De Leandro Molino
Um dos maiores problemas do nosso tempo é a questão da educação. Desde sempre, a (boa) educação é considerada a base para o desenvolvimento humano. Com o advento de inovações tecnológicas a cada minuto, os especialistas no assunto questionam-se como proceder no sentido de proporcionar-se uma educação realmente capacitante. Hoje em dia, não basta mais ensinar Matemática, Geografia ou História: é necessário produzir metodologias que propiciem aos jovens tornarem-se realmente capazes de lidar com as novas situações de nosso tempo. Ou capacitados para desenvolverem as soluções para estas situações. Tal questão é tão relevante que foi, ou é, capa das mais renomadas revistas e semanários do planeta. Portanto, cuida-se de uma preocupação globalizada, que não se restringe aos países em desenvolvimento, como o Brasil. Os parâmetros educacionais alteraram-se na mesma velocidade das inovações propiciadas pela tecnologia. Todavia, não podemos ainda determinar se essas alterações se deram, e se dão, para melhor ou para pior. Muitos já questionaram, e outros ainda questionam, quais as benesses que essa quantidade brutal de informações proporcionaria à humanidade. Muitos dos críticos da “era da informação” sustentam que o ser humano ainda não se encontra inteiramente preparado para lidar adequadamente com esse amontoado de novidades, que necessariamente precisam ser “processadas” por nossos cérebros. Particularmente, entendo que essa discussão não tem razão de existir, pois o ser humano é apto naturalmente às transformações. O ser humano preponderou no Planeta em razão da sua inequívoca capacidade de adaptação. Adaptar-se significa, em muitos casos da História Humana, transformar-se. Mas para ser capaz de transformar é preciso, preliminarmente, informar-se. Sem dispor de informações adequadas, o ser humano até pode ser capaz de realizar. Contudo, através de um processo lento, espinhoso e desgastante. Informar-se significa crescer, superar barreiras, sejam estas reais ou psicológicas. Quanto mais informado é o ser humano, mais preparado às transformações e adaptações ele é. E bem informado, munido de uma teia de dados relevantes e precisos, o ser humano é preparado para superar quase tudo. Nesse caso, estará o Homem especialmente preparado para discernir sobre o que deseja ou não, sobre aquilo que lhe é bom ou não é, enfim, sobre aquilo que lhe serve ou não serve. Esse é o ponto nodal do poder da informação: somente a informação é capaz de preparar o ser humano, conferido-lhe aptidão. Mas a quem interessaria tal quadro? A quem interessaria um planeta habitado por pessoas bem informadas, aptas a decidirem sobre quais caminhos seguir? A cada dia, a possibilidade de nos informarmos é majorada. Mas não nos possibilitam o alcance às informações relevantes, sobre aquilo que realmente importaria em nossas vidas! Não desejam tal fato, pois passaríamos a compor uma sociedade crítica, com aptidão para questionar as mais variadas situações. Vivemos, assim, um momento de crise na humanidade, onde a informação é farta em razão das inovações tecnológicas, mas tal fartura não é disseminada. Assim sendo, nos deparamos com uma imensa maioria de pessoas incapacitada para o nosso tempo e, mais grave, para o futuro. Desse modo, o atual desafio no campo da educação não é somente atingir novos conceitos, mas distribuí-los mundo afora, como uma verdadeira praga! Precisamos educar, informar o maior número de seres humanos possível. Somente assim atingiremos um real estágio de aptidão que nos permitirá sermos críticos de verdade. Aptos, capacitados e informados, escolheremos de forma mais adequada nossos políticos, nossas profissões, nossos parceiros e parceiras de vida, de trabalho, de lazer. Poderemos escolher, aliás, se desejamos sermos aptos ou não. E discerniremos, assim, se desejamos um futuro melhor ou não.
Friday, June 22, 2007
Thursday, June 21, 2007
Erotismo e Pornografia – “Publicidade da Prostituição”
De Léo Lousada
A idade moderna e principalmente o século XX ficarão marcados pela destruição do sujeito e a individualização do ser humano.
No século XX, com a revolução industrial consolidada e o maquinicismo tomando contas das indústrias, o ser humano tem suas funções substituídas por máquinas que tem capacidade produtiva muito maior. Maior produtividade corresponde a maior necessidade de geração de consumo e escoamento dos produtos para o público consumidor. Daí tem-se a origem da mídia em massa e da publicidade moderna.
Desde cedo, a publicidade procura despertar os desejos do inconsciente do ser humano em busca de gerar expectativa e ansiedade. Desperta o desejo sem atendê-lo, apenas dando o que seria a possível solução para a angústia gerada. Levando em conta as teorias de Freud sobre ID e pulsões de vida, há um despertar destas vontades inconscientes e da libido sexual.
Ao mesmo tempo, a sociedade fica cada vez mais deficiente de modelos identificatórios, pois as figuras paternas e maternas encontram-se ausentes devido à necessidade de trabalhar. A mídia passa a criar novos modelos identificatórios para suprir essa carência e através deles vender seus produtos.
Um dos aspectos utilizados pela mídia moderna é a erotização da figura feminina e a pornografia como forma de despertar a libido humana e gerar expectativa de consumo. O Fetichismo e o culto à imagem da mulher perfeita são dois dos mais importantes arquétipos modernos de consumo.
Dúvidas quanto a isso? Assista aos programas de domingo, às publicidades de cerveja, de roupas, de iogurtes e etc. Ou melhor, quem você acha que ganha mais: uma cantora que rebola no palco ou uma professora com mestrado? Infelizmente o puro fetichismo usado na propaganda pode causar um desgaste excessivo dos símbolos sexuais que despertam o desejo no ser humano. Lembro quando tinha 13 anos e dificilmente conseguia ver uma revista masculina. Hoje eu apenas preciso ligar a TV para ver a mesma coisa.
Mas vejam bem, não estou dando uma de santo e falso pregador. O que não concordo é com o fato destas coisas tornarem-se banalizadas a ponto de virarem ferramentas para te convencer de comprar algo.
A idade moderna e principalmente o século XX ficarão marcados pela destruição do sujeito e a individualização do ser humano.
No século XX, com a revolução industrial consolidada e o maquinicismo tomando contas das indústrias, o ser humano tem suas funções substituídas por máquinas que tem capacidade produtiva muito maior. Maior produtividade corresponde a maior necessidade de geração de consumo e escoamento dos produtos para o público consumidor. Daí tem-se a origem da mídia em massa e da publicidade moderna.
Desde cedo, a publicidade procura despertar os desejos do inconsciente do ser humano em busca de gerar expectativa e ansiedade. Desperta o desejo sem atendê-lo, apenas dando o que seria a possível solução para a angústia gerada. Levando em conta as teorias de Freud sobre ID e pulsões de vida, há um despertar destas vontades inconscientes e da libido sexual.
Ao mesmo tempo, a sociedade fica cada vez mais deficiente de modelos identificatórios, pois as figuras paternas e maternas encontram-se ausentes devido à necessidade de trabalhar. A mídia passa a criar novos modelos identificatórios para suprir essa carência e através deles vender seus produtos.
Um dos aspectos utilizados pela mídia moderna é a erotização da figura feminina e a pornografia como forma de despertar a libido humana e gerar expectativa de consumo. O Fetichismo e o culto à imagem da mulher perfeita são dois dos mais importantes arquétipos modernos de consumo.
Dúvidas quanto a isso? Assista aos programas de domingo, às publicidades de cerveja, de roupas, de iogurtes e etc. Ou melhor, quem você acha que ganha mais: uma cantora que rebola no palco ou uma professora com mestrado? Infelizmente o puro fetichismo usado na propaganda pode causar um desgaste excessivo dos símbolos sexuais que despertam o desejo no ser humano. Lembro quando tinha 13 anos e dificilmente conseguia ver uma revista masculina. Hoje eu apenas preciso ligar a TV para ver a mesma coisa.
Mas vejam bem, não estou dando uma de santo e falso pregador. O que não concordo é com o fato destas coisas tornarem-se banalizadas a ponto de virarem ferramentas para te convencer de comprar algo.
Wednesday, June 20, 2007
Incurável
De Lucimara Paiva
Tenho resumido meus dias, minhas noites e o que resta desses dois, em trabalho estressante e mal remunerado e festas desgastantes. Por mais que eu não veja razão em nenhum deles, optei por não parar.
Ignoro a audição prejudicada, o cérebro preguiçoso, os “blackouts” mentais. Ignoro também quando a cabeça manda, o corpo não responde e o coração se mantém vazio.
Escondo a ausência em pessoas superficialmente perfeitas, trabalho “fashion”, entorpecentes ilícitos, tequila e festas de álbum de orkut, para poder brincar de felicidade instantânea que funciona na hora em que aperto o botão do “quero me iludir agora” e desligo nas poucas vezes em que dá para dormir, pois só fecho os olhos quando não consigo mais me mexer.
Quanto mais alto o volume, menos raciocínio. A partir disso fica fácil enlouquecer, subir no balcão, pirar o cabeção como dizem, afinal o mundo é perfeito e um eterno comercial de celular moderno desde que eu acredite nisso.
Quanto mais clientes esgotando minha paciência por causa de um pedaço de papel, mais fácil fica entrar no piloto automático e impedir qualquer possibilidade de sentar, chorar e pedir socorro. Entre baladas e trabalho aproveito para camuflar as “brechas-realidade” com necessidades fúteis e esqueço meu cansaço enquanto procuro minha cura, se é que alguém tem cura*.
Aí chega a hora em que as luzes se apagam, a festa acaba, o expediente termina e todo mundo volta para casa. É o momento em que eu me sento num canto, tiro o scarpin e dou risada de mim mesma. Menina boba, acorde, é tudo mentirinha. Nada disso existe, nenhuma dessas ilusões vai amenizar qualquer falta. É o momento em que peço a última dose de sensatez para tentar responder a constatação mais cruel que surge: “O que eu estou fazendo?Mundo, páraaaa que eu quero descer!”. Porque nada disso tem graça se não tenho com quem dividir cada momento de loucura, medo ou cara de “pidoncha” no final do dia.
*Zeca Baleiro
Tenho resumido meus dias, minhas noites e o que resta desses dois, em trabalho estressante e mal remunerado e festas desgastantes. Por mais que eu não veja razão em nenhum deles, optei por não parar.
Ignoro a audição prejudicada, o cérebro preguiçoso, os “blackouts” mentais. Ignoro também quando a cabeça manda, o corpo não responde e o coração se mantém vazio.
