...
Às vezes tenho um ataque de raiva e sumo da convivência desta minha amiga, meses se passam até que ela me liga super deprimida porque não consegue arranjar um namorado. Como tenho um coração de manteiga derretida esqueço tudo e acabo exaltando todas as suas qualidades, pois sei o quanto ela é carente...
Dias depois, ela já recuperada da carência emocional, me convida para uma baladinha básica, afinal não há momento mais sublime da solteirice do que duas amigas saírem juntas para dançar. Coloco a calça jeans, o corselete preto, o salto alto e vamos em frente!
Mas quando os caras se aproximam de mim... Lá vem a minha “amiga” fazendo questão de relembrar as minhas bebedeiras, as festas em locais mal escolhidos e outras cenas que eu gostaria de esquecer. Não que os gatinhos dêem ouvidos a ela, porque logo percebem a tática desesperada de denegrir a imagem do “inimigo” para ficar por cima da carne seca, e naturalmente começam a evitá-la.
Juro que eu não tenho ódio da minha amiga. Sim... Eu ainda a considero minha amiga... Meus momentos de solidão me mostraram as coisas que são realmente importantes nesta vida e isso não inclui dietas absurdas, necessidade de ser a mais bonita ou a mais popular ou impor minha presença aos meus amigos.
Muitas vezes paro para pensar e invariavelmente fico com pena dela, pois sinto que ela ainda está muito preocupada com coisas menores, talvez demore muito para compreender que pode ser feliz mesmo sendo gordinha, carente e curiosa. Basta que se dê conta disso... E que faça isso logo, pois o tempo não é o que espera!


* Desconheço o autor da frase, quem souber avise-me please! ;)

Friday, June 15, 2007

ABSURDO COM LARGURA, ALTURA E PROFUNDIDADE

De Marcelo Ferrari

Infelizmente a cidade não tem mais noite. Sóis eletrônicos se acendem por todos os lados como num estádio de futebol e o espetáculo da escuridão, mesmo estando ali, fica invisível. Já morei na cidade. Bastante tempo. Suficiente para minhas retinas se esquecerem que são duas luas. Atualmente moro em um sítio. Aqui, quando fica de noite, fica de noite. E tanto, que no quarto em que durmo não faz diferença se estou de olhos abertos ou fechados. Assim, muitas vezes acordo antes do sol, da memória e de mim mesmo, só pra ficar de olhos abertos no breu. Sei que acordei. Não sei como sei, pois ainda não existo para estar acordado e contido dentro de um quarto. O que existe antes do sol nascer é nada, um breu profundo e absoluto. Só com os primeiros raios o quarto vai encarnando no espaço. Surge a porta cor de burro quando foge, a janela de ferro e o armário Marabras. E, quanto maior a intensidade de luz, maior é meu estado catatônico na cama. L.a.r.g.u.r.a! A.l.t.u.r.a! P.r.o.f.u.n.d.i.d.a.d.e ! De onde veio isto? Como pode um absurdo destes?! Tenho certeza, não estavam aqui antes. Será que foi o sol que trouxe?L.a.r.g.u.r.a ! A.l.t.u.r.a ! P.r.o.f.u.n.d.i.d.a.d.e! Então, ouço a galo cantando sem parar. E já não sou o único que deseja acordar todos para o absurdo que acaba de acontecer.