Escondo a ausência em pessoas superficialmente perfeitas, trabalho “fashion”, entorpecentes ilícitos, tequila e festas de álbum de orkut, para poder brincar de felicidade instantânea que funciona na hora em que aperto o botão do “quero me iludir agora” e desligo nas poucas vezes em que dá para dormir, pois só fecho os olhos quando não consigo mais me mexer.
Quanto mais alto o volume, menos raciocínio. A partir disso fica fácil enlouquecer, subir no balcão, pirar o cabeção como dizem, afinal o mundo é perfeito e um eterno comercial de celular moderno desde que eu acredite nisso.
Quanto mais clientes esgotando minha paciência por causa de um pedaço de papel, mais fácil fica entrar no piloto automático e impedir qualquer possibilidade de sentar, chorar e pedir socorro. Entre baladas e trabalho aproveito para camuflar as “brechas-realidade” com necessidades fúteis e esqueço meu cansaço enquanto procuro minha cura, se é que alguém tem cura*.
Aí chega a hora em que as luzes se apagam, a festa acaba, o expediente termina e todo mundo volta para casa. É o momento em que eu me sento num canto, tiro o scarpin e dou risada de mim mesma. Menina boba, acorde, é tudo mentirinha. Nada disso existe, nenhuma dessas ilusões vai amenizar qualquer falta. É o momento em que peço a última dose de sensatez para tentar responder a constatação mais cruel que surge: “O que eu estou fazendo?Mundo, páraaaa que eu quero descer!”. Porque nada disso tem graça se não tenho com quem dividir cada momento de loucura, medo ou cara de “pidoncha” no final do dia.
*Zeca Baleiro
Monday, June 18, 2007
O Tempo não é o que espera*
De Luciana Muniz
Quando se têm vinte e quatro horas para cuidar da própria vida e uma imensa necessidade de fazer hora extra na vida dos outros se faz presente, há algo errado...
O tempo, grande filósofo do universo, é curto demais se formos pensar em uma vida de sessenta, setenta anos em média. O que dá para ser feito neste período? Quantas transformações e descobertas o ser humano consegue em sessenta e cinco anos?
Alguns conseguem entender os sinais divinos e valorizam aquilo que realmente interessa: A simplicidade de compreender que algumas coisas não têm explicação. Os sentimentos não têm explicação, as aptidões naturais também não e aquela minha amiga insistentemente curiosa também não!
Me desespero para completar meus projetos, às vezes amaldiçoou o tempo que ora passa depressa demais, ora lento demais para as minhas necessidades, e no entanto minha querida amiga nada faz além de criticar as minhas atividades!
“ – Você está magra demais!”.
Ela sabe o quanto eu odeio ser “magrinha”...
“ – Nem parece que estuda Sistemas de Informação...”.
Sou analista de sistemas e não PHD em pau de computador!
E por aí vai...
Às vezes tenho um ataque de raiva e sumo da convivência desta minha amiga, meses se passam até que ela me liga super deprimida porque não consegue arranjar um namorado. Como tenho um coração de manteiga derretida esqueço tudo e acabo exaltando todas as suas qualidades, pois sei o quanto ela é carente...
Dias depois, ela já recuperada da carência emocional, me convida para uma baladinha básica, afinal não há momento mais sublime da solteirice do que duas amigas saírem juntas para dançar. Coloco a calça jeans, o corselete preto, o salto alto e vamos em frente!
Mas quando os caras se aproximam de mim... Lá vem a minha “amiga” fazendo questão de relembrar as minhas bebedeiras, as festas em locais mal escolhidos e outras cenas que eu gostaria de esquecer. Não que os gatinhos dêem ouvidos a ela, porque logo percebem a tática desesperada de denegrir a imagem do “inimigo” para ficar por cima da carne seca, e naturalmente começam a evitá-la.
Juro que eu não tenho ódio da minha amiga. Sim... Eu ainda a considero minha amiga... Meus momentos de solidão me mostraram as coisas que são realmente importantes nesta vida e isso não inclui dietas absurdas, necessidade de ser a mais bonita ou a mais popular ou impor minha presença aos meus amigos.
Muitas vezes paro para pensar e invariavelmente fico com pena dela, pois sinto que ela ainda está muito preocupada com coisas menores, talvez demore muito para compreender que pode ser feliz mesmo sendo gordinha, carente e curiosa. Basta que se dê conta disso... E que faça isso logo, pois o tempo não é o que espera!
* Desconheço o autor da frase, quem souber avise-me please! ;)
Quando se têm vinte e quatro horas para cuidar da própria vida e uma imensa necessidade de fazer hora extra na vida dos outros se faz presente, há algo errado...
O tempo, grande filósofo do universo, é curto demais se formos pensar em uma vida de sessenta, setenta anos em média. O que dá para ser feito neste período? Quantas transformações e descobertas o ser humano consegue em sessenta e cinco anos?
Alguns conseguem entender os sinais divinos e valorizam aquilo que realmente interessa: A simplicidade de compreender que algumas coisas não têm explicação. Os sentimentos não têm explicação, as aptidões naturais também não e aquela minha amiga insistentemente curiosa também não!
Me desespero para completar meus projetos, às vezes amaldiçoou o tempo que ora passa depressa demais, ora lento demais para as minhas necessidades, e no entanto minha querida amiga nada faz além de criticar as minhas atividades!
“ – Você está magra demais!”.
Ela sabe o quanto eu odeio ser “magrinha”...
“ – Nem parece que estuda Sistemas de Informação...”.
Sou analista de sistemas e não PHD em pau de computador!
E por aí vai...
Às vezes tenho um ataque de raiva e sumo da convivência desta minha amiga, meses se passam até que ela me liga super deprimida porque não consegue arranjar um namorado. Como tenho um coração de manteiga derretida esqueço tudo e acabo exaltando todas as suas qualidades, pois sei o quanto ela é carente...
Dias depois, ela já recuperada da carência emocional, me convida para uma baladinha básica, afinal não há momento mais sublime da solteirice do que duas amigas saírem juntas para dançar. Coloco a calça jeans, o corselete preto, o salto alto e vamos em frente!
Mas quando os caras se aproximam de mim... Lá vem a minha “amiga” fazendo questão de relembrar as minhas bebedeiras, as festas em locais mal escolhidos e outras cenas que eu gostaria de esquecer. Não que os gatinhos dêem ouvidos a ela, porque logo percebem a tática desesperada de denegrir a imagem do “inimigo” para ficar por cima da carne seca, e naturalmente começam a evitá-la.
Juro que eu não tenho ódio da minha amiga. Sim... Eu ainda a considero minha amiga... Meus momentos de solidão me mostraram as coisas que são realmente importantes nesta vida e isso não inclui dietas absurdas, necessidade de ser a mais bonita ou a mais popular ou impor minha presença aos meus amigos.
Muitas vezes paro para pensar e invariavelmente fico com pena dela, pois sinto que ela ainda está muito preocupada com coisas menores, talvez demore muito para compreender que pode ser feliz mesmo sendo gordinha, carente e curiosa. Basta que se dê conta disso... E que faça isso logo, pois o tempo não é o que espera!
* Desconheço o autor da frase, quem souber avise-me please! ;)
Friday, June 15, 2007
ABSURDO COM LARGURA, ALTURA E PROFUNDIDADE
De Marcelo Ferrari
Infelizmente a cidade não tem mais noite. Sóis eletrônicos se acendem por todos os lados como num estádio de futebol e o espetáculo da escuridão, mesmo estando ali, fica invisível. Já morei na cidade. Bastante tempo. Suficiente para minhas retinas se esquecerem que são duas luas. Atualmente moro em um sítio. Aqui, quando fica de noite, fica de noite. E tanto, que no quarto em que durmo não faz diferença se estou de olhos abertos ou fechados. Assim, muitas vezes acordo antes do sol, da memória e de mim mesmo, só pra ficar de olhos abertos no breu. Sei que acordei. Não sei como sei, pois ainda não existo para estar acordado e contido dentro de um quarto. O que existe antes do sol nascer é nada, um breu profundo e absoluto. Só com os primeiros raios o quarto vai encarnando no espaço. Surge a porta cor de burro quando foge, a janela de ferro e o armário Marabras. E, quanto maior a intensidade de luz, maior é meu estado catatônico na cama. L.a.r.g.u.r.a! A.l.t.u.r.a! P.r.o.f.u.n.d.i.d.a.d.e ! De onde veio isto? Como pode um absurdo destes?! Tenho certeza, não estavam aqui antes. Será que foi o sol que trouxe?L.a.r.g.u.r.a ! A.l.t.u.r.a ! P.r.o.f.u.n.d.i.d.a.d.e! Então, ouço a galo cantando sem parar. E já não sou o único que deseja acordar todos para o absurdo que acaba de acontecer.
Infelizmente a cidade não tem mais noite. Sóis eletrônicos se acendem por todos os lados como num estádio de futebol e o espetáculo da escuridão, mesmo estando ali, fica invisível. Já morei na cidade. Bastante tempo. Suficiente para minhas retinas se esquecerem que são duas luas. Atualmente moro em um sítio. Aqui, quando fica de noite, fica de noite. E tanto, que no quarto em que durmo não faz diferença se estou de olhos abertos ou fechados. Assim, muitas vezes acordo antes do sol, da memória e de mim mesmo, só pra ficar de olhos abertos no breu. Sei que acordei. Não sei como sei, pois ainda não existo para estar acordado e contido dentro de um quarto. O que existe antes do sol nascer é nada, um breu profundo e absoluto. Só com os primeiros raios o quarto vai encarnando no espaço. Surge a porta cor de burro quando foge, a janela de ferro e o armário Marabras. E, quanto maior a intensidade de luz, maior é meu estado catatônico na cama. L.a.r.g.u.r.a! A.l.t.u.r.a! P.r.o.f.u.n.d.i.d.a.d.e ! De onde veio isto? Como pode um absurdo destes?! Tenho certeza, não estavam aqui antes. Será que foi o sol que trouxe?L.a.r.g.u.r.a ! A.l.t.u.r.a ! P.r.o.f.u.n.d.i.d.a.d.e! Então, ouço a galo cantando sem parar. E já não sou o único que deseja acordar todos para o absurdo que acaba de acontecer.
Thursday, June 14, 2007
Relaxa e goza
De Tiago Abad
Relaxa e Goza
E não é o que temos feito ultimamente? Ou nunca viu uma matéria do caos aéreo com um cara em cima do balcão da Gol gritando feito um maluco, dando showzinho e servindo de primeira capa no jornal?
O conceito de “relaxa e goza” tem mudado há alguns anos. Lembro de que quando ouvi isso pela primeira vez, foi ao esperar na fila do Banespa um salariozinho no dia 10. E olha que aquilo não era brincadeira não, horas e horas, a fila do Banespa era bem conhecida. Já ouvi este termo, em portas de estádio, em dias de trânsito indo pra praia, nas portas do saldão das Casas Bahia, e por aí vai. Creio também que é o termo mais utilizado em casas de massagem e puteiros, sem sombra de dúvidas!
Vejo também que o termo pode até ser um bom slogan pro Viagra, é uma idéia! Na era das cavernas isso não existia, era um tacape na cabeça e sei lá se existia o gozar.
E como a tecnologia vem em crescente evolução, o termo não poderia ser deixado pra trás. Há alguns anos atrás, quem imaginaria que este termo seria utilizado com referência aos aeroportos? Imagino que em breve um avião caindo, o cara do seu lado dirá “relaxa e goza”!? E se o seu filho de 4 anos pergunta neste exato momento “Pai, o que é relaxa e goza?”, é, no mínimo, o fim da história da cegonha.
Não farei menções a quem utilizou o termo, mas se eu fosse político, ministro ou filho da puta, também estaria usando este termo. Ah, como estaria! Aliás, estaria só gozando, porque relaxado já faria parte do meu cotidiano. Estaria neste momento relaxando aos cofres públicos, gozando em cada continha assalariada, em cada impostinho pago por mais um objeto da fodelança! Existe este termo? Acho que não, mas quem quiser, pode começar a usar, pois sou também um objeto da fodelança.
Desculpem os palavrões, me retirarei relaxando e gozando, em ritmo de festa: Hei hei hei!
Relaxa e Goza
E não é o que temos feito ultimamente? Ou nunca viu uma matéria do caos aéreo com um cara em cima do balcão da Gol gritando feito um maluco, dando showzinho e servindo de primeira capa no jornal?
O conceito de “relaxa e goza” tem mudado há alguns anos. Lembro de que quando ouvi isso pela primeira vez, foi ao esperar na fila do Banespa um salariozinho no dia 10. E olha que aquilo não era brincadeira não, horas e horas, a fila do Banespa era bem conhecida. Já ouvi este termo, em portas de estádio, em dias de trânsito indo pra praia, nas portas do saldão das Casas Bahia, e por aí vai. Creio também que é o termo mais utilizado em casas de massagem e puteiros, sem sombra de dúvidas!
Vejo também que o termo pode até ser um bom slogan pro Viagra, é uma idéia! Na era das cavernas isso não existia, era um tacape na cabeça e sei lá se existia o gozar.
E como a tecnologia vem em crescente evolução, o termo não poderia ser deixado pra trás. Há alguns anos atrás, quem imaginaria que este termo seria utilizado com referência aos aeroportos? Imagino que em breve um avião caindo, o cara do seu lado dirá “relaxa e goza”!? E se o seu filho de 4 anos pergunta neste exato momento “Pai, o que é relaxa e goza?”, é, no mínimo, o fim da história da cegonha.
Não farei menções a quem utilizou o termo, mas se eu fosse político, ministro ou filho da puta, também estaria usando este termo. Ah, como estaria! Aliás, estaria só gozando, porque relaxado já faria parte do meu cotidiano. Estaria neste momento relaxando aos cofres públicos, gozando em cada continha assalariada, em cada impostinho pago por mais um objeto da fodelança! Existe este termo? Acho que não, mas quem quiser, pode começar a usar, pois sou também um objeto da fodelança.
Desculpem os palavrões, me retirarei relaxando e gozando, em ritmo de festa: Hei hei hei!
Wednesday, June 13, 2007
Parada Gay
De Li de Oliveira
Parada Gay? Sim, eu fui. Aliás, sempre vou. E por que vou? Com toda certeza posso lhe explicar...
Não sou gay, apesar que se fosse não teria o menor problema em dizer. Mas este “ainda” não é o caso. Ninguém sabe o dia de amanhã.Vou porque quero, gosto e preciso celebrar a liberdade. Toda manifestação de liberdade para mim é válida. Na realidade, necessária. Celebro ao direito de ir e vir. Celebro ao direito da personalidade individual. O direito de opinião.Não torço o nariz para quem come jiló. Não torço o nariz para quem fala errado. Para quem é japonês, branco ou negro. Nem mesmo para quem é corinthiano!!! Por que vou torcer meu nariz para quem gosta do mesmo sexo?
Porém, torço o meu nariz (que não é pequeno tá, então é uma bela torcida) para a banalização. Seja ela qual for, e independente a respeito de quê. E desta vez me entristeci ao ver a Parada banalizada.
Muitos curiosos ocupando pouco espaço. Muitos oportunistas aproveitando para aparecer. Muitos ladrões aproveitando o tumulto para roubar. Infelizmente. Muita gente alcoolizada ou drogada. Muito gay sem a noção do verdadeiro motivo pelo o qual ali deviam protestar. Que para mim, é o respeito e direito de igualdade.
Para isso, na minha opinião, não precisam atentar ao pudor quase praticando sexo explícito. Afinal, quem é hetero também não deve fazer isto. A lei é uma só para todos, ou pelo menos, assim deveria ser.
É aquela fina linha que separa e faz muitos confundirem: liberdade com libertinagem. Cada qual corresponde uma atitude e esta difere muito uma da outra.
Ninguém tem que colocar goela a baixo seus gostos. Mas se não compartilha do mesmo, por que não pelo menos respeitar? Ninguém precisa freqüentar boates gays. Fazer festa cada vez que sabe que alguém é gay. Assim como não precisa apedrejá-los.
O sentido da Parada acredito, que seja somente este. A busca, talvez não, pelo entendimento, mas pela compreensão de que eles podem ter um gosto diferente do seu e ainda assim ser tão humano quanto.
Lógico partindo do principio que quem planta respeito, colhe respeito. Se você é gay primeiro se dê ao respeito para ser respeitado.
É isso que espero para Parada do ano que vem. Paz. Uma troca saudável de opiniões. Uma busca humana pelo direito de ser feliz seja como for.
Parada Gay? Sim, eu fui. Aliás, sempre vou. E por que vou? Com toda certeza posso lhe explicar...
Não sou gay, apesar que se fosse não teria o menor problema em dizer. Mas este “ainda” não é o caso. Ninguém sabe o dia de amanhã.Vou porque quero, gosto e preciso celebrar a liberdade. Toda manifestação de liberdade para mim é válida. Na realidade, necessária. Celebro ao direito de ir e vir. Celebro ao direito da personalidade individual. O direito de opinião.Não torço o nariz para quem come jiló. Não torço o nariz para quem fala errado. Para quem é japonês, branco ou negro. Nem mesmo para quem é corinthiano!!! Por que vou torcer meu nariz para quem gosta do mesmo sexo?
Porém, torço o meu nariz (que não é pequeno tá, então é uma bela torcida) para a banalização. Seja ela qual for, e independente a respeito de quê. E desta vez me entristeci ao ver a Parada banalizada.
Muitos curiosos ocupando pouco espaço. Muitos oportunistas aproveitando para aparecer. Muitos ladrões aproveitando o tumulto para roubar. Infelizmente. Muita gente alcoolizada ou drogada. Muito gay sem a noção do verdadeiro motivo pelo o qual ali deviam protestar. Que para mim, é o respeito e direito de igualdade.
Para isso, na minha opinião, não precisam atentar ao pudor quase praticando sexo explícito. Afinal, quem é hetero também não deve fazer isto. A lei é uma só para todos, ou pelo menos, assim deveria ser.
É aquela fina linha que separa e faz muitos confundirem: liberdade com libertinagem. Cada qual corresponde uma atitude e esta difere muito uma da outra.
Ninguém tem que colocar goela a baixo seus gostos. Mas se não compartilha do mesmo, por que não pelo menos respeitar? Ninguém precisa freqüentar boates gays. Fazer festa cada vez que sabe que alguém é gay. Assim como não precisa apedrejá-los.
O sentido da Parada acredito, que seja somente este. A busca, talvez não, pelo entendimento, mas pela compreensão de que eles podem ter um gosto diferente do seu e ainda assim ser tão humano quanto.
Lógico partindo do principio que quem planta respeito, colhe respeito. Se você é gay primeiro se dê ao respeito para ser respeitado.
É isso que espero para Parada do ano que vem. Paz. Uma troca saudável de opiniões. Uma busca humana pelo direito de ser feliz seja como for.
Tuesday, June 12, 2007
Cachorro a dormir na sombra
De Thiago Fabrette
Vendo hoje a imagem de um cachorro a dormir na sombra, me vêm à cabeça muitas coisas simples.
Deixamos a simplicidade de lado e cultuamos a complexidade. Quando, na verdade, a simplicidade me deixa muito mais completo. Complexo.
E hoje eu assisto a um filme ruim que custou milhões de dólares e assisto outros muito melhores que custaram cinco mil vezes menos.
Meio simplista essa comparação? Eu sei. É assim que vejo hoje as coisas.
Uma fogueira, amigos reunidos, uma boa conversa e assuntos nem sempre complexos, quase sempre sobre o tesão de ter coisas simples e cultuar a simplicidade.
Simples como andar sobre uma montanha com poucos, mas ótimos amigos, simples como não fazer absolutamente nada na praia, vendo as ondas lamberem a areia.
Simples como o que fazer de café da manhã. Simples como rir de coisas simples. Simples como tudo o que é simples.
Dormir na sombra. Como um cachorro vadio da praia, sem se preocupar com o amanhã, com as relações políticas, sem se preocupar com o que vão pensar se verem-nos a dormir na areia, como um cão vadio ou como um bife à milanesa.
Olhar o mar. Os pássaros, as árvores. As ondas infinitas.
A montanha.
O céu, a terra e os oceanos. Não é à toa que são cultuados por povos antigos e esquecidos por nós mesmos, no dia a dia complexo. No trabalho, na relação familiar.
Vejo pessoas queridas, que cultuam a complexidade exacerbada e sinto vontade de gritar, de mostrar um outro lado. Sinto vontade de tentar mostrar-lhes. Será que vocês não enxergam? Nada disso é real, meu Deus. Nada disso nos faz mais e melhor.
E nada disso agora me completa.
O que me completa? O mar, as ondas, a montanha.
Ver o céu à noite, em volta da fogueira com os grandes amigos. Será que eu serei condenado por isso? Olharão e dirão: o que procura esse cara nessa simplicidade vazia?
Vazia? Vazia o cacete!
Olhe à sua volta e me diga, o que a sua complexidade lhe traz?
Mas, na verdade, e essa é a verdade absoluta, se a simplicidade me traz essa paz e a complexidade traz a paz ao meu próximo, quem sou eu pra julgá-lo?
No final, cada um é cada um.
Eu com minha simplicidade, vocês com a sua complexidade.
Vendo hoje a imagem de um cachorro a dormir na sombra, me vêm à cabeça muitas coisas simples.
Deixamos a simplicidade de lado e cultuamos a complexidade. Quando, na verdade, a simplicidade me deixa muito mais completo. Complexo.
E hoje eu assisto a um filme ruim que custou milhões de dólares e assisto outros muito melhores que custaram cinco mil vezes menos.
Meio simplista essa comparação? Eu sei. É assim que vejo hoje as coisas.
Uma fogueira, amigos reunidos, uma boa conversa e assuntos nem sempre complexos, quase sempre sobre o tesão de ter coisas simples e cultuar a simplicidade.
Simples como andar sobre uma montanha com poucos, mas ótimos amigos, simples como não fazer absolutamente nada na praia, vendo as ondas lamberem a areia.
Simples como o que fazer de café da manhã. Simples como rir de coisas simples. Simples como tudo o que é simples.
Dormir na sombra. Como um cachorro vadio da praia, sem se preocupar com o amanhã, com as relações políticas, sem se preocupar com o que vão pensar se verem-nos a dormir na areia, como um cão vadio ou como um bife à milanesa.
Olhar o mar. Os pássaros, as árvores. As ondas infinitas.
A montanha.
O céu, a terra e os oceanos. Não é à toa que são cultuados por povos antigos e esquecidos por nós mesmos, no dia a dia complexo. No trabalho, na relação familiar.
Vejo pessoas queridas, que cultuam a complexidade exacerbada e sinto vontade de gritar, de mostrar um outro lado. Sinto vontade de tentar mostrar-lhes. Será que vocês não enxergam? Nada disso é real, meu Deus. Nada disso nos faz mais e melhor.
E nada disso agora me completa.
O que me completa? O mar, as ondas, a montanha.
Ver o céu à noite, em volta da fogueira com os grandes amigos. Será que eu serei condenado por isso? Olharão e dirão: o que procura esse cara nessa simplicidade vazia?
Vazia? Vazia o cacete!
Olhe à sua volta e me diga, o que a sua complexidade lhe traz?
Mas, na verdade, e essa é a verdade absoluta, se a simplicidade me traz essa paz e a complexidade traz a paz ao meu próximo, quem sou eu pra julgá-lo?
No final, cada um é cada um.
Eu com minha simplicidade, vocês com a sua complexidade.
Monday, June 11, 2007
Bebê
De Suzana Marion
Bebê,
Sentir falta é colocar mais um pouco de álcool na ferida, pois sempre lembra o ruivo Nando que “a falta é a morte da esperança” e eu não espero mais te ver. Não quero sentir sua falta, mas sim uma saudade gostosa de tudo o que vivemos e sonhamos juntos em todos esses anos. Eu guardarei os nossos beijos, a nossa troca de incertezas e a apreensão quanto ao futuro na famosa “latinha de ex”, que eu nunca deixei você ver.
Amei ter aprendido a engatinhar com você e dar os meus primeiros passos segurando em suas mãos. Cada palavra me emocionou, cada promessa e, acima de tudo, cada silêncio. Eu decorei tudo em você, seus gestos, seu modo de agir, sua delicadeza... eu pressinto quando o telefone toca e é você, reconheço o som do seu carro dobrando a esquina, eu sei dizer quantos cabelinhos nascem fora do lugar na sua sobrancelha. Até hoje me arrepio quando você chega perto, mesmo com toda a intimidade que nós temos.
Eu antecipo nosso fim nessa carta, como uma criança se despedindo do acampamento de verão, levando comigo todas as lembranças, as boas e também as más, como se os joelhos ralados fossem um troféu da diversão. Estou consciente de que essas lembranças se desgastarão com o tempo e que o seu sorriso fatalmente se perderá em mim, mas está na hora de crescer.
Chegou o momento de seguir em frente, de viver de verdade, de superar as ilusões. O nosso problema é que eu já me decidi, já sei o que quero, o que mais quero no mundo. Está gravado nos meus ossos que eu quero ficar pra sempre com você! Mas você não se decidiu ainda e é provável que não se decida, então não te farei sofrer com as minhas cobranças, com a minha ansiedade, com a minha verdade. A gente não sabe o que está fazendo quando diz “pra sempre” e vamos assumir a verdade, quase nada é pra sempre, mas eu não vou mais te fazer sofrer esperando uma luz te dizer o que é certo fazer.
Eu te devolvo pra sua prisão, porque a minha liberdade não te libertou, não importa o quanto eu leia nos seus olhos essa paixão latente, porque eu quero sempre mais e pra você tudo está bom. Então eu vou embora (e isso não é covardia, você já me encontrou assim), assumindo o que quero e o que sinto e lamentando profundamente não estarmos na mesma página. E eu juro que você vai ser (mais uma vez) pra sempre, a minha primeira opção.
Bebê,
Sentir falta é colocar mais um pouco de álcool na ferida, pois sempre lembra o ruivo Nando que “a falta é a morte da esperança” e eu não espero mais te ver. Não quero sentir sua falta, mas sim uma saudade gostosa de tudo o que vivemos e sonhamos juntos em todos esses anos. Eu guardarei os nossos beijos, a nossa troca de incertezas e a apreensão quanto ao futuro na famosa “latinha de ex”, que eu nunca deixei você ver.
Amei ter aprendido a engatinhar com você e dar os meus primeiros passos segurando em suas mãos. Cada palavra me emocionou, cada promessa e, acima de tudo, cada silêncio. Eu decorei tudo em você, seus gestos, seu modo de agir, sua delicadeza... eu pressinto quando o telefone toca e é você, reconheço o som do seu carro dobrando a esquina, eu sei dizer quantos cabelinhos nascem fora do lugar na sua sobrancelha. Até hoje me arrepio quando você chega perto, mesmo com toda a intimidade que nós temos.
Eu antecipo nosso fim nessa carta, como uma criança se despedindo do acampamento de verão, levando comigo todas as lembranças, as boas e também as más, como se os joelhos ralados fossem um troféu da diversão. Estou consciente de que essas lembranças se desgastarão com o tempo e que o seu sorriso fatalmente se perderá em mim, mas está na hora de crescer.
Chegou o momento de seguir em frente, de viver de verdade, de superar as ilusões. O nosso problema é que eu já me decidi, já sei o que quero, o que mais quero no mundo. Está gravado nos meus ossos que eu quero ficar pra sempre com você! Mas você não se decidiu ainda e é provável que não se decida, então não te farei sofrer com as minhas cobranças, com a minha ansiedade, com a minha verdade. A gente não sabe o que está fazendo quando diz “pra sempre” e vamos assumir a verdade, quase nada é pra sempre, mas eu não vou mais te fazer sofrer esperando uma luz te dizer o que é certo fazer.
Eu te devolvo pra sua prisão, porque a minha liberdade não te libertou, não importa o quanto eu leia nos seus olhos essa paixão latente, porque eu quero sempre mais e pra você tudo está bom. Então eu vou embora (e isso não é covardia, você já me encontrou assim), assumindo o que quero e o que sinto e lamentando profundamente não estarmos na mesma página. E eu juro que você vai ser (mais uma vez) pra sempre, a minha primeira opção.
Friday, June 08, 2007
O helicóptero
De Leandro Molino
A vida é uma coisa realmente estranha. Estranhamente engraçada, divertida. Mas não deixa de ser estranha. Cada indivíduo possui a sua própria história, mesmo fazendo a mesma coisa que os outros estão a fazer: viver. Isso decorre de um montão de associações, desde as escolhas que fazemos, até as características físicas. Uns são mais altos, outros mais baixos. Uns mais fortes, outros nem tanto. Uns mais sagazes, outros menos. E assim é a humanidade, plural. Graças a Deus! Todavia, uma coisa une estes seres que, apesar de humanos, são tão diferentes: as vicissitudes. Todos nós, em dado momento de nossas breves existências, passamos por alguns momentos não tão agradáveis. O que diferencia os homens, nestes casos, é a forma como tais situações são encaradas. Para muitos, o “ato heróico” seria a forma mais adequada de resolver tais situações. Defino o “ato heróico” como aquele conjunto de ações que o sujeito promove no intuito de mostrar que ele sabe qual é o problema, sabe qual é a solução e sabe, mais, com toda a sua sapiência, como administrá-lo. É o “sabe-tudo” que enfrenta a tudo e a todos. Para outros, a melhor maneira é eximir-se da questão, deixando-a de lado. É o omisso, aquele que espera acontecer. Tudo. Estas duas formas, ao meu ver, são limitadas e, em verdade, não resolvem as situações surgidas no nosso cotidiano. Existe, sim, um meio termo. O “ato heróico” pode até resolver uma ou outra questão. Como em uma guerra, por exemplo. Mas quantos de nós, em pleno Século XXI, estarão, verdadeiramente, inseridos em uma guerra real? E o “ato heróico”, ademais, demanda de um gigantesco desgaste emocional. Sempre maior do que o necessário.O fato é que as coisas nunca são tão difíceis quanto parecem ser. Nós, humanos, é que a enfeitamos, tornando-as um monstrengo tão horroroso que não há Pitanguy na vida que dê jeito! Quando as questão da vida surgirem, compreenda que não são de tão difícil solução assim. Somo nós que as tornamos semi-impossíveis. Duvida disso? Pois bem. É seu legítimo e inalienável direito. Mas proponho um exercício: desapegue-se. É! Desapegue-se das questões. Elas existem? Sim, claro. São situações difíceis? Logicamente, pois a dificuldade compõe a convivência. Mas somente uma ferramenta se demonstrou eficaz para a solução destes fatos: a inteligência, capacidade que todos nós dispomos. Seja inteligente com você mesmo e, diante de uma determinada situação, desapegue-se dela e “voe de helicóptero”. É isso mesmo: sobrevoe a tal situação. Imagine-se dentro de um helicóptero e enxergue aquela situação corrente lá de cima, vislumbrando não somente o que está a sua frente, mas outros horizontes, outros recantos, outras possibilidades. Voe de helicóptero sempre que possível! Não estou pregando que você se exima de tudo, pois como pais, filhos, irmãos e profissionais temos as nossas naturais cotas de responsabilidades. Veja bem: voe, com o compromisso de retornar ao solo, propondo uma solução que somente poderia surgir se a tal situação fosse observada por um terceiro. E lá de cima! Podem até chamar-lhe de ausente. Mas, com o tempo, perceberão que você é muito mais presente do que se imagina, pois, inteligentemente e sem desculpas, traz e apresenta as soluções. Voe.
A vida é uma coisa realmente estranha. Estranhamente engraçada, divertida. Mas não deixa de ser estranha. Cada indivíduo possui a sua própria história, mesmo fazendo a mesma coisa que os outros estão a fazer: viver. Isso decorre de um montão de associações, desde as escolhas que fazemos, até as características físicas. Uns são mais altos, outros mais baixos. Uns mais fortes, outros nem tanto. Uns mais sagazes, outros menos. E assim é a humanidade, plural. Graças a Deus! Todavia, uma coisa une estes seres que, apesar de humanos, são tão diferentes: as vicissitudes. Todos nós, em dado momento de nossas breves existências, passamos por alguns momentos não tão agradáveis. O que diferencia os homens, nestes casos, é a forma como tais situações são encaradas. Para muitos, o “ato heróico” seria a forma mais adequada de resolver tais situações. Defino o “ato heróico” como aquele conjunto de ações que o sujeito promove no intuito de mostrar que ele sabe qual é o problema, sabe qual é a solução e sabe, mais, com toda a sua sapiência, como administrá-lo. É o “sabe-tudo” que enfrenta a tudo e a todos. Para outros, a melhor maneira é eximir-se da questão, deixando-a de lado. É o omisso, aquele que espera acontecer. Tudo. Estas duas formas, ao meu ver, são limitadas e, em verdade, não resolvem as situações surgidas no nosso cotidiano. Existe, sim, um meio termo. O “ato heróico” pode até resolver uma ou outra questão. Como em uma guerra, por exemplo. Mas quantos de nós, em pleno Século XXI, estarão, verdadeiramente, inseridos em uma guerra real? E o “ato heróico”, ademais, demanda de um gigantesco desgaste emocional. Sempre maior do que o necessário.O fato é que as coisas nunca são tão difíceis quanto parecem ser. Nós, humanos, é que a enfeitamos, tornando-as um monstrengo tão horroroso que não há Pitanguy na vida que dê jeito! Quando as questão da vida surgirem, compreenda que não são de tão difícil solução assim. Somo nós que as tornamos semi-impossíveis. Duvida disso? Pois bem. É seu legítimo e inalienável direito. Mas proponho um exercício: desapegue-se. É! Desapegue-se das questões. Elas existem? Sim, claro. São situações difíceis? Logicamente, pois a dificuldade compõe a convivência. Mas somente uma ferramenta se demonstrou eficaz para a solução destes fatos: a inteligência, capacidade que todos nós dispomos. Seja inteligente com você mesmo e, diante de uma determinada situação, desapegue-se dela e “voe de helicóptero”. É isso mesmo: sobrevoe a tal situação. Imagine-se dentro de um helicóptero e enxergue aquela situação corrente lá de cima, vislumbrando não somente o que está a sua frente, mas outros horizontes, outros recantos, outras possibilidades. Voe de helicóptero sempre que possível! Não estou pregando que você se exima de tudo, pois como pais, filhos, irmãos e profissionais temos as nossas naturais cotas de responsabilidades. Veja bem: voe, com o compromisso de retornar ao solo, propondo uma solução que somente poderia surgir se a tal situação fosse observada por um terceiro. E lá de cima! Podem até chamar-lhe de ausente. Mas, com o tempo, perceberão que você é muito mais presente do que se imagina, pois, inteligentemente e sem desculpas, traz e apresenta as soluções. Voe.
Wednesday, June 06, 2007
Anônima
De Lucimara Paiva
Quero ser uma mosquinha para descobrir o que você faz ou diz quando ninguém te vê. Assim poderia voar para bem perto do seu ouvido, falar tudo o que penso e novamente sumir.
Quero ser a sombra que te olha de longe e incomoda, mesmo que você não saiba que estou ali apontando o dedo na sua cara para lhe mostrar todos os seus erros.
Quero ser seu anjo e seu diabo, alternar os lados do seu ombro, controlar cada passo, reprimir cada vontade e podar tua opinião. Sinto muito se a sensação de poder for só minha. O importante é que não me atinja.
Não quero olhar nos seus olhos, ficar vulnerável, ter a resposta de troco na mesma altura. Vou mandar recado sem nome só para servir de ameaça.
Queria bisbilhotar sua vida, denegrir sua imagem, te humilhar de graça e sem motivo, apenas porque me dá prazer.
Porém sou de carne e osso e nada do que eu disse é possível, então uso o que o século 21 me deu sem esforço: a internet.
Falo o que penso, xingo e detono quem eu quiser, descubro tudo da sua vida, não meço palavras e espalho comentários deprimentes por aí.
O que eu quero mesmo é fazer com que você fique mal sem nenhuma razão construtiva. Como? Escondo minha cara, viro um personagem, falo sem palavras e respondo tudo como anônima. Você nunca vai descobrir.
Quero ser uma mosquinha para descobrir o que você faz ou diz quando ninguém te vê. Assim poderia voar para bem perto do seu ouvido, falar tudo o que penso e novamente sumir.
Quero ser a sombra que te olha de longe e incomoda, mesmo que você não saiba que estou ali apontando o dedo na sua cara para lhe mostrar todos os seus erros.
Quero ser seu anjo e seu diabo, alternar os lados do seu ombro, controlar cada passo, reprimir cada vontade e podar tua opinião. Sinto muito se a sensação de poder for só minha. O importante é que não me atinja.
Não quero olhar nos seus olhos, ficar vulnerável, ter a resposta de troco na mesma altura. Vou mandar recado sem nome só para servir de ameaça.
Queria bisbilhotar sua vida, denegrir sua imagem, te humilhar de graça e sem motivo, apenas porque me dá prazer.
Porém sou de carne e osso e nada do que eu disse é possível, então uso o que o século 21 me deu sem esforço: a internet.
Falo o que penso, xingo e detono quem eu quiser, descubro tudo da sua vida, não meço palavras e espalho comentários deprimentes por aí.
O que eu quero mesmo é fazer com que você fique mal sem nenhuma razão construtiva. Como? Escondo minha cara, viro um personagem, falo sem palavras e respondo tudo como anônima. Você nunca vai descobrir.
Tuesday, June 05, 2007
Ferrari
De Antonio Zubieta
O que todo mundo quer eu não quero. Por exemplo, eu não quero uma Ferrari. É decidi isso hoje.
O câmbio é duro, as marchas, curtas demais. Você mal engata a primeira e a segunda sai. O banco desconfortável. Quiseram inventar de ser esportivo e tem tanto frufru que as costas doem. No porta-luvas o pior. Por causa do airbag (isso é bom) não há espaço suficiente para colocar a carteira. As chaves de casa ficam fazendo barulho dentro do minúsculo espaço que é destinado, imagino eu, para este fim. O cara que projetou o espaço interno não é o mesmo que fez o carro por fora. Me disseram que o objetivo era esse mesmo. Este carro não é preparado para viagens longas. Outro dia fui até o Rio de Janeiro. Demorei 3 horas e um par de multas.
Fui até a fábrica da Ferrari, é, eles convidam os proprietários para uma visita na fábrica. Pediram autorização para colocar meu nome no painel de proprietários. Me deram uma senha para acessar o site e ficar informado de todas as babozeiras amarelas e vermelhas. Um porre! Tem um monte de jantar chato, coquetel, convite para degustação de vinho, desconto, imagino se isso é útil, para comprar sapatos prada e bolsa fendi. Dei a senha para minha empregada.
Ontem ela disse que entrou no site e que vai num jantar num restaurante lá no Itaim.
Ontem me ligou um cara da concessionária e perguntou se eu estava satisfeito com o carro e com o atendimento. Com o atendimento não pude dizer nada. Nunca precisei dos serviços deles. Do carro, bem, pedi para trocar. Eu só preciso de um carro para trabalhar.
O que todo mundo quer eu não quero. Por exemplo, eu não quero uma Ferrari. É decidi isso hoje.
O câmbio é duro, as marchas, curtas demais. Você mal engata a primeira e a segunda sai. O banco desconfortável. Quiseram inventar de ser esportivo e tem tanto frufru que as costas doem. No porta-luvas o pior. Por causa do airbag (isso é bom) não há espaço suficiente para colocar a carteira. As chaves de casa ficam fazendo barulho dentro do minúsculo espaço que é destinado, imagino eu, para este fim. O cara que projetou o espaço interno não é o mesmo que fez o carro por fora. Me disseram que o objetivo era esse mesmo. Este carro não é preparado para viagens longas. Outro dia fui até o Rio de Janeiro. Demorei 3 horas e um par de multas.
Fui até a fábrica da Ferrari, é, eles convidam os proprietários para uma visita na fábrica. Pediram autorização para colocar meu nome no painel de proprietários. Me deram uma senha para acessar o site e ficar informado de todas as babozeiras amarelas e vermelhas. Um porre! Tem um monte de jantar chato, coquetel, convite para degustação de vinho, desconto, imagino se isso é útil, para comprar sapatos prada e bolsa fendi. Dei a senha para minha empregada.
Ontem ela disse que entrou no site e que vai num jantar num restaurante lá no Itaim.
Ontem me ligou um cara da concessionária e perguntou se eu estava satisfeito com o carro e com o atendimento. Com o atendimento não pude dizer nada. Nunca precisei dos serviços deles. Do carro, bem, pedi para trocar. Eu só preciso de um carro para trabalhar.
Monday, June 04, 2007
O Bronze imaginário
De Luciana Muniz
Quando cheguei ao aeroporto muitos nos aguardavam, estavam ansiosos para receber todos aqueles que participariam da importante exposição. Somente as melhores obras daquele famoso escultor seriam expostas, e eu estava orgulhosa por participar de um evento tão badalado.
O transporte das peças para o museu foi demorado, calor intenso, muito trânsito e eu me sentindo mal por ter que fazer o trajeto frente a frente com um arqueiro de bronze a me fitar, e com sua flecha apontada para os meus pés. Por um instante achei graça deste meu mal estar, totalmente imaginário, ele nada poderia fazer para me ferir.
Finalmente chegamos ao museu, que já contava com mais pessoas especialmente selecionadas para cuidar do bem estar daqueles que dariam sentido à toda aquela logística de transporte. O dia se foi e eu aguardei pacientemente que o sol novamente se elevasse no horizonte, para então observar atentamente a fisionomia das pessoas que visitariam a exposição. Para mim é gratificante ver as mais diversas reações nos rostos que fitam as telas e as esculturas. Uns se admiram com os contornos perfeitos esculpidos artisticamente no bronze, outros se emocionam com a expressão facial das minhas companheiras e se põem a pensar intimamente em mil coisas. Eu as chamo de companheiras porque as vejo assim, como verdadeiras irmãs, pois junto delas viajei pelo mundo, fazendo parte da rotina de muitas exposições. Mas esta exposição em especial teve um sabor diferenciado para mim.
Aconteceu no terceiro dia em que o museu abriu suas portas para os visitantes. Uma garota dos seus oito anos se aproximou timidamente de mim, mas de início não reparei muito nela, pois não imaginava que em mim houvesse qualquer coisa que despertasse a curiosidade infantil. Mas os minutos corriam velozmente e ela não parava de me examinar, confesso que me senti incomodada, principalmente quando em uma olhadela, reparei que ela imitava a minha postura. Seus pais vieram ao seu encalço e eu não entendi porque ficaram com os olhos rasos de lágrimas. Por fim ouvi a mãe confessar baixinho para o marido que sentia um nó na garganta só de pensar que a pequena não sobreviveria a tempo de se tornar a primeira bailarina do teatro municipal. Tinha uma doença grave e sabia disso, por isso era tão silenciosa.
Depois daquela tarde comecei a imaginar as motivações que levam os escultores a criar esculturas tão perfeitas, tão reais. Se eu tivesse o dom de criar algo, faria exatamente como o meu mestre fez, criaria uma bailarina com uma linda saia em musselina e as longas madeixas presas em uma trança. Uma peça que inspirasse e ao mesmo tempo enchesse de esperança os corações daqueles que soubessem ver vida em uma escultura de bronze como eu.
Quando cheguei ao aeroporto muitos nos aguardavam, estavam ansiosos para receber todos aqueles que participariam da importante exposição. Somente as melhores obras daquele famoso escultor seriam expostas, e eu estava orgulhosa por participar de um evento tão badalado.
O transporte das peças para o museu foi demorado, calor intenso, muito trânsito e eu me sentindo mal por ter que fazer o trajeto frente a frente com um arqueiro de bronze a me fitar, e com sua flecha apontada para os meus pés. Por um instante achei graça deste meu mal estar, totalmente imaginário, ele nada poderia fazer para me ferir.
Finalmente chegamos ao museu, que já contava com mais pessoas especialmente selecionadas para cuidar do bem estar daqueles que dariam sentido à toda aquela logística de transporte. O dia se foi e eu aguardei pacientemente que o sol novamente se elevasse no horizonte, para então observar atentamente a fisionomia das pessoas que visitariam a exposição. Para mim é gratificante ver as mais diversas reações nos rostos que fitam as telas e as esculturas. Uns se admiram com os contornos perfeitos esculpidos artisticamente no bronze, outros se emocionam com a expressão facial das minhas companheiras e se põem a pensar intimamente em mil coisas. Eu as chamo de companheiras porque as vejo assim, como verdadeiras irmãs, pois junto delas viajei pelo mundo, fazendo parte da rotina de muitas exposições. Mas esta exposição em especial teve um sabor diferenciado para mim.
Aconteceu no terceiro dia em que o museu abriu suas portas para os visitantes. Uma garota dos seus oito anos se aproximou timidamente de mim, mas de início não reparei muito nela, pois não imaginava que em mim houvesse qualquer coisa que despertasse a curiosidade infantil. Mas os minutos corriam velozmente e ela não parava de me examinar, confesso que me senti incomodada, principalmente quando em uma olhadela, reparei que ela imitava a minha postura. Seus pais vieram ao seu encalço e eu não entendi porque ficaram com os olhos rasos de lágrimas. Por fim ouvi a mãe confessar baixinho para o marido que sentia um nó na garganta só de pensar que a pequena não sobreviveria a tempo de se tornar a primeira bailarina do teatro municipal. Tinha uma doença grave e sabia disso, por isso era tão silenciosa.
Depois daquela tarde comecei a imaginar as motivações que levam os escultores a criar esculturas tão perfeitas, tão reais. Se eu tivesse o dom de criar algo, faria exatamente como o meu mestre fez, criaria uma bailarina com uma linda saia em musselina e as longas madeixas presas em uma trança. Uma peça que inspirasse e ao mesmo tempo enchesse de esperança os corações daqueles que soubessem ver vida em uma escultura de bronze como eu.
Friday, June 01, 2007
PASSEIO DE BICICLETA DA ESTÂNCIA SANTA ANA ATÉ MIRASSOL OUVINDO MP3 NO MÓDULO RANDÔMICO
De Marcelo Ferrari
Respeitável pudico! Vai começar o espantalho! A direita, galinhassauros e piteromoscas. Atrás dotrilho reside um velho milho. Da janela do laranjal, uma montanha de carne e mocotó desfila pocotó peloestádio de futebol. O cavalo trota cheio de estofo na contramão do vai e vento. Nós, inventores da roda,iremos de bicicleta, desejo que vira imaginação, que vira perna, que vira pedal, que vira roda, que vira omundo, alimentando-o de horizontes. Cuidado ao atravessar o mata burro! É preciso pisar em ovos.Aqueles que tiverem nome de santo não precisar doar sangue feito aquelas seringueiras ali. Perdoem-me a barba mal feita do asfalto. Quem estiver sem chapéu pode pegar um no ipê. Damas de rosa. Cavalheiros de amarelo. As vacas não são santistas, nem corintianas, mas o boi, boi, boi, torce pra ponte-preta. Não tem jeito de perder o rumo, é só seguir os fios de alta civilização. Já estamos perto! Podem ver o incêndio de luz na caixa d´água da cidade? Mirassol é logo depois das dunas de capim gordura. Mira! Mira! Chegamos! E quem quiser fixar residência, nem precisa de escritura, bastar tirar os sapatos e deixar crescer a planta dos pés.
Respeitável pudico! Vai começar o espantalho! A direita, galinhassauros e piteromoscas. Atrás dotrilho reside um velho milho. Da janela do laranjal, uma montanha de carne e mocotó desfila pocotó peloestádio de futebol. O cavalo trota cheio de estofo na contramão do vai e vento. Nós, inventores da roda,iremos de bicicleta, desejo que vira imaginação, que vira perna, que vira pedal, que vira roda, que vira omundo, alimentando-o de horizontes. Cuidado ao atravessar o mata burro! É preciso pisar em ovos.Aqueles que tiverem nome de santo não precisar doar sangue feito aquelas seringueiras ali. Perdoem-me a barba mal feita do asfalto. Quem estiver sem chapéu pode pegar um no ipê. Damas de rosa. Cavalheiros de amarelo. As vacas não são santistas, nem corintianas, mas o boi, boi, boi, torce pra ponte-preta. Não tem jeito de perder o rumo, é só seguir os fios de alta civilização. Já estamos perto! Podem ver o incêndio de luz na caixa d´água da cidade? Mirassol é logo depois das dunas de capim gordura. Mira! Mira! Chegamos! E quem quiser fixar residência, nem precisa de escritura, bastar tirar os sapatos e deixar crescer a planta dos pés.
Thursday, May 31, 2007
Apenas números
De Tiago Abad
Você sabia que após a análise de 400 casos solucionados pela polícia, foram presas mais de 5.000 pessoas? Até aí, nenhuma novidade. Mas, entre essas 5.000 pessoas, 1.000 eram ligados à política? (deputados, senadores, filhos da puta, etc.). Ouvi isto na rádio, mas sabe o que fiz? Fiquei puto e desliguei, só queria ouvir música.
Assistindo ao Globo Rural (pois é, assisto isso de vez em quando), vi que em uma fazenda de gado de corte, mais de 8.000 bois são mortos por dia. Claro, isto em uma só fazenda, mesmo porque, se tivéssemos três fazendas (e tem muito mais que isso), teríamos uma marca de 24.000 bois. Poderíamos trocar por políticos, o que acham? Mas, sabe o que fiz? Fiquei depressivo e me confraternizei com alguns parentes dos bois, vítimas, em uma churrascaria.
Neste momento em que digito tudo isso, o mundo está cheio de uma população de 6,6 bilhões.
Na República Democrática do Congo, por exemplo, morrem mais de 1.200 pessoas por dia, segundo a UNICEF, aliás, o Congo é um dos três piores lugares pra se nascer. Podemos mandar políticos pra lá? Mas, sabe o que eu fiz? Isso me deixou tão depressivo que acabei doando uma cesta básica pra um morador de rua.
A Segunda Guerra Mundial provocou a morte de mais ou menos 55 milhões de pessoas; a bomba de Hiroshima matou mais de 60 mil pessoas. Algum político foi morto? Acontece algo com os causadores das guerras? Sabe o que eu fiz? Nada, eu não era nascido, ou talvez fazia parte de outra encarnação. Mas agora estou preocupado com o aquecimento global. Só compro palitos de dente de madeira de reflorestamento, estou reciclando até embalagem de camisinha, e não jogo mais papelzinho na rua. Mas, estou preocupado com os puns das vacas, e volto na questão “será que não é bom matar todas? Afinal, vaca morta não solta pum e não afeta a camada de ozônio”.
Apenas números, ligue seu Ipod e não leia jornais.
Você sabia que após a análise de 400 casos solucionados pela polícia, foram presas mais de 5.000 pessoas? Até aí, nenhuma novidade. Mas, entre essas 5.000 pessoas, 1.000 eram ligados à política? (deputados, senadores, filhos da puta, etc.). Ouvi isto na rádio, mas sabe o que fiz? Fiquei puto e desliguei, só queria ouvir música.
Assistindo ao Globo Rural (pois é, assisto isso de vez em quando), vi que em uma fazenda de gado de corte, mais de 8.000 bois são mortos por dia. Claro, isto em uma só fazenda, mesmo porque, se tivéssemos três fazendas (e tem muito mais que isso), teríamos uma marca de 24.000 bois. Poderíamos trocar por políticos, o que acham? Mas, sabe o que fiz? Fiquei depressivo e me confraternizei com alguns parentes dos bois, vítimas, em uma churrascaria.
Neste momento em que digito tudo isso, o mundo está cheio de uma população de 6,6 bilhões.
Na República Democrática do Congo, por exemplo, morrem mais de 1.200 pessoas por dia, segundo a UNICEF, aliás, o Congo é um dos três piores lugares pra se nascer. Podemos mandar políticos pra lá? Mas, sabe o que eu fiz? Isso me deixou tão depressivo que acabei doando uma cesta básica pra um morador de rua.
A Segunda Guerra Mundial provocou a morte de mais ou menos 55 milhões de pessoas; a bomba de Hiroshima matou mais de 60 mil pessoas. Algum político foi morto? Acontece algo com os causadores das guerras? Sabe o que eu fiz? Nada, eu não era nascido, ou talvez fazia parte de outra encarnação. Mas agora estou preocupado com o aquecimento global. Só compro palitos de dente de madeira de reflorestamento, estou reciclando até embalagem de camisinha, e não jogo mais papelzinho na rua. Mas, estou preocupado com os puns das vacas, e volto na questão “será que não é bom matar todas? Afinal, vaca morta não solta pum e não afeta a camada de ozônio”.
Apenas números, ligue seu Ipod e não leia jornais.
Wednesday, May 30, 2007
Querido(a) Amigo(a)
De Li de Oliveira
Hoje estive pensando em vocês. Em cada um de vocês. Em cada sorriso. Em cada lágrima. Em cada abraço. Senti-me só.
Recordei cada aventura. Furada. Papo sério. E ouvi silêncio.Então me dei conta que estava à mercê do quase. Hoje eu quase te liguei. Quase te escrevi um e-mail. Quase te chamei para irmos a algum lugar. Mas o quase não me permitiu dar continuidade aos meus desejos.O tempo está enlouquecido. Menor. Sobra trabalho. Some a vida. A minha vida. E assim, entrego-me ao quase. Será que você é capaz de me entender?
Todos os dias eu penso em você e rezo para que esteja bem. Com o sorriso no rosto, como uma boba solitária, eu me lembro de tudo que já passamos e querendo que muito mais aconteça. Mas quando?
Hoje eu quase chorei sozinha, ou melhor, no meio de muitas pessoas. Das quais não conheço. Não sei como são e para onde iam. Mas hoje quase me viram chorar. Desta vez o quase, até que me ajudou.
Você de repente pode estar pensando que o esqueci. Pois mal tem notícias minhas. Mas preciso, necessito que saiba que isto é uma grande bobagem, tudo que eu mais queria era poder manter o contato diário com você e poder saber mais da sua vida. Poder falar da minha vida. Mas e este tempo que quase me enlouquece?
Por favor, nunca se esqueça que a minha ausência não corresponde ao meu carinho por você. Sempre que puder estarei junto, perto. Falando aquelas besteiras que tão bem conhece, porque o que melhor faz a minha felicidade é o teu sorriso.
Estou com saudade e acho que merecia saber. Saber que minha vida está mais preto e branco sem você tão perto. Que também me incomoda o silêncio. Que também espero só um alô para saber que ainda somos ligados por nossas almas.
Ah, e quase que me esqueço. Sim, eu o amo. Muito, meu amigo.
Hoje estive pensando em vocês. Em cada um de vocês. Em cada sorriso. Em cada lágrima. Em cada abraço. Senti-me só.
Recordei cada aventura. Furada. Papo sério. E ouvi silêncio.Então me dei conta que estava à mercê do quase. Hoje eu quase te liguei. Quase te escrevi um e-mail. Quase te chamei para irmos a algum lugar. Mas o quase não me permitiu dar continuidade aos meus desejos.O tempo está enlouquecido. Menor. Sobra trabalho. Some a vida. A minha vida. E assim, entrego-me ao quase. Será que você é capaz de me entender?
Todos os dias eu penso em você e rezo para que esteja bem. Com o sorriso no rosto, como uma boba solitária, eu me lembro de tudo que já passamos e querendo que muito mais aconteça. Mas quando?
Hoje eu quase chorei sozinha, ou melhor, no meio de muitas pessoas. Das quais não conheço. Não sei como são e para onde iam. Mas hoje quase me viram chorar. Desta vez o quase, até que me ajudou.
Você de repente pode estar pensando que o esqueci. Pois mal tem notícias minhas. Mas preciso, necessito que saiba que isto é uma grande bobagem, tudo que eu mais queria era poder manter o contato diário com você e poder saber mais da sua vida. Poder falar da minha vida. Mas e este tempo que quase me enlouquece?
Por favor, nunca se esqueça que a minha ausência não corresponde ao meu carinho por você. Sempre que puder estarei junto, perto. Falando aquelas besteiras que tão bem conhece, porque o que melhor faz a minha felicidade é o teu sorriso.
Estou com saudade e acho que merecia saber. Saber que minha vida está mais preto e branco sem você tão perto. Que também me incomoda o silêncio. Que também espero só um alô para saber que ainda somos ligados por nossas almas.
Ah, e quase que me esqueço. Sim, eu o amo. Muito, meu amigo.
Tuesday, May 29, 2007
Foco
De Thiago Fabrette
Mantenha o foco. Elabore. Aconteça em apenas uma coisa. Foque.
Toda semana, me pego perdendo o foco. Desde coisas simples às mais complexas. Em casa, no trabalho, com os amigos.
Semana passada, recebi uma tarefa inusitada da terapeuta. Foque. Pega apenas uma coisa pra fazer de cada vez e mantenha o foco até acabar.
Que coisa mais estranha! Quase não entendi o recado, mas aos poucos, fui tomado por uma lembrança incrível das milhares de coisas que eu precisei terminar e fazer até o fim, mas que deixei de lado.
Uma vez, tentei aprender música. Comprei violão, sacola de proteção para o instrumento, marquei aulas... Sabe o que eu toco hoje em dia? Absolutamente porra nenhuma.
Depois, na onda de um amigo, tentei fazer windsurf. Acho que tento até hoje, sem nem ter uma só vez, velejado sem ser durante as aulas na represa. E ainda pior, paguei depois umas aulas de vela em barco e nunca fiz. Acho que gastei uns R$ 1.000,00 até hoje com isso e nunca velejei.
E faculdade? Biologia. Sem terminar. MBA. Sem terminar.
E no trabalho? Tudo pra última hora e, se puder, tudo chutado.
Incrível como fui surpreendido com a tarefa. Sei que faço isso, sei que isso é ruim, mas continuo. Agora, tenho que mudar isso. É para meu bem, para minha formação.
Então, vamos lá...
Quero aqui ficar escrevendo sobre isso, vamos lá...
(...)
Mantenha o foco. Elabore. Aconteça em apenas uma coisa. Foque.
Toda semana, me pego perdendo o foco. Desde coisas simples às mais complexas. Em casa, no trabalho, com os amigos.
Semana passada, recebi uma tarefa inusitada da terapeuta. Foque. Pega apenas uma coisa pra fazer de cada vez e mantenha o foco até acabar.
Que coisa mais estranha! Quase não entendi o recado, mas aos poucos, fui tomado por uma lembrança incrível das milhares de coisas que eu precisei terminar e fazer até o fim, mas que deixei de lado.
Uma vez, tentei aprender música. Comprei violão, sacola de proteção para o instrumento, marquei aulas... Sabe o que eu toco hoje em dia? Absolutamente porra nenhuma.
Depois, na onda de um amigo, tentei fazer windsurf. Acho que tento até hoje, sem nem ter uma só vez, velejado sem ser durante as aulas na represa. E ainda pior, paguei depois umas aulas de vela em barco e nunca fiz. Acho que gastei uns R$ 1.000,00 até hoje com isso e nunca velejei.
E faculdade? Biologia. Sem terminar. MBA. Sem terminar.
E no trabalho? Tudo pra última hora e, se puder, tudo chutado.
Incrível como fui surpreendido com a tarefa. Sei que faço isso, sei que isso é ruim, mas continuo. Agora, tenho que mudar isso. É para meu bem, para minha formação.
Então, vamos lá...
Quero aqui ficar escrevendo sobre isso, vamos lá...
(...)
Monday, May 28, 2007
Tuquinha
De Suzana Marion
É domingo a noite e por incrível que pareça, a casa está cheia. Faz muito frio e toda vez que eu me ajeito chega mais alguém e eu corro pra porta pra receber. E tem gente que ainda reclama porque eu vou correndo, porque eu faço barulho... se eu pudesse eu diria “então vai você”!
Todos estão conversando animadamente, mas às vezes alguém pára um pouco pra ver o que eu estou fazendo. Nesses momentos eles me olham assim, como garoto que a mãe contou que o cachorro caiu da mudança. O pior é que se eu vou até eles com todo o meu carinho, eles riem e dizem que eu sou muito confiada... vai entender.
Agora é outro que me chama lá na sala. Ele levanta a mãozona e dá um tapinha de leve no meu bumbum, só pra me assustar. Todos estão jantando e eu to aqui semi-nua, no chão, pedindo por comida... custa colaborar? Tem quem se compadeça e me lance umas migalhas e tem também quem diga que ali não é o meu lugar... então eu volto pra sala e percebo que o cara está me dando atenção porque ficou com vergonha de me mandar sair dali na frente da namorada. Mas tudo bem, já me toquei, e já encontrei quem me dê atenção e carinho, mesmo que por gratidão por ter se escondido atrás de mim pra fugir e impressionar o sogro. Pronto, já estou quentinha novamente e o atrevido fazendo carinho na minha barriga!!!Olha só, tem mais gente chegando, e lá vou eu outra vez correr pro portão, nesse frio, receber as visitas! E quem sabe, depois de ter feito o meu serviço direitinho, de abanar o rabinho e latir pros estranhos, eu não ganho um belo osso?!
É domingo a noite e por incrível que pareça, a casa está cheia. Faz muito frio e toda vez que eu me ajeito chega mais alguém e eu corro pra porta pra receber. E tem gente que ainda reclama porque eu vou correndo, porque eu faço barulho... se eu pudesse eu diria “então vai você”!
Todos estão conversando animadamente, mas às vezes alguém pára um pouco pra ver o que eu estou fazendo. Nesses momentos eles me olham assim, como garoto que a mãe contou que o cachorro caiu da mudança. O pior é que se eu vou até eles com todo o meu carinho, eles riem e dizem que eu sou muito confiada... vai entender.
Agora é outro que me chama lá na sala. Ele levanta a mãozona e dá um tapinha de leve no meu bumbum, só pra me assustar. Todos estão jantando e eu to aqui semi-nua, no chão, pedindo por comida... custa colaborar? Tem quem se compadeça e me lance umas migalhas e tem também quem diga que ali não é o meu lugar... então eu volto pra sala e percebo que o cara está me dando atenção porque ficou com vergonha de me mandar sair dali na frente da namorada. Mas tudo bem, já me toquei, e já encontrei quem me dê atenção e carinho, mesmo que por gratidão por ter se escondido atrás de mim pra fugir e impressionar o sogro. Pronto, já estou quentinha novamente e o atrevido fazendo carinho na minha barriga!!!Olha só, tem mais gente chegando, e lá vou eu outra vez correr pro portão, nesse frio, receber as visitas! E quem sabe, depois de ter feito o meu serviço direitinho, de abanar o rabinho e latir pros estranhos, eu não ganho um belo osso?!
Friday, May 25, 2007
A árvore
De Leandro Molino
Dia destes, observando uma pastagem, dei conta da existência de uma frondosa, altíssima e forte árvore. Isolada de todos os lados. Provavelmente, todas as suas semelhantes foram dizimadas quando o ser humano ali resolveu agir, intervindo na criação daquele pasto. Uma sobrevivente, portanto. Tirante as questões ambientais, que não pretendo abordar, até que aquela intervenção ficou bem bonita: um conjunto de pequenos montes, todos cobertos de um verde pasto, com esta solitária sobrevivente num de seus pontos mais altos, como se fosse a majestade local, a observar toda a extensão do seu reino. Todavia, apesar da indubitável beleza deste cenário, confesso que me bateu uma certa tristeza quando o observava. Fiquei imaginando aquela árvore, ali, naquele lugar bucólico. Sozinha. Tem gente que afirma conversar com as plantas e árvores. Tem gente que acredita nesta possibilidade. Outras, nem tanto. Fato é que aquela especial árvore me parecia uma espécie anciã, daquelas multi-centenárias que ainda existem Mundo afora. Deve ter passado, portanto, por situações incrivelmente interessantes, pois está lá, naquele cume, há mais tempo que todos nós. Uma sábia, sem dúvidas. Se eu quisesse conversar com alguma árvore, conversaria com aquela, para saber sobre fatos antigos, situações ocorridas às suas vistas, à sua sombra. Desejaria questionar-lhe sobre namoros, beijos, nascimentos, mortes, enfim, tudo o que ocorreu ao longo de todos estes muitos anos à sua margem. Gostaria de perguntar, ainda, como é que ela consegue ser tão forte, bela e vistosa vivendo solitariamente. E perguntaria se vale a pena ser tão deslumbrante sozinha. Será?
Dia destes, observando uma pastagem, dei conta da existência de uma frondosa, altíssima e forte árvore. Isolada de todos os lados. Provavelmente, todas as suas semelhantes foram dizimadas quando o ser humano ali resolveu agir, intervindo na criação daquele pasto. Uma sobrevivente, portanto. Tirante as questões ambientais, que não pretendo abordar, até que aquela intervenção ficou bem bonita: um conjunto de pequenos montes, todos cobertos de um verde pasto, com esta solitária sobrevivente num de seus pontos mais altos, como se fosse a majestade local, a observar toda a extensão do seu reino. Todavia, apesar da indubitável beleza deste cenário, confesso que me bateu uma certa tristeza quando o observava. Fiquei imaginando aquela árvore, ali, naquele lugar bucólico. Sozinha. Tem gente que afirma conversar com as plantas e árvores. Tem gente que acredita nesta possibilidade. Outras, nem tanto. Fato é que aquela especial árvore me parecia uma espécie anciã, daquelas multi-centenárias que ainda existem Mundo afora. Deve ter passado, portanto, por situações incrivelmente interessantes, pois está lá, naquele cume, há mais tempo que todos nós. Uma sábia, sem dúvidas. Se eu quisesse conversar com alguma árvore, conversaria com aquela, para saber sobre fatos antigos, situações ocorridas às suas vistas, à sua sombra. Desejaria questionar-lhe sobre namoros, beijos, nascimentos, mortes, enfim, tudo o que ocorreu ao longo de todos estes muitos anos à sua margem. Gostaria de perguntar, ainda, como é que ela consegue ser tão forte, bela e vistosa vivendo solitariamente. E perguntaria se vale a pena ser tão deslumbrante sozinha. Será?
Thursday, May 24, 2007
Dona Corruptela
De Léo Lousada
Às 06:00h, Dona Corruptela já estava acordada e dando café para as crianças. Como sempre, estava com pressa e pegou um pacote de bolacha para ir comendo no caminho. Às 07:00h estava saindo de casa e lembrou que seu carro estava no rodízio, mas já conhecia um caminho em que não havia nenhum CET até o colégio das crianças. Foi fazendo o caminho e realmente não havia fiscal para multá-la.
Ia dirigindo e comendo suas bolachas e assim que acabou o pacote, ela não pensou duas vezes e o atirou pela janela.
Quase chegando ao colégio, lembrou que havia deixado roupa de molho na máquina e aproveitou para ligar do celular para casa para avisar a empregada de ligar a máquina de lavar. Entre as manobras com uma mão só e as ordens para a empregada, Dona Corruptela chegou ao colégio das crianças. Como sempre parou o carro em fila dupla e deixou os filhos no colégio.
Às 07:30h já estava a caminho do trabalho e decidiu comprar uma pasta numa papelaria para apresentar o novo projeto pelo qual ela estava trabalhando há um mês. Parou em local proibido, pois era rapidinho, e lá foi comprar a pasta. Comprou e foi ao trabalho.
No trabalho, Dona Corruptela fez sua apresentação com maestria e habilidade, deixando a todos na sala muito convencidos de seu projeto. Era um projeto pequeno, mas seria para a prefeitura e isso poderia render bons frutos para a empresa onde Dona Corruptela trabalhava. Entretanto, um dos sócios da empresa lembrou sua funcionária que era um projeto público e que haveria licitação, e o projeto de Dona Corruptela não era dos mais baratos. Mas nossa heroína já tinha uma resposta pronta: ela iria inscrever mais duas empresas fantasmas com preços maiores para garantir a aprovação de seu projeto. Foi muito aplaudida e ela não sabia, mas depois seria promovida por isso.
Aquele dia Dona Corruptela saiu mais cedo do trabalho (afinal, ela merecia) e foi até uma doceria. Novamente ela parou em local proibido, afinal era rapidinho de novo, e comeu seu doce. Seu doce sucesso. Ao sair deu de cara com um “marronzinho” preparando o talão para multá-la. Depois de uma curta conversa e R$ 20,00, Dona Corruptela escapou daquele vilão que queria estragar seu dia.
Decidiu pegar as crianças mais cedo na escola, pois já eram 17:00h e seguindo pelo caminho sem “CETs” chegou a sua casa.
Fez o jantar e sentou-se no sofá para ver o Jornal Nacional com seu marido. Dona Corruptela ficou horrorizada com o escândalo do Ministro de Minas e Energia. “É um absurdo esse país, os políticos que deveriam dar o exemplo e olha só a quantidade de maracutaia que eles fazem”.
E esse foi mais um dia de Dona Corruptela. Uma típica brasileira.
Às 06:00h, Dona Corruptela já estava acordada e dando café para as crianças. Como sempre, estava com pressa e pegou um pacote de bolacha para ir comendo no caminho. Às 07:00h estava saindo de casa e lembrou que seu carro estava no rodízio, mas já conhecia um caminho em que não havia nenhum CET até o colégio das crianças. Foi fazendo o caminho e realmente não havia fiscal para multá-la.
Ia dirigindo e comendo suas bolachas e assim que acabou o pacote, ela não pensou duas vezes e o atirou pela janela.
Quase chegando ao colégio, lembrou que havia deixado roupa de molho na máquina e aproveitou para ligar do celular para casa para avisar a empregada de ligar a máquina de lavar. Entre as manobras com uma mão só e as ordens para a empregada, Dona Corruptela chegou ao colégio das crianças. Como sempre parou o carro em fila dupla e deixou os filhos no colégio.
Às 07:30h já estava a caminho do trabalho e decidiu comprar uma pasta numa papelaria para apresentar o novo projeto pelo qual ela estava trabalhando há um mês. Parou em local proibido, pois era rapidinho, e lá foi comprar a pasta. Comprou e foi ao trabalho.
No trabalho, Dona Corruptela fez sua apresentação com maestria e habilidade, deixando a todos na sala muito convencidos de seu projeto. Era um projeto pequeno, mas seria para a prefeitura e isso poderia render bons frutos para a empresa onde Dona Corruptela trabalhava. Entretanto, um dos sócios da empresa lembrou sua funcionária que era um projeto público e que haveria licitação, e o projeto de Dona Corruptela não era dos mais baratos. Mas nossa heroína já tinha uma resposta pronta: ela iria inscrever mais duas empresas fantasmas com preços maiores para garantir a aprovação de seu projeto. Foi muito aplaudida e ela não sabia, mas depois seria promovida por isso.
Aquele dia Dona Corruptela saiu mais cedo do trabalho (afinal, ela merecia) e foi até uma doceria. Novamente ela parou em local proibido, afinal era rapidinho de novo, e comeu seu doce. Seu doce sucesso. Ao sair deu de cara com um “marronzinho” preparando o talão para multá-la. Depois de uma curta conversa e R$ 20,00, Dona Corruptela escapou daquele vilão que queria estragar seu dia.
Decidiu pegar as crianças mais cedo na escola, pois já eram 17:00h e seguindo pelo caminho sem “CETs” chegou a sua casa.
Fez o jantar e sentou-se no sofá para ver o Jornal Nacional com seu marido. Dona Corruptela ficou horrorizada com o escândalo do Ministro de Minas e Energia. “É um absurdo esse país, os políticos que deveriam dar o exemplo e olha só a quantidade de maracutaia que eles fazem”.
E esse foi mais um dia de Dona Corruptela. Uma típica brasileira.
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